Sáb. Out 23rd, 2021
‘Vestigia Dei ‘- Rubrica dedicada à reflexão sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa
(Parceria com o projeto Teotopias)

[1.] CONJETURAR E DESCONSTRUIR[1]

MESMO AO FALAR DE DEUS EU ME ESQUEÇO DE DEUS[2]

José Rui Teixeira

Há uns anos, em «A primitiva labareda»[3], Tolentino Mendonça repetiu a pergunta de Jean-Claude Pinson, em Habiter en poète[4]: «Que relação pode ainda estabelecer a poesia moderna com qualquer coisa da ordem do sagrado?». E repetiu-a não certamente como quem se dispõe a encontrar uma resposta, mas como quem se propõe a adentrar-se na pergunta. Não quero distanciar-me de «A primitiva labareda» de Tolentino Mendonça, não porque aí encontre uma resposta, mas porque me permite recentrar o problema na densidade premente da pergunta.

Esta reflexão sobre o lugar de Deus na poesia não parte de um propósito académico específico mais ou menos definido. Pode mesmo ser o exercício de uma certa ininteligibilidade propositada, na medida em que se não consigo abranger a extensão de um conceito como «poesia», como poderei estabelecer os critérios de compreensão de uma expressão como «lugar de Deus»? Mesmo se circunscrevesse esta reflexão à poesia contemporânea; ou, especificamente, à poesia portuguesa contemporânea, continuaria com um conceito excessivamente extenso. E o problema não é tanto a abstrata extensão do conceito, mas sobretudo as concretas dimensões do objeto. Mesmo se me limitasse à obra poética de um autor, como poderia aí «situar» Deus?

Perscrutar o lugar de Deus (como interrogação) na poesia contemporânea ou na obra de um determinado autor, passa por saber se Deus é aí – ainda – um «nome» possível, ou seja: passa por saber se nos vastos territórios da poesia – da literatura e da arte – ainda há teotopias. E esta não é necessariamente uma formulação mais simples. Esta questão não é simples[5] em nenhuma das suas formulações possíveis, independentemente do enquadramento temporal ou dos processos de redução contextual da reflexão.

Quando nos perguntamos sobre o lugar de Deus na poesia contemporânea, talvez admitamos – mais ou menos conscientemente – a existência deste pressuposto: o lugar de Deus na literatura é temporalmente variável. Ou seja: na literatura antiga ou medieval, Deus ocupava um lugar diferente daquele que veio a ocupar na literatura moderna ou que ocupa na literatura contemporânea.

Levanta-se aqui um problema que não é meramente temporal, mesmo que a pergunta de Jean-Claude Pinson incida concretamente na possibilidade da relação da «poesia moderna» com qualquer coisa da ordem do sagrado. Presumo que – por «poesia moderna» – Pinson queira dizer «poesia contemporânea» e optarei por «poesia contemporânea» para desambiguar a relação com a modernidade.

Nesse sentido, creio que não é problemático considerarmos contemporânea a literatura do nosso tempo: dos últimos trinta anos, se tivermos a queda do Muro de Berlim como referência histórico-simbólica do fim da modernidade – chamemos-lhe pós-moderna, nem que seja por uma questão de conveniência circunstancial. Também não creio que seja problemático aceitarmos, com o propósito bem definido de compartimentação temporal, que um autor da primeira metade do século xx – já – não é contemporâneo. No entanto, teremos de desdobrar os espaços transfronteiriços da cronologia da história da cultura, fazendo uso de outra perspetiva de Walter Benjamin: podemos aceitar – não sem algumas reservas – que a obra de um autor seja contemporânea em função do alcance e da perduração da sua legibilidade[6].

Não importa esmiuçar aqui esta questão, até porque o lugar de Deus, ou essa «qualquer coisa da ordem do sagrado» da pergunta de Pinson, seja na poesia, seja nas mais prosaicas expressões do quotidiano, é uma questão temporalmente enfatizada pelo processo de secularização, que a modernidade (sob)redimensionou no final do século xix e durante o século xx, até aos nossos dias. E, se não importa esmiuçar aqui esta questão, é fundamentalmente porque parece-me uma questão acessória: afirmar que o processo de secularização expulsou Deus da poesia dos últimos duzentos anos – ou dos últimos trinta – resulta numa observação irrelevante, tão fútil quanto qualquer outra generalização precipitada.

E se centramos esta reflexão no aqui e agora da nossa condição, não importa tanto saber se hoje se escrevem (ou se leem) mais ou menos livros sobre Deus, ou se os seus títulos, explícita ou implicitamente, integram o semantema «Deus». Ou seja: à teotopologia literária não importaria tanto saber se, proporcionalmente, Deus é mais ou menos evocado, refletido, afirmado ou negado em obras medievais, nos versos de um poeta romântico ou nas páginas de um ficcionista contemporâneo. Um estudo desse género teria certamente algum interesse, mas é pouco relevante para sabermos se Deus é ainda, na poesia – na literatura, na arte – do nosso tempo, um «nome» possível.

 

Com efeito, poderíamos tentar situar o problema na expressão do semantema «Deus» num contexto mais circunscrito. Por exemplo, na poesia portuguesa publicada durante ano passado. Depois de sabermos quantos livros foram publicados em Portugal em 2017, precisaríamos saber quantos desses livros imprimiram poesia e teríamos de, depois de uma leitura criteriosamente analítica e hermenêutica, quantificar ocorrências, identificar contextos, estabelecer similitudes semânticas e, por fim, apresentar estatísticas.

Porém, não importa tanto saber quanto espaço o semantema «Deus» ocupou nas páginas dos livros de um género literário específico num determinado período ou numa perspetiva histórico-literária mais geral. Importa, sim, tentar perceber o modo como Deus (como interrogação) tem habitado não só as páginas dos livros, mas também o imaginário dos seus autores, seja na homilética barroca, nos labirínticos enredos dos românticos e dos existencialistas, ou nas derivas dos experimentalistas. E perceber o modo como Deus tem habitado o imaginário dos escritores, implica – de alguma maneira – tentar perceber o modo como tem habitado o imaginário dos leitores. E é isso que define a teotopia literária: não se trata de um templo, reduto de um sagrado abstrato e interdito, mas de um lugar despossuído – penso em periferias e em baldios –, um lugar coabitado, cuja referencialidade mais íntima é a da presença e da ausência[7].

Existe a consciência generalizada de que nos nossos dias Deus – a ideia de Deus, o mistério de Deus, Deus como interrogação – é uma questão secundária. Do mesmo modo, considera-se que terá sido uma questão fundamental na Idade Média, tão insistente e caracterizada e compartimentada como teocêntrica, tão insistentemente depreciada também por isso. Devemos este tipo de perspetivas ao simplismo com que se estabelecem os estereótipos. Seria desnecessário – e mesmo risível – perguntarmos quantos contemporâneos de Francisco de Assis terão experimentado a intensidade incendida da sua espiritualidade ou quantos contemporâneos de Tomás de Aquino terão discutido as implicações da sua Suma de Teologia. É evidente que o comportamento de Francisco de Assis constituía uma excentricidade – e até mesmo um escândalo – para a generalidade os seus contemporâneos, mesmo no meio eclesiástico, onde não faltou quem o considerasse herético; e foram raros os interlocutores intelectuais de Tomás de Aquino – terão sido mais os que reagiram à fama da sua eloquência do que os que se adentraram nas profundezas do seu pensamento teológico e filosófico.

Talvez não seja fácil aceitarmos que em todas as sociedades existe uma percentagem pouco relevante e mais ou menos estável de pessoas para quem a questão de Deus – a ideia de Deus, o mistério de Deus, Deus como interrogação – é uma dimensão importante das suas vidas. Com efeito, independentemente da diversidade e da especificidade dos contextos sociológicos, eclesiais e histórico-culturais, a generalidade das pessoas – na Idade Média ou nos nossos dias – não considera essa uma questão estruturante e existencialmente relevante. E considerar a questão de Deus como estruturante e existencialmente relevante não depende de as igrejas estarem cheias ou vazias, nem de se tratar de um meio urbano ou de um meio rural, nem de se observarem mais ou menos práticas religiosas, nem de se tratar de uma sociedade com mais ou menos promiscuidade institucional entre a Igreja e o Estado.

Não creio que em Portugal o número de batizados – ou mesmo o número de pessoas com o mínimo de implicação eclesial – seja determinante para revalorizar a questão de Deus nas suas implicações e expressões mais profundas. Quero com isto relativizar o argumento da diferenciação espácio-temporal, ou seja: creio que a questão de Deus não é necessariamente mais considerada num contexto medieval ou rural – em que a Igreja tem uma presença institucional, sociológica e tradicional mais evidente – do que nos labirintos desta indefinida pós-modernidade, nas encruzilhadas das nossas grandes cidades. Do mesmo modo, uma poesia em que o semantema «Deus» é recorrente não considera necessariamente mais a questão de Deus do que uma poesia em que esse semantema é fundamentalmente omisso.

Importa ainda afirmar que a questão de Deus – a ideia de Deus, o mistério de Deus, Deus como interrogação – está longe de ser uma questão circunscrita aos meios religiosos sociologicamente demarcados. No caso concreto da literatura portuguesa dos últimos duzentos anos, o contributo de autores considerados ateus, agnósticos ou apenas anticlericais para a reflexão sobre a questão de Deus não foi menos profundo nem menos consequente do que o do pensamento teológico em contexto académico ou eclesial.

[1] A partir de um ensaio de 2013: «O vazio que persiste à minha beira. Sobre o lugar de Deus na poesia contemporânea», escrito para o n.º 224 da revista Igreja e Missão (setembro/dezembro de 2013, pp. 369-384) e posteriormente publicado pela Cátedra Poesia e Transcendência (Porto, Universidade Católica Portuguesa, 2013).

[2] Ruy Belo, Todos os poemas, p. 374.

[3] José Tolentino Mendonça, «A primitiva labareda» (prefácio), in Ana Marques Gastão, António Rego Chaves e Armando Silva Carvalho, Três vezes Deus, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, pp. 9-12.

[4] Jean-Claude Pinson, Habiter en poète, Ceyzérieu, Champ Vallon, 1995.

[5] Temo ter aprendido com Nabokov um incorrigível preconceito em relação à simplicidade aplicada à literatura. Não resisto a citar uma passagem do posfácio que escreveu para A morte de Ivan Iliitch: «Podem ter visto, devem ter visto alguns desses manuais horríveis escritos não por educadores, mas por “educacionalistas” – por pessoas que falam sobre os livros em vez de falarem dentro dos livros. Se calhar disseram-vos que o principal objetivo de um grande escritor, e até a principal marca da sua grandeza, é a “simplicidade”. São traidores, não professores. Ao ler testes escritos por estudantes desencaminhados, de ambos os sexos, sobre este ou aquele autor, já me deparei muitas vezes com frases – provavelmente lembranças de anos mais antigos de escolaridade – como “o estilo dele é simples” ou “o estilo dele é claro e simples” ou “o estilo dele é bonito e simples” ou “o estilo dele é bastante bonito e simples”. Mas lembrem-se de que a “simplicidade” é oca. Nenhum grande escritor é simples. O jornal é simples. O jornalês é simples. Upton Lewis é simples. A mamã é simples. Os resumos são simples. A porcaria é simples. Mas os Tolstóis e os Melvilles não são simples» – Vladimir Nabokov, «Posfácio», in Lev Tolstói, A morte de Ivan Iliitch, Lisboa, Relógio D’Água, 2007, p. 102.

[6] Pensemos na vida e na obra de dois autores como Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa à luz da questão da «legibilidade» proposta por Walter Benjamin – cf. Libro de los pasajes (N 3, 1), p. 465. Nasceram em 1877 e 1888, respetivamente; Pascoaes morreu em 1952, com 75 anos, e Pessoa em 1935, com 47. Pascoaes viveu mais tempo, foi mais reconhecido em vida, teve mais edições (e inúmeras traduções) e foi significativamente mais lido na primeira metade do século xx; porém – durante a segunda metade – esta situação inverteu-se: hoje, Pessoa não tem apenas mais reconhecimento, mais edições e mais leitores – tornou-se um autor universal. Significa isto que o tempo de um autor pode não coincidir com o seu contexto existencial, mas com o alcance e a perduração da sua legibilidade.

[7] Seria muito interessante aprofundar esta reflexão em diálogo com Martin Buber (Eclipse de Dios – Estudios sobre las relaciones entre religión y filosofía, Salamanca, Ediciones Sígueme, 2014), Gadamer (Hermenéutica, estética e historia, Salamanca, Ediciones Sígueme, 2013) e Roland Barthes (El sussurro del linguaje – Más allá de la palabra y la escritura, Barcelona, Paidós, 2009).

Imagem de Henryk Niestrój por Pixabay
Textos recolhidos de TEIXEIRA, José Rui – Vestigia Dei: Uma leitura teotopológica da literatura portuguesa. Maia: Cosmorama Edições, 2019, 78pp.