Dom. Nov 28th, 2021

Aveirenses notáveis

António Dias Leite, o aviador que foi Governador Civil de Aveiro

Cardoso Ferreira (textos)

Parceria com o Correio do Vouga

António Dias Leite foi um oficial da aviação que assumiu o cargo de Governador Civil de Aveiro e que fixou residência em Eixo, onde morreu vítima de acidente rodoviário.

Natural de S. Félix da Marinha (1894), localidade gaiense situada próximo de Espinho, o coronel aviador António Dias Leite desempenhou o cargo de Governador Civil de Aveiro desde o dia 18 de março de 1950, quando substituiu João Moreira, até ao dia 5 de abril de 1954, quando Francisco do Vale Guimarães assumiu essas funções.

António Dias Leite foi casado com D. Maria Augusta Dias Leite, os quais foram pais de Maria José Dias Leite Correia Baptista, de Maria Luísa Dias Leite Cabral de Andrade e de João Dias Leite. As duas filhas foram professoras do Ensino Técnico, cargos que exerceram na cidade de Tomar.

Logo nos primeiros tempos da sua carreira militar, António Dias Leite combateu em Moçambique, durante a Primeira Guerra Mundial.

Após tirar o curso na Escola do Exército, obteve o brevet de piloto aviador em Vila Nova da Rainha, onde então se situava a Escola de Aeronáutica Militar.

No ano de 1923, o então tenente António Dias Leite venceu o concurso nacional de acrobacia aérea. Pouco tempo depois dessa vitória, no dia 16 de agosto, foi, juntamente com o capitão Teófilo José Ribeiro da Fonseca, um dos dois aviadores portugueses convidados para participarem numa demonstração de acrobacia aérea ocorrido na cidade espanhola de Badajoz, onde chegaram, provenientes do aeródromo de Tancos, tripulando dois biplanos oficiais da esquadrilha mista da arma da aeronáutica portuguesa. Aí, após ter efetuado arrojados voos acrobáticos, a muito baixa altitude, sobrevoando algumas ruas e praças da cidade, devido a uma avaria do biplano, António Dias Leite acabou por se despenhar sobre algumas habitações da calle Arco Agüero. Apesar de ferido com gravidade, teve serenidade suficiente para evitar que o avião explodisse e se incendiasse no prédio onde caiu. De seguida, os vizinhos levaram-no para o Hospital Civil Provincial, onde recebeu os primeiros cuidados, sendo depois transferido para o Hospital Militar (1).

No ano de 1938, o major António Dias Leite participou num curso avançado de instrutores, realizado no Reino Unido.

Para além das funções de Governador Civil de Aveiro, António Dias Leite empenhou-se na vida social e cultural da comunidade aveirense, sendo um dos fundadores do Rotário Clube de Aveiro, e liderou a comissão que promoveu a homenagem ao empresário Egas da Silva Salgueiro, realizada no dia 10 de janeiro de 1966, no Teatro Aveirense, na qual este recebeu a Comenda da Ordem do Mérito Industrial.

Faleceu no dia 23 de março de 1973, vítima de um acidente rodoviário, entre o automóvel que conduzia e um veículo pesado de mercadorias, ocorrido em Eixo, terra aveirense onde residia habitualmente.

Referindo-se a António Dias Leite, o “Litoral”, semanário em que colaborava, na sua edição de 24 de março de 1973, escrevia: “Distinguiu-se como oficial competente e arrojado, tendo desempenhado funções de comando em diversas bases, designadamente nos Açores”, realçando ainda que “numerosos louvores e condecorações, nacionais e estrangeiras, dão conta dos merecimentos do saudoso extinto que todos justificadamente respeitavam e admiravam”.


(1) http://desdemicampanario.es/2018/02/05/ un-accidente-aereo-que-conmociono-a-la-ciudad-de-badajoz/

(2) Coronel Luís M. Alves de Fraga, in “Súmula Histórica das Aviações Militares e da Força Aérea de Portugal”

(3) Carlos Guerreiro, in http://aterrememportugal.blogspot.com/2011/03/primeira-fuga.html.

 

Participação na Guerra Civil Espanhola

Durante la Guerra Civil de Espanha, António Dias Leite, integrado na Missão Militar de Observadores Portugueses, foi um dos aguerridos Viriatos que participou no bombardeamento noturno de Brunete, ocorrido em julho de 1937, e nos ataques a Villanueva del Pardillo y Quijorna, partindo do aeródromo de Olmedo, nos aviões de fabrico alemão “Junkers 52” (1).

