Qui. Jun 17th, 2021
Teofonias | … porque discretas são as melodias de Deus!

Pe. Pedro Miranda

A actual edição do leccionário, por lapso ou outra razão que não vislumbro, eliminou da proclamação do evangelho da Anunciação na missa a segunda parte do versículo 38 do primeiro capítulo de São Lucas, com que termina esta cena. De facto, desde que foi publicada esta edição reparei na falta da segunda parte, a que já estava habituado; por isso é que dei por falta dela. Assim: Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra. E o Anjo deixou-a»— era assim que vinha na versão litúrgica da edição anterior à actual.

Por que razão terá a actual edição dispensado algo tão natural, como é o dar conta de que, tendo ouvido e obtido aquilo a que vinha, o Anjo se foi embora? — tanto mais que é mesmo o que lá está, no texto sagrado. Maria colocou a sua pergunta, a sua dificuldade, o Anjo respondeu esclarecendo e Maria respondeu finalmente que sim. Tendo ouvido e obtido aquilo ao que tinha vindo, o Anjo foi-se embora, retirou-se de junto dela, deixou-a. E soa muito mais, de facto, a conclusão. Porque não está, então, no leccionário litúrgico tal conclusão?

Talvez pelo facto de se querer com isso focar a atenção sobre a resposta decisiva de Maria— Eis a escrava do Senhor. Isto é mais do que um simples sim, é uma total oferta de si mesma a Deus, sem reserva nem reservas. Não é por acaso que não conheço nenhuma representação sagrada da Anunciação em que a Virgem Maria não apareça ajoelhada; claro, uma resposta positiva a uma mensagem como aquela e a Quem lha enviava não se dá senão de joelhos. A grandeza desta resposta aconselharia, portanto— no entender de quem compilou o leccionário— que se terminasse a proclamação do evangelho na missa com ela, para que ficasse como que a ecoar no silêncio, para lá do fim da leitura, a resposta de Maria e nada mais.

Quer tenha sido por esta razão, quer por lapso— que é o que quero crer que foi, por lapso— discordo e entendo que deve ser corrigido. A resposta de Maria, sem nos darmos conta da retirada sem cerimónia do Anjo, não brilha tanto; pelo contrário, é realçada pelo facto de o texto, tal como é, sugerir claramente a ideia de que, tendo o Anjo ouvido aquilo ao que vinha, tendo terminado a sua missão, foi-se embora, e até podemos infantilmente imaginá-lo a pensar consigo mesmo “missão cumprida” e a correr para junto de Deus para lhe dizer com entusiasmo “ela disse que sim!”

Pode levantar-se apenas uma dificuldade à tese de que a resposta de Maria brilhe mais seguindo-se-lhe a saída do Arcanjo. No entanto, penso que tal dificuldade é apenas aparente. Vejamos: então o Arcanjo saúda a Virgem Maria com toda a exuberância e solenidade— Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo— e depois deixa-a assim sem uma palavra, sem qualquer cerimónia? Convenhamos que não prima pela educação.

Tranquilizei-me um pouco ao reparar ao menos num outro episódio bíblico em que o Anjo do Senhor se comporta também desta maneira, a saber, na vocação do juiz Gedeão, que o Senhor escolheu para libertar o seu povo da opressão dos madianitas (cf. Jz 6, 11-24). O Anjo saúda-o: O Senhor está contigo, valente guerreiro. Gedeão responde à saudação queixando-se imediatamente de que Deus não estava nada com ele, antes tinha abandonado o seu povo. Mas o Anjo diz-lhe ao que vem: Vai com essa tua força salvar Israel das mãos de Madiã. Gedeão diminui-se, menospreza-se e à sua família, mas o Anjo reafirma que o Senhor estará com ele de modo que ele derrotará Madiã como se fosse um só homem. Gedeão insiste na dúvida e pede um sinal, que o Anjo espere até que ele vá preparar e traga um sacrifício para oferecer ali, no carvalho de Ofra, ao Senhor. Assim fez, e esperou também o Anjo do Senhor que, quando Gedeão regressou com o sacrifício, estendeu sobre este a vara que tinha na mão e logo saiu da rocha fogo que consumiu a carne e os pães que Gedeão tinha trazido. Nisto, o Anjo do Senhor desapareceu da sua vista— assim também, sem cerimónia. Mas, neste caso, diz o texto sagrado que foi nesse momento— e eu atrevo-me a dizer, não só nesse momento, mas por causa do facto, a saber, o Anjo do Senhor desparecer assim sem cerimónia nem despedida— que Gedeão reconheceu que era o Anjo do Senhor. Pensou até que morreria por ter visto o Anjo do Senhor face a face, mas o Senhor tranquilizou-o. Gedeão construiu ali um altar e logo a seguir começa a sua missão.

É do que se segue que podemos retirar que Gedeão correspondeu à vocação de Deus; mas o sinal que ele pediu ao Anjo e que lhe foi dado permite-nos antes disso deduzir a resposta afirmativa de Gedeão, sem palavras, escondidas por detrás do reconhecimento, no desaparecimento do Anjo, de que era Deus que o estava a chamar. E também os discípulos de Emaús só reconheceram o Senhor Ressuscitado ao partir do pão, o sinal da doação d’Ele na cruz… Mas Ele desapareceu da sua presença (Lc 24, 31).

O que é que significará esta retirada sem cerimónia do Anjo do Senhor, em contraste com a entrada em cena cheia de cerimónia? Só encontro um significado; peço que me acompanheis: a) o Deus único vivo e verdadeiro criou-nos para Ele, é certo— Deus escolheu-nos [em Cristo] antes da criação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença— mas livres, à sua imagem e semelhança, e, portanto, gratuitamente, porque podemos de facto negá-Lo; b) porque nos criou assim, de graça, quando nos vem chamar, em tudo o que faz para nos reconduzir da desobediência do pecado, a que nos demos, à obediência da fé e à sua filiação— a fim de sermos seus filhos adoptivos por Jesus Cristo—, humilha-se e saúda-nos, pede licença para entrar, isto é, dá-se-nos totalmente, sem reserva nem reservas; c) “recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8), disse Jesus aos seus, resumindo com isso a única medida digna da nossa resposta, a totalidade de nós mesmos; chegando a obter de nós, livremente, essa medida, qualquer despedida é ociosa, e indigna de Deus seria a sua reivindicação da nossa parte. Com efeito, seria contraditório com o próprio Deus que ele se despedisse de quem, por responder de forma total, já estivesse n’Ele, unido a Ele.

Pois bem; o que é maior? Que Gedeão, por estar nele Deus, vença os madianitas como se fossem um só homem, ou que a Virgem Maria, desposada com José, sem que este a conheça conceba pela sombra do Espírito Santo o Filho Eterno de Deus? O Filho Eterno de Deus no seio de Maria é a totalidade de Deus. Total é a resposta de Maria, Eis a escrava do Senhor. Total é o silêncio do Arcanjo, perfeitamente correspondente à medida da fé de Maria que, na parábola dos servos inúteis, sobre a medida da fé do tamanho de um grão de mostarda é: somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer (Lc 17, 10).

A medida máxima da totalidade de Deus oferecido a nós na Anunciação não podia senão ser correspondida com uma resposta a essa medida. Diz assim São Gregório de Nazianzo: O Filho de Deus… a palavra e o pensamento do Pai, é o mesmo que vem em ajuda da criatura feita à sua imagem e por amor do homem Se faz homem. Assume um corpo para salvar o corpo e une-se a uma alma racional por amor da minha alma. Para purificar aqueles de quem Se tornou semelhante, fez-se homem em tudo, excepto no pecado. Foi concebido no seio de uma Virgem, já santificada pelo Espírito no corpo e na alma, para honrar a maternidade e ao mesmo tempo exaltar a virgindade (PG 36, 634-635.654.658-659.662). Eis a Imaculada Conceição, a Virgem já santificada pelo Espírito no corpo e na alma, preparada por Deus para aquela resposta única digna da doação de Deus, dita de joelhos, certamente: Eis a escrava do Senhor. E esta preparação operada por Deus não faz com que a resposta não seja dela. É ela que responde, e a prova disso é a pergunta que faz antes, numa afirmação plena duma atitude de entrega inteiramente livre, à medida humana, purificada por Deus, mas humana. Senão, vejamos.

Notemos o movimento, o trajecto, de Maria: Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela; Como será isto, se eu não conheço homem? E, finalmente: Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 26-38).

Cabe aqui introduzir uma metáfora com aspirações a parábola. Consideremos um qualquer intérprete— no sentido dos artistas das artes performativas— um músico, um actor? Não encontra ele, quando recebe a obra de arte concebida por outro, a possibilidade de afirmar a sua personalidade, a possibilidade de se afirmar, interpretando e entrando numa obra que não é sua, mas através da qual se realizará e afirmará a si mesmo, a ponto de se poder falar, por exemplo, do Beethoven de Karajan, mas também no de Toscanini, do Bach de Glenn Gould, mas também no de Horowitz, etc? E admiramos e consideramos tanto os intérpretes como os autores. A santidade na Igreja é isto; o florescimento nela de intérpretes exímios da obra de Deus, da glória de Deus que é o homem plenamente realizado. A Virgem Maria é a Rainha de Todos os Santos e levou à plenitude as suas possibilidades humanas de mulher e de mãe dando-nos o Menino que nos foi dado (Is 9, 6), e nem por isso secou a diversidade inesgotável de carismas de santidade em que cada um dos santos, os conhecidos e os de que não sabemos o nome, levaram ao mais alto nível de realização as suas possibilidades humanas, simplesmente por terem aceitado interpretar uma obra que não é sua: o verdadeiramente humano criado por Deus e restaurado por Jesus Cristo.

É por isso que, perante a resposta inteiramente humana da Virgem Maria à oferta total de Deus do Seu Filho à humanidade, através d’Ela, se torna esplendorosamente eloquente o silêncio do Anjo que se retira, qual mediação do silêncio de Deus porque já não tem nada para dizer, recebida que seja a nossa resposta total; finita, é certo, mas total. Seja-me permitido insistir. Chegando a obter de nós, livremente, essa medida de resposta, qualquer despedida é ociosa, e indigna de Deus seria a sua reivindicação da nossa parte. Com efeito, seria contraditório com o próprio Deus que ele se despedisse de quem, por responder de forma total, já estivesse n’Ele, unido a Ele.

Penso que fará bem à Igreja e aos seus filhos ouvir esse silêncio de Deus que se retira de nós, depois de nos chamar, depois de obter de nós respostas positivas, mesmo que incipientes, sem se despedir e sem agradecer, para sentirmos o peso e a densidade da Sua totalidade, e, mediante isso, nos deixarmos preencher pela nossa própria totalidade oferecida a Deus, como Ele merece. Mas, em suma, para nos darmos conta disso, muito contribuirá que seja proclamado, tal como está no texto sagrado, que, ouvida a resposta da Virgem Maria, o Anjo deixou-a.

 


Ave-Maria, cheia de graça! Por Botticelli [1445-1510], no Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque