Qua. Out 27th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Javier Sancho Fermín*

Edith Stein conhece diversos caminhos para alcançar e exercitar a empatia com Cristo: a oração, a liturgia, a eucaristia-adoração eucarística33, e a leitura-meditação dos Evangelhos. Dada a intenção que preside ao nosso trabalho, procuraremos limitar-nos só ao último deles.

Para Edith Stein o objectivo de toda a formação ou educação cristã consiste em figurar a «forma de Cristo»34. O caminho do seguimento de cristo não se esgota em imitar os seus actos, mas há-de levar à configuração com Ele, à transformação em «outros Cristos». Nesse caminho joga um papel importante a capacidade de empatizar com Cristo, de fazer próprios os seus mesmos sentimentos. Por isso, não estranha de modo nenhum a afirmação de que «o Evangelho é o livro que nunca devemos deixar de estudar35». Precisamente porque aí nos encontramos com a imagem mais fiel que possuímos do Cristo Deus e Homem.

O cristão, seguidor de Cristo, não se pode conformar com cumprir uns preceitos. Todo o homem foi chamado em Cristo a alcançar a plenitude do sue ser e a transformar-se novamente em filho de Deus. E isto só é possível pelo caminho do seguimento: «Quem pertence a Cristo tem que viver toda a vida de Cristo. Tem que alcançar a maturidade de Cristo e percorrer o caminho da Cruz até o Gestémani e o Gólgota»36. Ancorada possivelmente neste princípio chave para compreender a cristologia steiniana, põe especial acento em procurar reviver os sentimentos de Cristo acerca do mistério da Páscoa, da Redenção. E não se trata simplesmente de uma técnica sentimentalista, mas de aproximar-se da compreensão mais existencial do que significa o mistério de Cristo, para depois o transformar em vida.

«Se estais alegres, vede-O ressuscitado: só O imaginar como saiu do sepulcro vos alegrará. Com quanta claridade e com que formosura! que majestade! quão vitorioso e alegre! Como quem se saiu tão bem da batalha onde ganhou um tão grande reino, o qual quer todo para vós e a Si mesmo com ele… Se estais em trabalhos ou tristes, vede-O a caminho do Horto: que aflição tão grande levava em sua alma, pois, com ser a mesma paciência, confessa essa aflição e dela se queixa. Ou vede-O atado à coluna, cheio de dores, Sua carne toda feita em pedaços pelo muito que vos ama; tanto padecer, perseguido por uns, cuspido por outros, negado pelos Seus amigos, desamparado por eles, sem ninguém que seja por Ele, gelado de frio, posto em tanta soledade… Ou vede-O carregado com a cruz, que nem O deixavam tomar fôlego… Andemos juntos, Senhor; por onde fordes, tenho de ir; por onde passardes, tenho de passar»37.

 

Estas palavras de Teresa aproximam-nos do convite que Edith nos vai fazer, embora com um estilo algo diferente. Vejamos alguns exemplos práticos. Como ponto de partida, poderíamos tomar a visão geral que ela nos oferece sobre o conteúdo de todo o caminhar terreno de cristo, onde se sublinha o sentimento central que preside a toda a sua vida e aos seus mistérios de amor. Será esta uma das chaves para interpretar e compreender tudo o resto:

«Nem por sua natureza nem por livre decisão houve em Cristo nada que opusesse resistência ao amor. Em cada momento da sua existência viveu entregue sem reservas ao amor divino. Mas, ao fazer-se homem, tomou sobre si toda a carga dos pecados humanos, abraço-se com eles no seu amor misericordioso, escondendo-os na sua própria alma, com aquele Ecce venio com o qual inaugurou a sua vida terrena, expressamente repetido no sue baptismo, e com o Fiat de Getsémani. Assim se foi consumando o sue sacrifício de expiação, primeiro no sue interior, e depois em todas as dores ao longo da sua existência, mas de modo mais espantoso no Jardim das Oliveiras e na Cruz, porque ali chegou mesmo a cessar de momento o gozo que na sua alma redundava da sua união hipostática, para que assim ficasse mais totalmente à mercê da dor, até provar o mais total abandono de Deus. O Consumatum  est indicará o fim deste holocausto expiatório, e o Pater, in manus tuas commendo spiritum meum será o retorno definitivo à eterna e inalterável união de amor»38.

