Santuário de Nossa Senhora de Vagos, 26 fevereiro 2023

1. As tentações de Jesus são as nossas tentações

O primeiro domingo da Quaresma apresenta-nos sempre o episódio das Tentações de Jesus no deserto. Este ano é o Evangelho de S. Mateus que nos relata o texto das Tentações.

O Batismo de Jesus tinha sido o ponto de partida. Jesus une-se  aos que pedem o Batismo de conversão para o arrependimento dos pecados, não porque se sinta pecador necessitado de conversão, mas porque é necessário cumprir toda a justiça: é preciso aceitar e realizar a vontade do Pai, que neste caso é a solidariedade com os pecadores. S. Mateus refere que entre as pessoas que acorrem para ser batizadas encontram-se os fariseus e os saduceus, os “oficialmente bons”, os autênticos cumpridores da Lei. Trata-se de mudar não as obras, mas as atitudes. A dureza de coração, a intransigência face aos outros, coloca-os entre os que necessitam de conversão.

Jesus aceita a missão que o Pai lhe encomendou: “Se és filho de Deus…”. O demónio pede a Jesus que mostre a Sua dignidade. Jesus, livre e decididamente, rejeita um domínio terreno, uma vez que a Sua missão consiste em anunciar aos pobres a boa nova da salvação.

Podemos também considerar este episódio como exemplar em qualquer situação de tentação da Igreja de todos os tempos. Também a Igreja – a comunidade de Jesus – pode procurar diferentes tipos de messianismo, ou caminhos de salvação que não são aqueles que o Evangelho nos propõe: na abundância de bens materiais; no desenvolvimento puramente socioeconómico; no prestígio, na busca de sinais milagrosos; ou então na ânsia de poder quando o Evangelho propõe o serviço.

Como venceremos as tentações que continuamente batem à nossa porta? A solução é aquela que nos é dada no Evangelho: a Igreja, isto é, cada um de nós – como Jesus – superará a tentação: no recurso à Palavra de Deus; no reconhecimento e aceitação da vontade do Pai; o da sua própria identidade cristã e no seguimento do Filho de Deus.

2. As tentações e os desafios da Igreja

1ª Tentação: A autorreferencia da igreja é talvez a maior das tentações das nossas paróquias e dos nossos agentes de pastoral. Centrar a Igreja sobre si mesma e as paróquias não serem capazes de ver para além da torre das suas igrejas é uma tentação muito presente. Vemos isto frequentemente quando temos dificuldade em compreender a vida das pessoas, o seu trabalho e o pouco tempo que deixa para a família e para os filhos…

1º Desafio: Uma Igreja não fechada em si mesma, em saída. Da consulta sinodal realizada na nossa Diocese há uma ideia sempre presente: não ter medo de arriscar quando se trata de fazer opções pastorais. Querer resultados diferentes com os mesmos processos é absurdo e suicídio. Aquilo que hoje parece impossível o Espírito Santo se encarregará de confirmar no caminho da verdade. Depois das tentações, Jesus regressa à Galileia. Com a Sua pregação, Cafarnaum e arredores viram uma grande luz, era a Boa Nova pregada a todos. Sabemos nós ver essa luz hoje nas nossas paróquias?

2ª Tentação: Na vida pastoral o critério mais comum é o “sempre se fez assim”. A maior tentação que podemos ter os agentes de pastoral é pensar que só nós sabemos o que fazer, que os outros têm de acatar o que eu disser e todos temos de pensar da mesma maneira e quem não pensar assim não é dos nossos.

2º Desafio: Pastoral em conversão. A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cómodo critério pastoral: «fez-se sempre assim». Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respetivas comunidades (EG 33). Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma «simples administração». Constituamo-nos em «estado permanente de missão», em todas as regiões da terra (EG 25).

3ª Tentação: O modelo de Igreja que se vive e experimenta em muitas comunidades, paróquias e movimentos não favorece a participação e a missão, nomeadamente dos leigos. (…) Transparece uma Igreja com um rosto ainda muito clerical, sobretudo na tomada de decisões. Revelam-se ainda situações em que não é permitido aos leigos reunirem-se de modo livre e autónomo. Esta situação é causa de empobrecimento e demissão na corresponsabilidade e participação como Igreja (Caminhada sinodal Aveiro)

3º Desafio: Corresponsabilidade de todos na vida da Igreja. A comunhão constrói-se em processo, no modo como se tomam determinadas atitudes e como se decide. A tomada de decisão sobre as opções pastorais de uma paróquia deve ser feita com as estruturas de participação e corresponsabilidade: conselho económico e conselho pastoral, escutando e refletindo os contributos de todos os seus membros e não apenas do pároco. Onde não existem estes conselhos, é urgente que se criem. Dar mais importância e voz aos conselhos pastorais é uma prioridade pastoral. Para isso tais conselhos devem ser expressão da diversidade da comunidade paroquial.

4º Desafio: Formação cristã. É necessário criar e implementar projetos de catequese para todas as idades da vida. A catequese de adultos é residual e desadequada. A catequese infantil precisa de ter um estilo menos escolar, menos colada ao ano letivo escolar. A formação bíblica tem de ser uma prioridade e não apenas fruto de eventos pontuais e sem critério (CS Aveiro).

            Um apelo final: Pastoral dos funerais. Diz-nos o documento final da nossa caminhada sinodal: «É pedido, com insistência, um maior cuidado com a celebração dos funerais. As exéquias devem ser preparadas e adequadas à família enlutada com palavras de conforto e esperança e aproveitadas como anúncio e evangelização dos “ocasionais” que acompanham o defunto, sem cair numa evangelização “à força”, mas não desperdiçando o momento para dar razões da fé». Temos aqui um caminho árduo a fazer neste arciprestado de Vagos. Dei conta que nos funerais o defunto vem para a Igreja uma hora antes das exéquias e não se faz o velório que é tão importante em momentos como estes.

O sofrimento provocado pela morte de um familiar ou de um amigo não pode ficar sem a iluminação da fé cristã. O Ritual da Celebração das Exéquias prevê três momentos diferentes que devemos ter em conta: na casa mortuária, na igreja e no cemitério.

É aos familiares e não às Agências funerárias que pertence organizar o velório do seu ente querido que faleceu. Devemos desaconselhar vivamente a prática que se vai estabelecendo onde o defunto fica ao cuidado das funerárias e os familiares recebem o corpo do defunto momento antes da celebração religiosa. O velório é um momento de oração pelo defunto e de comunhão fraterna entre familiares e amigos.

Peço a todas as comunidades uma reflexão para esta pastoral no arciprestado de Vagos que precisa ser renovada e ser verdadeiramente uma celebração na qual professamos a nossa fé em Cristo ressuscitado.

Agradeço a vossa colaboração nestes dois meses de visita pastoral, o diálogo havido entre todos – comunidades cristãs, autoridades, coletividades – e desejo que estes desafios hoje apresentados possam ser aprofundados e postos em prática em todas as paróquias.

Santuário Nossa Senhora de Vagos, 26 de fevereiro de 2023.

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro