Mesopotâmia – Textos sapienciais 3 – Teodiceia Babilónica – Diálogo sobre a miséria humana

POR DETRÁS DA BÍBLIA  V

Mesopotâmia: Textos sapienciais 3 – Teodiceia Babilónica – Diálogo sobre a miséria humana

Pe. Júlio Franclim do Couto e Pacheco

Leia, aqui, Teodiceia Babilónica - Diálogo sobre a miséria humana

              A literatura sapiencial floresceu em todo o Antigo Oriente. Na Mesopotâmia, desde a época suméria, foram compostos provérbios, fábulas e poemas sobre o sofrimento que se assemelham ao livro de Job. Esta sabedoria mesopotâmica penetrou em Canaan: encontraram-se em Rash Shamra (antiga Ugarit) textos sapienciais escritos em acádico.

                Esta sabedoria é internacional. Tem poucas preocupações religiosas e fica no plano do profano. Esclarece o destino dos indivíduos, não por uma reflexão filosófica à maneira dos gregos, mas colhendo os frutos da experiência. É uma arte de viver bem e um sinal de boa educação. Ensina o homem a conformar-se à ordem do universo e deveria dar-lhe os meios de ser feliz e prosperar. Mas nem sempre isso acontece; por isso, esta experiência justifica o pessimismo de certas obras de sabedoria.

                Não é de admirar que as primeiras obras sapienciais de Israel se pareçam muito com as dos seus vizinhos: todas elas provêm do mesmo ambiente. As partes antigas dos Provérbios não apresentam senão preceitos de sabedoria humana. Se exceptuarmos Eclesiástico e Sabedoria, que são os mais recentes, os livros sapienciais não abordam os grandes temas do Antigo Testamento: a Lei, a Aliança, a Eleição, a Salvação. Os sábios de Israel não se preocupam com a história ou com o futuro do seu povo; eles pesquisam o destino dos indivíduos, tal como os sábios orientais. Mas consideram-no sob uma luz mais alta, a da religião javista. Apesar da origem comum e de tantas semelhanças, existe, a favor da sabedoria israelita, uma diferença essencial, que se acentua com o progresso da Revelação.

                Os textos apresentados nesta secção de textos sapienciais apresentam características muito diversas.

            As chamadas Instruções de Shuruppak, escritas à volta de 2600 a.C., é uma das mais antigas obras literárias que se conhecem, e que se denominam «textos de sabedoria sumérios. O Poema do Justo Sofredor, também intitulada Ludlul Bel nemeqi («Louvarei o Senhor da sabedoria»), do II milénio a.C. constitui até hoje o poema de carácter sapiencial mais comprido em língua babilónica. A Teodiceia Babilónica, ou Diálogo sobre a miséria humana, é uma poesia provavelmente anterior ao ano 1000 a.C.. Neste maravilhoso diálogo encontramos algo  parecido com o livro de Job. O Diálogo do Pessimismo, que em acádio teve o título de Arad mitanquranni («Servo escuta-me»), é uma composição que deve datar dos princípios do primeiro milénio a.C.. Trata-se dum diálogo que se desenvolve entre um rico proprietário e o seu escravo.

                Também foram encontradas uma vintena de colecções de Provérbios sumérios com extensões diversas, das quais apresentamos apenas três, e um conjunto de Provérbios e Conselhos acádicos.