 

Esta visão do sentimento central que preside à vida de cristo, o amor, Edith Stein completá-lo-á dizendo que, juntamente com esse amor, encontrar-nos-emos, no desenvolvimento de toda a sua vida terrena, com outro conteúdo fundamental: fazer e levar a cabo a vontade do Pai39. A partir da chave do amor e do cumprimento da vontade do Pai, aproxima-se de alguns dos textos evangélicos que de um modo mais evidente nos apresentam os sentimentos de Cristo.

Um deles é a celebração da Última Ceia. Edith começa por nos oferecer o texto evangélico de Mt 26, 26-28: «Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é o meu corpo. E tomando um cálice e dando graças, deu-lho dizendo: bebei todos dele, este é o meu sangue da aliança que será derramado por muitos para o perdão dos pecados». A seguir, Edith faz o seu comentário. Para tal, servir-se-á dos conhecimentos que tem das tradições judaicas: «A bênção e a distribuição do pão e do vinho faziam parte do rito da ceia pascal». E, de seguida, faz uma leitura complexa de quanto esta realidade implica:

«Mas ambas recebem aqui um sentido completamente novo. Com elas começa a vida da Igreja. Sem dúvida, será a partir do Pentecostes que aparecerá abertamente como comunidade visível e cheia do Espírito. Mas é aqui, na ceia pascal, que se realiza o enxerto dos sarmentos na vide, que torna possível a efusão do Espírito. As antigas orações de bênçãos converteram-se na boca de Cristo em palavra criadora de vida. Os frutos da terra converteram-se na sua carne e no seu sangue, cheios da sua vida. A criação visível, na qual Cristo já entrou pela sua encarnação, está agora unida a ele de uma maneira nova e misteriosa. As substâncias que servem para mantimento do corpo humano transformam-se radicalmente e, por sua recepção crente, transformam também os homens: incorporados numa unidade de vida com Cristo e cheios da sua vida divina. A força da Palavra criadora de vida está vinculada ao sacrifício. A Palavra fez-se carne para oferecer a vida que recebeu; para se oferecer a si mesmo e a criação redimida pela sua oferenda como sacrifício de louvor ao Pai. Pela última ceia do Senhor a comida pascal da Antiga Aliança converteu-se na comida pascal da nova Aliança»40.

 

Edith oferece-nos um exemplo claro de como da capacidade de empatizar os sentimentos de Cristo se pode passar a uma compreensão teológica das verdades evangélicas, fruto de uma observação-reflexão dos elementos que compõem a narração evangélica. Mas a sua reflexão não conclui aí. Descobre ainda no «deu graças» novos elementos intuídos à luz do conhecimento da vida de Cristo e da sua prefiguração no Antigo Testamento.

«Quando o Senhor tomou o cálice deu graças; podemos pensar aqui nas orações de bênção, que contêm uma acção de graças ao Criador. Sabemos também que Cristo costumava dar graças quando antes de um milagre levantava os olhos ao Pai do céu41. Dá graças porque se sabe de antemão escutado. Dá graças pela força divina de que é portador e porque vai mostrar aos olhos dos homens a omnipotência do Criador. Dá graças pela obra da redenção que pode levar a cabo, e dá-as por meio dessa obra, que é a glorificação da Trindade divina, porque renova e embeleza a sua imagem deformada. Deste modo, podemos considerar a perpétua oferenda sacrificial de Cristo – na Cruz, na missa e na glória eterna do céu – como uma única acção de graças – como eucaristia –: acção de graças pela criação, a redenção e a consumação. Cristo oferece-se a si mesmo em nome de toda a criação, cujo primeiro modelo é Ele próprio e à qual desceu para a renovar a partir de dentro e levá-la à consumação. Convida também toda a criação a unir-se a Ele para oferecer ao Criador a acção de graças que lhe é devida»42.

 

É só um exemplo que nos ilumina no nosso modo de nos aproximarmos aos sentimentos de Cristo «escondidos» nas palavras dos Evangelhos.

Encontramos presente em Edith outro exemplo que talvez seja mais fácil e esclarecedor. Aqui já não se trata de desvelar o segredo de uns versículos evangélicos, mas de contemplar em diversos momentos um gesto que se repete ao longo da vida de Jesus: a sua oração em silêncio ao Pai. Ao contemplar esta realidade tão presente ao longo da vida terrena de Jesus, Edith quer captar aquilo que se torna essencial para compreender como há-de ser a nossa oração, partindo dos sentimentos de Cristo; sentimentos que se manifestam de um modo mais evidente precisamente aí na oração, onde abre com confiança a sua interioridade ao Pai. Embora o texto seja um pouco longo julgamos que em si mesmo nos oferece as chaves para penetrarmos empaticamente nos sentimentos de Cristo:

«Os Evangelhos contam-nos que ele, talvez com mais frequência, orava solitário, no silêncio da noite, no cimo do monte ou no deserto afastado dos homens. A sua vida pública foi precedida por quarenta dias e quarenta noites de oração (Mt 4, 1-2). Antes de eleger e de enviar os doze apóstolos retirou-se para a solidão de um monte a fim de orar (Lc 6, 12). No Monte das Oliveiras preparou-se para subir o Gólgota. O que orou ao Pai, nessa hora mais dura de sua vida, é-nos dado em poucas palavras, palavras que nos foram dadas como estrelas que nos guiam nas nossas horas de Getsémani: “Pai, se é possível passe de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade mas a tua” (Lc 22, 40). Essas palavras são como um relâmpago que momentaneamente nos deixam entrever a vida íntima de Jesus, o mistério insondável do seu ser humano e divino e do seu diálogo com o Pai. Sem dúvida alguma, esse diálogo nunca foi interrompido durante a sua vida. Cristo orava intimamente, não só quando se afastava da multidão, mas também quando se encontrava no meio dos homens. E uma vez permitiu-nos olhar longa e profundamente o segredo desse íntimo diálogo. Foi pouco antes da hora do Getsémani, imediatamente antes de partir para ali: ao acabar a última ceia, na qual reconhecemos o momento do nascimento da Igreja: “Ele que amou os seus… amou-os até ao fim” (Jo 13, 1). Sabia que era a última reunião, e quis dar-lhes tudo quanto podia. Tinha que conter-se para não dizer mais, pois sabia que não o compreenderiam, que não poderiam  compreender nem sequer o pouco que tinham recebido. Teria que vir o Espírito da Verdade para lhes abrir os olhos. E depois de lhes ter dito e feito tudo o que devia, levantou os olhos ao céu e falou na presença deles com o Pai (Jo 17). A essa oração chamamos-lhe oração sacerdotal de Jesus»43.

 

Esta longa citação, que, entretanto, é para nós tão esclarecedora, teria que concluir com uma afirmação que, na mesma obra que estamos a citar, Edith faz sobre o capítulo 17 do Evangelho de São João: «a oração sacerdotal de Jesus desvela o mistério da vida interior»44. E embora Edith não se aventure a comentar este texto, está a convidar-nos, com base no que antes realizou, que procuremos exercitar a captação empática dos sentimentos de Cristo a partir da sua oração sacerdotal, que nos desvela, juntamente com os seus sentimentos mais profundos, «a imanência recíproca das pessoas divinas e a inhabitação de Deus na alma»45.

*Javier Sancho Fermín. A Bíblia com olhos de mulher. Edith Stein e a Sagrada Escritura. Edições Carmelo.

33 Edite faz referência continuamente nas suas conferências à necessidade de viver eucaristicamente. Isso consistirá principalmente em penetrar empaticamente nos mistérios da celebração eucarística, como caminho para a autêntica e verdadeira cristificação. Cf. Educação eucarística, em Obras 34-35.

34 Edite Stein falará deste tema em quase todas as suas conferências e escritos de carácter pedagógico. Temos um exemplo claro em A arte materna da educação, em Obras 101-118.

35 Sobre a história e o espírito do Carmelo, em Obras 278.

36 O mistério do Natal, em Obras 385.

37 Caminho de Perfeição (cap. 26, 4-6), em Santa Teresa, Obras Completas, Ed. Carmelo, Paço de Arcos. 2000, pp. 449-450.

38 CC 229-230.

39 Cf. p. ex. A Exaltação da Cruz, em Obras 222.

40 A oração da Igreja, em Obras 395.

41 Cf. Jo 11, 41-42.

42 A oração da Igreja, em Obras 395-396.

43 Ib. 400-401. (O negrito é nosso).

44 Ib. 403.

45 Ib.

 

Imagem: A Última Ceia. Tintoretto [1518-1594]