Qua. Out 27th, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


0 -Entregue à Graça de Deus

Nos próximos tempos, no Oratório peregrino, vamos deixar-nos acompanhar por algumas reflexões do Padre Eugénio Maria, que nos vão ajudar a fazer da vida oração e da oração vida. Começamos, por isso, a conhecer quem é o Padre Eugénio Maria (1894-1967).

Um dia, falando do Espírito Santo, o Padre Eugénio Maria disse: Antes de ser uma luz no nosso coração, o Espírito Santo é uma luz que ilumina os acontecimentos e as situações… uma luz na obscuridade; não sabemos para onde vai, não sabemos de onde vem (1965); e depois: Chamo-lhe meu amigo e creio que tenho razões para isso, e acrescentou: o Espírito Santo contrariou-me sempre, mas para melhor.

Estas palavras transmitem-nos uma experiência íntima da presença do Espírito Santo. Observar a vida do Padre Eugénio Maria é descobrir nela a presença viva do Espírito de Amor que o escolheu para uma missão: levar aos homens a intimidade divina, meta de toda a vida cristã.

Henrique Grialou nasceu a 2 de Dezembro de 894, em Gua (Aveyron), na bacia mineira de Decazeville. É o terceiro filho de uma família de cinco filhos. Seu pai, mineiro, morre prematuramente em 1904, quando Henrique ainda não tem dez anos. A família experimenta a pobreza e a senhora Grialou tem que trabalhar muito para poder criar os seus cinco filhos. No seu amor e na sua fé educou-os cristãmente, em especial, o pequeno Henrique.

A chamada à vida sacerdotal fez-se sentir muito cedo no coração de menino. A sua corajosa mãe pagou-lhe os estudos com muitos sacrifícios. No seminário. Henrique é um aluno brilhante e um excelente companheiro, é amigo de todos: todos os testemunhos coincidem nisto. Durante os anos de seminário descobre Teresa do Menino Jesus – a quem chama uma amiga de infância – cuja mensagem aprofundou com grande alegria.

Em 1914 estala a guerra. Henrique participa como oficial nas batalhas importantes; aprende a lidar com os homens que tem à sua responsabilidade e enfrenta diariamente o sofrimento e a morte. A guerra é uma dura escola! Em 1919 é desmobilizado e as provações sofridas durante os quatro anos da guerra fizeram-no amadurecer. Vê-se invadido então por um forte desejo de oração e silêncio e decide voltar ao seminário: Optei profundamente pelo sacerdócio.

A 13 de Dezembro de 1920, uma imperiosa e desconcertante chamada interior compromete definitivamente a sua vida. Nessa noite, Henrique lê o Compêndio da vida de São João da Cruz. Quando fecha o livro, impõe-se-lhe uma certeza absoluta e irresistível: Deus quer que entre no Carmelo! Desconhece totalmente a vida no Carmelo e nunca viu um carmelita… Pensa se não estará a tornar-se louco. Para seguir esta vocação tão imperativa, Henrique terá que enfrentar então violentas oposições, entre elas a mais inesperada e dolorosa, a de sua mãe.

Foi ordenado sacerdote a 4 de Fevereiro de 1922 e entrou a 24 no noviciado dos Padres Carmelitas em Avon depois de ter sacrificado tudo e deixar sua mãe, cujo sofrimento o afecta profundamente, pois está destroçada. Na austeridade da vida do noviciado, frei Eugénio Maria do Menino Jesus descobre toda a profundidade da graça do Carmelo. E, em especial, iluminado por Teresa de Jesus e João da Cruz, a graça da oração silenciosa, que o enche interiormente e à qual será sempre fiel até ao fim da sua vida, ensinando sempre os seus caminhos. É um tempo de desprendimento total, mas também e profundas graças, nas quais o Espírito santo lhe deixa entrever a sua missão e pressentir a paternidade espiritual à qual está chamado.

Em 1923, beatificação de Teresa do Menino Jesus foi para ele uma imensa alegria que o levou a ter imensas esperanças no futuro, pois está convencido da profundidade do valor espiritual da pequena santa.

Ao começar o seu ministério em Lille, é-lhe confiada a direcção da revista Carmel. Então, dá-se conta que a doutrina do Carmelo está feita para um público mais amplo que o dos mosteiros, onde é esperada. A partir desse momento nasce nele o desejo de pôr a contemplação ao alcance de todos nos bairros e nas ruas. Em 1928 sofre uma mudança inesperada: é nomeado superior do convento do Petit Castel em Tarascón.

No Pentecostes de 1929 recebeu a visita de três jovens professoras, directoras do Colégio Cours Notre-Dame de France, de Marselha, que desejam consagrar-se a Deus. Sentem-se atraídas para o Carmelo, e, por isso, vêm pedir conselho a este jovem religioso, que já era conhecido pela sua capacidade de discernimento espiritual. Serão os pilares da fundação do Instituto Notre-Dame de Vie, e uma delas, Maria Pila, será a co-fundadora.

Em 1932 começa em Notre-Dame de Vie, propriedade que a Providência tinha oferecido, uma aventura espiritual extraordinária cuja forma jurídica ainda não está claramente definida, pois que há acontecimentos desconcertantes que parecem cortar o passo ao projecto em repetidas ocasiões.

Efectivamente, as suas sucessivas nomeações na Ordem levaram o Padre Eugénio Maria, do Petit Castelet até Roma, afastando-o de Notre-Dame de Vie. Em 1937 foi nomeado definidor geral, e tem que residir em Roma; no entanto o seu superior pede-lhe para continuar a fundação incipiente, pois considera-a obra de Deus. De facto, entram vocações a Notre-Dame de Vie, e o pequeno grupo cresce lentamente, na obscuridade, por vezes de maneira imprevista, movido pelo Espírito e sob o olhar de Maria, Mãe da Vida.

Em 1939 estala novamente a guerra. O Padre é mobilizado e tem que voltar a França. Desmobilizado em 1940, as hostilidades impedem-no de voltar a Roma. No meio das inseguranças e perigos do momento, continua as suas pregações. Apesar da sua intensa actividade apostólica, o Padre nunca diminuiu as exigências da sua vida contemplativa. Não perco a calma, a minha vida é profunda e recolhida como toda a vida no Carmelo. O seu zelo apostólico é o fruto da sua fidelidade à oração.

Em 1946 volta a Roma para trabalhar no governo central da Ordem. Em 1948, o Papa nomeia-o visitador apostólico do Carmelo feminino em França e encarrega-o da organização das federações das carmelitas. Ao mesmo tempo, o Padre Eugénio Maria, continua a ocupar-se da fundação de Notre-Dame Vie, em pleno crescimento.

Nesse momento em que o Padre se entrega sem medida ao serviço da Ordem, Notre-Dame de Vie é reconhecido oficialmente como instituto secular. O Padre vê realizadas as suas intuições espirituais mais profundas neste novo quadro de vida consagrada instituído pela Igreja.

Os membros do Instituto Notre-Dame de Vie, inseridos no mundo por meio de uma profissão, vivem as exigências do espírito do Carmelo: Dar testemunho do Deus vivo! Vão ao encontro dos que vivem nos bairros e nas ruas, onde as condições de vida adormeceram por vezes a sede de Deus, que, no entanto, continua viva. Depois de dois anos de formação inicial, encontram a força necessária para realizar este ideal nas duas horas diárias de oração contemplativa e voltando regularmente à casa da solidão, para espaços de deserto, estudo e vida fraterna.

O Padre Eugénio Maria, durante o tempo de permanência em Roma, acaba a sua obra escrita, fruto de trinta anos de experiência espiritual: Quero ver a Deus. É uma síntese da doutrina do Carmelo, cujo eixo fundamental é a oração contemplativa. Será publicada em 1949. A sua difusão continua vigente na actualidade.

Em 1954. Ao morrer de maneira repentina o Padre Geral dos Carmelitas, o Padre Eugénio Maria tem que assumir interinamente. Como responsável da Ordem, visita os conventos do Próximo Oriente e do Extremo oriente, alguns deles expostos à influência da ideologia marxista. Com os olhos postos na grande China, faz seus os sofrimentos da Igreja, que vive a paixão do seu Senhor. A sua correspondência dá testemunho da impressão tão forte que lhe deixaram alguns dos contactos que tivera ali.

Nesse mesmo ano o Instituto estabelece-se nas Filipinas. O Padre dirige estas palavras à responsável da fundação: Recorde sempre que Notre-Dame de Vie deve dar testemunho do Deus vivo, do Espírito de Amor e não de uma civilização.

Em 1955 volta a França e continua a sua dupla missão de fundador do Instituto e de provincial dos Carmelitas de Aviñón-Aquitânia, trabalhando ao serviço da Igreja universal. Nesta época o Instituto estende-se com rapidez por diferentes países: depois das Filipinas seguem-se a Alemanha, o México, a Espanha, o Canadá, a Polónia, o Japão… No seu interior nasce um ramo sacerdotal e um ramo masculino (leigos consagrados), aprovados sucessivamente pela Igreja em 1960 e 1963. Do mesmo espírito vivem também membros associados e famílias. O Padre gostava de repetir: o Espírito Santo e a Virgem Maria foram os que fizeram tudo aqui.

Em vez de lhe causar surpresa, o Concílio Vaticano II encheu-o de entusiasmo, e não deixou de dar a conhecer e de estudar os seus decretos.

Afectado pela doença, vê as suas forças diminuírem pouco a pouco. No domingo de Páscoa de 1967, angustiado pelo sofrimento e na união íntima e profunda com o Espírito de Amor que o atrai irresistivelmente, deixa aos seus filhos este último testamento: Sede fiéis ao espírito do Instituto: acção e contemplação bem unidas. E depois, em voz baixa: Vou para o abraço do Espírito Santo. Morre no dia seguinte, 27 de Março, segunda-feira de Páscoa, dia da festa que tinha instituído em honra de Maria, Mãe do Ressuscitado e Mãe da Vida.


Imagem: Marie-Eugène de l’Enfant-Jésus