Luís Manuel Pereira da Silva*
Acabo de receber a notícia do falecimento do Pe. Doutor José de Oliveira Branco, meu professor de diversas cadeiras de Filosofia, no ‘saudoso’ ISET, Instituto Superior de Estudos Teológicos, sedeado no Seminário Maior de Coimbra, casa que é, hoje, um importante centro de cultura, um exemplo a olhar com muita atenção.
Antes de prosseguir, expresso a minha gratidão a esta digníssima instituição e à Diocese de Coimbra, que tão bem me acolheu e me recebeu como seu, durante os cinco anos em que ali vivi. A gratidão é o fruto visível de uma extensa árvore cujas raízes me deram firmeza em muitas tempestades. Obrigado!
O professor José de Oliveira Branco foi meu professor no período em que frequentei o Seminário de Coimbra, entre 1990 e 1995. Passaram mais de duas décadas até que, em 2020, retomámos o contacto, por correio eletrónico.
Já com 87 anos, o professor José de Oliveira Branco mantinha a lucidez de pensamento e a clareza que sempre o definiram.
Gostarão de saber os que, comigo, foram seus discípulos, uma sua confidência que ele me perdoará que publique. Dizia-me, num dos emails que trocámos: “Fui mais professor que pedagogo, e psicólogo, e mestre…”
Os que foram seus alunos compreendem porque cito esta confissão pessoal.
O professor Branco – assim lhe chamávamos – era brilhante, fino no pensamento, mas também fino na verve quando se deparava com o que ele considerava ‘preguiça’ ou ‘indolência’. Não as tolerava e cortava rente.
Disso guardarão memória muitos…
Bem me recordo como, ainda no 12.º ano, já eu me preparava, mentalmente, para o encontro com o gigante ‘Doutor Branco’, que nos esperava, em Coimbra. Talvez essa preparação me tenha predisposto para não me deixar atemorizar e, afinal, deixar deslumbrar pela lógica do seu pensar, pela coerência dos seus argumentos, pela ousadia de nos adentrar pelos mais modernos pensadores, a quem ia buscar o que deve permanecer, deixando-nos escolhos das margens, os cascalhos que não servem. Com ele conheci os três ‘H’s’ – Hegel, Husserl e Heidegger – Sartre, Marcel, Bergson, mas também Kant, Leibniz, Spinoza e tantos outros com quem passei a conviver, ora para deles me afeiçoar, ora para deles me afastar. Incentivava a procurar mais e mais e a não nos ficarmos pelo que ouvíamos nas aulas. Foi assim que me fiz acompanhar de alguns dos maiores especialistas da História da filosofia, de que Copleston se destacou porque mo sugeriu. Tinha, por este historiador, grande reconhecimento e julgo que o terá conhecido, na Gregoriana, em Roma: achava-o o melhor entre os que faziam a História da Filosofia. E percebi porquê, à medida que fui comprando a sua extensa história da filosofia. Copleston explicava tudo o que envolvia a vida de um filósofo: este faz-se, não só de ideias, mas também da vida pisada e calcorreada…
Para todos, ficará, do Doutor Branco, por tudo isto, a finura e clareza do seu pensamento que a história, para sempre, reterá. Se o ouvissem mais os que, hoje, decidem os rumos do mundo, e a sua lapidar afirmação de que ‘quem não distingue, confunde’!… Em quanta confusão se emaranham os rumos de hoje por não as ouvirem nem atenderem!…
José de Oliveira Branco fez doutoramento sobre o ‘humanismo crítico de António Sérgio’, a cuja capacidade crítica sempre regressava. Ousou, já adentrado na idade, fazer pontes, que continuam a ser pouco percorridas entre nós, de encontro entre as ‘margens’ científica e teológica do conhecimento. Livros como ‘o brotar da criação’, ‘a pergunta de Job’, ‘o Deus que não temos’ ficarão, para sempre, como luzeiros da ousadia de recuperar o espírito da autêntica polémica de que se faz emergir luz. Pena que não tenha sido secundado… Quem sabe se entre os seus discípulos emerge o desejo de seguir as pisadas do mestre!?
Já depois de ser seu discípulo, e neste vai e vem de emails, descobri, graças ao seu livro ‘uma via para a manhã’, o pensamento de Ferdinand Ebner, um precursor do personalismo em que reencontrei muitas sintonias com a linha que venho eu próprio sustentando, nos meus escritos e palestras. De facto, o mestre deixa nos seus discípulos marcas cuja fonte podemos desconhecer, mas que geram ‘frutos lógicos’.
O meu último email é de 9 de junho de 2023. De então para cá, ficou apenas o silêncio.
E penitencio-me por isso.
Adiei a insistência e, com esta notícia da sua partida para a eternidade, sinto-me em dívida. Tínhamos conversas inacabadas que teremos de adiar até que a ‘via para a manhã’ abra o ‘definitivo amanhã’.
Honrarei, porém, a sua demanda pelo ‘esforço do conceito’ de que sempre nos falava, repercutindo a exigência rahneriana em que se revia, pois ‘não se deseja o que é desconhecido’. Só a dedicação à verdade pode fazer emergir em nós o desejo sincero e abnegado de a pretender respeitar. A indolência e a preguiça de quem ignora amortiçam a vontade de saber e geram relativismos a quem qualquer marginal ‘verdade’ serve.
Entre os ‘reconhecimentos’ e nomes que me recordou, nas suas mensagens, referiu o do diretor do nosso jornal diocesano, António Jorge Ferreira, um dos seus mais brilhantes alunos, deixando-nos aos dois um desafio que, esperando que seja fonte de frondosas árvores, torno público em modo de compromisso: “É mto bom que vocês, e mais alguma gente de qualidade e empenhamento, tenham o vosso modo de Presença e intervenção. Em áreas fulcrais. E definam rumos definam linhas de programáticas para isso. A nossa igr. precisa tanto de gente capaz e que tenha a noção das deficiências da nossa pastoral!”. Termino a citação…
A melhor homenagem que lhe poderemos prestar será, precisamente, a de secundar, com ação efetiva, este seu desiderato.
Se já o fomos tentando, é certo, da morte se erguerá vida mais perene.
Pode contar comigo, Doutor Branco. Não terão sido em vão os seus desafios de que não ‘tenhamos medo’ de pensar! E sei que não irei só…
Foto recolhida do site da Diocese de Coimbra