Seg. Out 25th, 2021

Neste tempo de viragem e de edificação de um novo mundo, a importância dos planos pastorais reveste-se de novos contornos, não se podem desligar da metamorfose cultural que acontece vertiginosamente no mundo que habitamos. Da capacidade e envolvimento de cada um de nós dependerá a edificação das paróquias, dos arciprestados, da Diocese.

1. O caminho percorrido

O Plano Pastoral que nos propusemos implementar de 2018 a 2021 tinha como lema inicial “Jesus chamou os que Ele quis… eles foram… e ficaram” e pretendia implementar uma pastoral atenta ao Batismo e aos outros sacramentos da iniciação cristã, à vocação matrimonial, tendo como pano de fundo a Exortação Apostólica A Alegria do Amor e a vocação de consagração, como serviço ao povo de Deus.

A pandemia que nos tem afetado nos dois últimos anos fez que toda a programação pastoral tivesse de ser adaptada a esta nova realidade que afeta a vida das comunidades cristãs e a vida de cada um de nós. Lembro apenas algumas das etapas percorridas até este momento.

Em 2018 afirmava que seguir Jesus é viver conduzidos e animados pelo Espírito de Jesus. É refazer fiel e criativamente o caminho de Jesus, atualizando-o na nossa própria história. É viver e atuar movidos pelos mesmos valores que inspiraram e conduziram a vida de Jesus, e viver animados pela mesma confiança e esperança que O sustiveram ao longo da sua vida, paixão e morte. É realizar e atualizar no mundo de hoje as práticas do Reino de Deus realizadas por Jesus. Seguir Jesus não é uma opção cuja iniciativa seja nossa: os discípulos são destinatários de um convite; é Ele quem toma a iniciativa. O conteúdo do convite é o próprio Jesus, por isso a resposta ao seu chamamento exige entrar na mesma dinâmica que Ele imprimiu à sua vida.

Na reflexão sobre os dados do Recenseamento à prática dominical, realizado em 2019, afirma-se que a realidade aponta para a perda do sentido comunitário da fé e da vida cristã. Além dos problemas da cultura atual, cada vez menos condizente com a qualidade da vida cristã, apresentam-se a elevada percentagem de católicos que vivem longe da prática religiosa e o problema da diminuição do número daqueles que se declaram católicos, mas vivem como se o não fossem. Estes dados são uma interpelação à Igreja de Aveiro, ao seu agir pastoral, aos processos de discernimento, e reclamam uma recuperação da frescura original do Evangelho.

Na carta pastoral “Tempo novo carece de renovação”, aludindo aos tempos de pandemia que estávamos a viver, recordávamos que a conversão pastoral é o caminho de renovação da Igreja. Todos são chamados a assumir uma atitude de permanente conversão pastoral. Toda a renovação autêntica exige conversão de pessoas e estruturas. São muitos os desafios e todos temos de nos sentir comprometidos. Temos de nos centrar num modelo de pastoral que resulte numa revitalização pastoral das comunidades, mais abertas à missão, mais atentas às periferias, que nos reclamam gestos audazes de fé, esperança e caridade.

2. A sinodalidade, caminho de renovação

A solenidade do Sagrado Coração de Jesus deste ano marca um momento de graça para o nosso presbitério e, nele, para todo o povo de Deus. Cada vez mais se torna imprescindível fazer um caminho em conjunto, em colegialidade, tal como referem as respostas ao inquérito feito ao clero. A nossa diocese não pode ficar alheia à exigência que o Santo Padre faz a toda a Igreja no sentido de prepararmos o próximo Sínodo dos Bispos, que tem como título “Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão”. No dia 7 deste mês de setembro foi publicado o Documento Preparatório e o Vademecum que serão objeto de estudo e reflexão por parte de todos nós. A sua preparação, a nível local, consta de várias etapas já calendarizadas, iniciando-se em Roma nos dias 9 e 10 de outubro e, no domingo seguinte, 17 de outubro, cada bispo deverá fazer a abertura do Sínodo na sua diocese. Concretamente, convido todos os agentes de pastoral para uma assembleia diocesana de abertura do Ano Pastoral, na tarde do dia 17 de outubro.

A sinodalidade, como dimensão constitutiva da Igreja, oferece-nos a possibilidade de compreendermos a vida da Igreja como um “caminhar juntos”, onde todos temos o nosso lugar e ninguém pode ser excluído. Trata-se de um dinamismo de escuta recíproca: cada um à escuta dos outros e todos à escuta do Espírito Santo. O caminho da sinodalidade é o que Deus espera da Igreja e só é autêntico se todos estiverem envolvidos. De facto, a sinodalidade conduz-nos à própria essência da Igreja, à sua realidade constitutiva e está orientada à evangelização. É urgente aprender a fazer este caminho e fazer dele critério de ação e de vida.

3. Sonhemos juntos o caminho

O triénio pastoral 2018-2021, que ficou incompleto na sua concretização por causa dos efeitos da pandemia, é, no presente ano pastoral, retomado e retocado, no sentido de respondermos às múltiplas interpelações descritas anteriormente. O ano pastoral 2021-2022 será, então, um ano de transição, um recomeço na fidelidade criativa de uma caminhada em conjunto: não tentar regressar a um mundo que já não existe e, também, não confiar apenas em meras reformas estruturais exteriores, mas ir ao âmago do Evangelho, fazer uma viagem ao interior, ao essencial, à fonte original. É tempo de reformar as nossas comunidades e, considerando o caminho percorrido, queremos recordar que cada família é uma história de amor e perguntar “em que ponto estamos com a Amoris Laetitia”.

Se o individualismo afeta a corresponsabilidade pastoral nos seus variados níveis e é um obstáculo para a conversão à sinodalidade, então, cada paróquia, cada arciprestado, cada secretariado diocesano, cada movimento e associação, cada um de nós deve procurar rever-se no programa e nas orientações do plano pastoral, sob pena de o caminho ser percorrido individualmente, numa aparente comunhão afetiva, mas não efetiva. Sabendo que “Jesus chamou os que Ele quis … eles foram … e ficaram”, todos somos convidados a reviver o despertar e a alegria da fidelidade à própria vocação. Não é apenas mais um programa pastoral. Seguindo Jesus, queremos que este Programa seja “vinho novo em odres novos” (Mc 2, 21-22).

Os desafios que traçamos para este ano são a A Conversão Pastoral das pessoas e das comunidades como atitude; A Família como destinatária e protagonista que se deve privilegiar; Os Jovens como agentes da pastoral juvenil, acompanhados e guiados, mas livres; O Arciprestado como estrutura de referência para promover a sinodalidade, de modo a promover a cultura do encontro e da partilha; A Sinodalidade como critério maior nos processos a implementar.

O Plano Pastoral com a respetiva calendarização será distribuído brevemente a toda a Diocese.

Confio este ano pastoral à intercessão de S. José, o guardião da família de Nazaré e também o guarda da nossa vida como Igreja que peregrina em terras de Aveiro.

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Aveiro, 13 de setembro de 2021

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro