A propósito do 2.º Concerto do ciclo de concertos do Jubileu da Catedral de Aveiro
Grupo Vocal Ançãble | Sé de Aveiro | 15 de dezembro de 2023

Leia, aqui, as Sequências Marianas do Mosteiro de Jesus, em latim, e as respetivas traduções | Por José Carlos de Miranda

Pe. Pedro Carlos Lopes de Miranda

As sequências foram um género poético-musical surgido como rebento do canto jubiloso muito desenvolvido e estendido do Aleluia— aplicando ao melisma final da última sílaba do Aleluia um texto poético de comentário ao mistério celebrado— que surgiu no séc. XI e se expandiu e floresceu por toda a baixa Idade Média, até ser muito contido na “reforma itúrgica” de pendor uniformizador do Concílio de Trento. Na liturgia reformada pelo Concílio Vaticano II sobreviveram 5 sequências: duas obrigatórias, a da Páscoa (Victima Paschali Laudes) e a do Pentecostes (Veni creator Spiritus), duas facultativas, a do Corpo de Deus e a da Senhora das Dores (Stabat Mater) e uma que é assumida como Hino do Ofício de Leitura para a XXXIV semana do Tempo Comum, não como sequência, propriamente dita, que é a Dies irae, da antiga liturgia dos Defuntos.

No séc. XV, de que datam os códices do Mosteiro de Jesus de Aveiro, que se inscrevem perfeitamente na tradição do corpus litúrgico especificamente dominicano, circulava já por toda a Europa um corpo de textos poéticos e de melodias surgidos a partir do sec. XI, que se inspiravam e suscitavam consecutivamente, num processo de criação poético-musical inicialmente totalmente livre, mas depois cada vez mais de “reciclagem criativa” de material preexistente— tanto musical como literário. Do estudo do conjunto das sequências deste fundo litúrgico, o Sr Pe Arménio retirou muito amplamente as seguintes conclusões:

  1. Já não se pode falar das sequências em Portugal como algo de raro e sem qualquer significado entre nós;
  2. Esta forma poético-litúrgica estava bastante difundida no tempo e no espaço do território português, tal como acontecia no resto da Europa;
  3. As ordens dominicana e franciscana foram as que mais contribuíram para a implantação e difusão das sequências em Portugal;
  4. O mosteiro de Jesus em Aveiro, na medida em que foi chamado a reformar e a reformar novos mosteiros, ocupou um lugar privilegiado na difusão desta tradição litúrgico musical, que era a sua própria tradição;
  5. A riqueza de informação, oferecida pelos códices analisados­­, permitiu vislumbrar a importância do recheio aveirense.[1]

As sequências, especialmente do ponto de vista musical, são um produto genuíno, embora serôdio, da época clássica do canto chamado gregoriano, de quando ele começou a ser escrito. Considerado pelos cultores do canto gregoriano pós-restauração oitocentista e novecentista, de que S. Pio X é o papa de referência, um canto gregoriano tardio, tem sido desde então menos cultivado e praticado do que o corpus de repertório mais antigo do Kyriale, do Gradual e do Antifonário. Mas o contacto com esta prática a que se pode chamar de “reciclagem criativa” de textos e cantos já então, no séc. XV, tradicionais, é uma experiência surpreendente e aliciante. Foi o que nos propusemos com a execução de três sequência marianas — Da Natividade, da Anunciação e da Assunção, numa alusão aos três dogmas marianos da Imaculada Conceição, da Maternidade Divina e da Assunção— integradas no fio condutor das Antífonas marianas do actual Ofício de Completas, Salve Regina, Alma Redemptoris Mater, Ave Regina Caelorum e Regina Caeli laetare.

Ao mesmo tempo, propusemos, em leitura no concerto antes da execução de cada uma das sequências, uma tradução do respectivo texto, da responsabilidade de José Carlos de Miranda, pela qual se pode apreender a riqueza teológica e poética das mesmas.


[1] Pe Arménio Alves da COSTA JÚNIOR, Mosteiro de Jesus de Aveiro, Tesouros musicais… nos códices quatrocentistas, Vol. I, Universidade de Aveiro, 1996, p. 406