A chamada Missão Militar de Observação na Guerra de Espanha, criada pelo Governo Português com o objetivo de “camuflar” e “coordenar dentro do possível, o empenhamento de militares profissionais e milicianos no conflito vizinho”, integrou alguns elementos da Arma de Aeronáutica: os tenentes-coronéis António Sousa Maya, e Alfredo Cintra, o major António Dias Leite e os tenentes Venâncio Deslandes, João de Freitas e Peral Fernandes. Alguns deles participaram, como observadores, no bombardeamento aéreo noturno contra Brunete, povoação cercana de Madrid, conduzido por uma esquadrilha alemã de trimotores «Junkers Ju 52» (2).

Ajuda no repatriamento de pilotos ingleses

Durante a Segunda Guerra Mundial, o então major António Dias Leite foi decisivo na fuga e repatriamento de pilotos ingleses retidos em Portugal, como realta Carlos Guerreiro no seu blogue sobre a II Guerra Mundial.

Na noite de 14 para 15 de fevereiro de 1941, Portugal foi assolado por um ciclone que provocou mais de uma centena de vítimas mortais, mais de meio milhar de feridos e incalculáveis danos materiais.

Nessa fatídica noite, um hidroavião Sunderland da RAF (força aérea inglesa) levantou voo das proximidades de Plymouth com destino a África. Pouco depois das cinco horas da manhã, devido ao temporal, o avião foi obrigado a amarar, acabando por encalhar, uma horas mais tarde, numa praia. Na manhã seguinte, os tripulantes foram levados para Setúbal, sendo a primeira tripulação aliada a aterrar em Portugal.

Nessa época, as “Leis da Guerra”, apesar de pouco claras, apontavam para que os tripulantes ficassem “internados” até final do conflito. No entanto, os serviços secretos britânicos propunham uma operação de resgate aproveitando o facto dos tripulantes, que então estavam na Figueira da Foz, se encontrarem pouco guardados, pelo que deveriam ser metidos em carros e embarcados num dos navios que realizavam patrulhas ao longo da costa portuguesa a partir de Gibraltar.

A embaixada inglesa em Lisboa não discorda do plano mas não quer saber pormenores, por temer a reação de Salazar e por eventuais implicações no relacionamento futuro com o governo português. Por sua vez, o Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros) desaconselha a operação e não quer sequer que se faça um pedido oficial para a libertação dos homens.

Por essa altura, o major António Dias Leite recebeu um convite para um cocktail na Embaixada Britânica. Entre os convidados viu uma cara não lhe era estranha, mas que só conseguiu identificar quando foi abordado. Tratava-se do Squadron Leader Lombard, comandante da esquadrilha 95, a que pertencia o Sunderland, e, ele próprio, um dos internados pois também vinha a bordo. Os dois tinham-se conhecido em 1938 num curso avançado de instrutores no Reino Unido.

Lombard pediu ajuda a António Dias Leite para se encontrar uma saída para os tripulantes ingleses. Apesar de se mostrar sensível ao pedido, argumentou que não tinha poderes para organizar uma operação desse género. Dias depois, o major foi contactado pela própria embaixada inglesa, o que o levou a tentar ajudar. Por isso, contactou “Alguém” (a maiúscula é do documento original) para lhe explicar o problema, pessoa que deveria estar bem colocado no governo, pois acabou por dar luz verde á operação, desde que fossem cumpridas algumas condições. Mas, se alguma coisa corresse mal António Dias Leite teria de assumir todas as responsabilidades.

Alguns dias antes da data marcada os aviadores “fugiram” dos seus guardas na Figueira da Foz em direção a Aveiro. Durante a fuga foram perseguidos numa operação coordenada por elementos locais da Gestapo (polícia nazi alemã).

Chegados a Aveiro, os ingleses foram acolhidos na casa de um médico amigo do major, Augusto da Cunha, onde permaneceram alguns dias.

No dia 25 de março, à tarde, os 11 ingleses, acompanhados por António Dias leite e Augusto da Cunha, dirigiram-se para Leixões onde embarcaram já a noite ia alta. Perto das quatro da manhã um navio de guerra britânico iluminou-se da proa à popa, aproximando-se do rebocador. Estava consumada a primeira “fuga” de aviadores aliados do nosso país. Passada a guerra mundial, e segundo números avançados por António Dias Leite, quase 300 “escaparam” assim.

Anos mais tarde, o major António Dias Leite reencontrou um dos homens que ajudou a fugir na comitiva da Rainha de Inglaterra, quando esta visitou o nosso país. (3)