(Entre 8 de dezembro de 2020 e 8 de dezembro de 2021, a Igreja viveu um ano dedicado a S. José. A Comissão Diocesana da Cultura divulga o conteúdo de conferência proferida pelo Professor Daniel Silva, em sessão ocorrida no dia 3 de dezembro de 2021, organizada pela Pastoral Familiar Diocesana)
Daniel Paulo Rodrigues Silva
Nota prévia*
Quero começar esta minha apresentação por manifestar um profundo agradecimento pelo convite – a mão de Deus esteve com o Luís Silva, dando-me a oportunidade para descobrir um pouco de S. José. Devo confessar que do que fui descobrindo deixou-me seduzido, fascinado, como tentarei manifestar. Agradeço, também, profundamente, sem que eles alguma vez sonhem deste meu insignificante reconhecimento: desde logo, ao extraordinário, Papa Francisco, pela sua capacidade de rasgar caminhos de encontro com o rosto amoroso de Deus, especialmente, com a proposta do Ano centrado em José de Nazaré; e a Leonardo Boff, pela sua profunda, clara e cativante reflexão, sobre este tema, através do seu livro, S. José, a personificação do Pai. Foi o seu conteúdo surpreendente que me persuadiu a apresentar-vos. Só damos aos amigos, aos queridos, o que mais gostamos.
- S. José desvalorizado na História da Igreja
Como sabemos, no longo período do pensamento e da reflexão teológica da Igreja, S. José foi quase que ignorado ou foi entendido como “personagem” de segunda categoria. A devoção a S. José pertence mais à piedade popular do que à meditação de papas e de teólogos, salvo raras exceções. Daí que milhões de pessoas, instituições e lugares tenham o seu nome.
A verdade é que de S. José não nos chegou qualquer palavra. Pouco sabemos dele. Entregou-nos o seu silêncio e o seu exemplo de homem justo, trabalhador, esposo, pai e educador.
- José de Nazaré – artesão, esposo, pai e educador (*38-ss)
Tradicionalmente, atribuímos a José a profissão de carpinteiro, como é referido nos Evangelhos, mas, efetivamente, seria um artesão que dominava várias áreas ligadas à construção civil (provavelmente, terá trabalhado em Séforis, cidade próxima de Nazaré, mandada reconstruir por Herodes). José deveria, ainda, dedicar-se à agricultura porque Nazaré é uma zona de terra fértil. É neste contexto que Jesus vive e trabalha com seu pai, como refere a Exortação Apostólica de S. João Paulo II, Redemptoris Custos, (Guardião do Redentor) “No crescimento humano de Jesus ‘em sabedoria, em estatura e em graça’ teve uma parte notável da virtude da laboriosidade, dado que ‘o trabalho é um bem para o homem’ que ‘transforma a natureza’ e torna o homem, ‘em certo sentido, mais homem’.”
José é um homem de trabalho, mas também é um zeloso instrutor, cuidador e educador de Jesus.
Das poucas ideias seguras que os evangelistas nos transmitem é que José era o homem de Maria (Mt1,16; 1,18; Lc 1,27), o seu único esposo. Na tradição judaica, antes de ser marido, de coabitarem, existe um período de noivado que tem já valor jurídico de casamento, “Maria estava prometida em casamento a José” (Mt 1,18). E foi neste período que Maria se encontrou grávida. Esta situação causa perplexidade a Maria e grande angústia a José. (Caras mães e caros pais, qual seria a nossa reação?…).
Perante este acontecimento, José poderia ter denunciado publicamente Maria como adúltera (e todos sabemos as consequências para Maria desta denúncia) ou afastar-se dela discretamente e depois que ela e a família resolvessem a situação (com consequência para ela e para o menino).
Contudo, a atitude de José é, efetivamente, outra. O evangelista, Mateus, refere-se a José como, homem justo (Mt 1,19), por isso, após o esclarecimento do anjo, os textos passam a falar-nos de José como marido (Mt 1,19) e de Maria como esposa (Mt 1,20). São uma família.
Podemos imaginar, então, o ambiente de mistério desta família, em que a esposa engravida sem intervenção do marido, mas por ação do Espírito Santo e as conversas longas e discretas entre os dois, em que Maria confidencia a “anunciação” do anjo e José revela o “sonho”.
Encontramos aqui, um José, homem de profunda confiança, generosidade, amor e de silêncio.
E é, assim, que Jesus nasce com um pai. A paternidade de José foi claramente citada, várias vezes, nos evangelhos apresentando Jesus como o “filho de José” (Lc 4,22b), ou “Jesus de Nazaré, filho de José” (Jo 1,45).
Sabemos que José não é um pai no sentido genético, mas no sentido semita, o pai-social (aquele que dá nome, que convive com Maria), é pai no sentido matrimonial.
Por outro lado, a tradição qualifica a paternidade de José com vários atributos: espiritual, davídico, putativo, legal, adotivo, matrimonial, funcional, messiânico…
L. Boff acrescenta o qualificativo, pai personificado que vem na linha de alguns, poucos, teólogos, como já referimos.
L. Boff afirma, então, que José “por ser pai, possibilitou ao Pai celeste personificar-se nele, assumindo a sua realidade concreta, com todas as funções que a paternidade envolve”. (*49) Desta dimensão da paternidade personificada, falaremos adiante.
- José, homem justo (Mt 1,19a)
Do pouco que sabemos de José de Nazaré, diz-nos o evangelista Mateus, é que ele era um homem justo que age com retidão. José é um homem piedoso, ligado intensamente à vontade de Deus, com grande intimidade com Ele, sensível aos Seus desígnios e que segue os preceitos das tradições espirituais do povo. É este homem piedoso e justo que ensina pelo exemplo; homem mais da ação do que da palavra, cultivando a observância das tradições e da lei, com amor a Deus e ao próximo.
Este ambiente familiar marca, radicalmente, o crescimento e as atitudes de Jesus que, de tanta intimidade com o Pai, chama-O: Abbá (Paizinho).
- O(s) sonho(s) de José (*65-66)
Eis que chegámos, então, ao tema de nosso encontro, “o sonho” (ou os sonhos) de José de Nazaré. Sem dúvida que este aspeto é relevância fundamental, não só porque é das poucas informações que dele chegam até nós, mas, sobre tudo, pela importância teológica para o conhecimento de S. José.
José não recebe nenhuma revelação verbal direta, como Maria. Deus manifesta-se a José através dos sonhos: ficar com Maria, apesar de grávida; dar nome a Jesus; a fuga para o Egito; a ordem de voltar para Israel e de ir viver para Nazaré (cf. Mt 1,20-21; 1,24; 2,13; 2,19-20).
“Deus entrou em contacto com José pela linguagem do profundo. Talvez seja essa a forma mais adequada para ele que, como pai, representa ao arquétipo da origem, o mistério abissal do qual tudo promana. O importante é que José atendeu aos sonhos, como chamamento para uma missão junto de Maria e do Menino. Assim, ele encaixa-se no plano divino da autocomunicação de Deus, assim como Ele é, enquanto Pai (José), Filho (Jesus) e Espírito (Maria).
Amigos, esta é a grande novidade; é a Boa Notícia, para mim, em tempo de Advento.
1º Anúncio do nascimento de Jesus 19*José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. 20*Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. 21*Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.»
22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23*Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco. 24Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa.
2º Fuga para o Egipto – 13*Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.»
14*E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto,
3º Jesus em Nazaré – 19*Morto Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, 20*e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.» 21Levantando-se, ele tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel.
- S. José de Deus – na ordem da união hipostática
Todos nós, entendemos Jesus de Nazaré (Homem), como o Cristo da Fé (Deus-Filho). Há, pois uma união total entre o Homem e Deus. É a esta união entre a pessoa humana e a pessoa divina que chamamos união hipostática (pessoa).
Ora, no nosso entendimento, o Papa Francisco, na Carta Apostólica, Patris Corde (com coração de pai), 8 de dezembro de 2020, na abertura e dedicação deste ano a S. José, permite-nos vislumbrar esta dimensão da união hipostática, união de pessoas, quando refere que: “Todos os fiéis terão assim a oportunidade de se comprometer, com orações e boas obras, para obter, com a ajuda de São José, chefe da Família celestial de Nazaré, conforto e alívio das graves tribulações humanas e sociais que hoje dominam o mundo contemporâneo”.
L. Boff é mais assertivo, “Há uma trindade em Nazaré, constituída pela família Jesus-Maria-José. Nesta família, entra o Espírito Santo que armou a sua tenda em Maria (cf. Lc 1,35) e o Filho eterno que também armou a sua tenda em Jesus (cf. Jo 1,14). Tal facto afeta São José, porque Maria é sua esposa e Jesus é seu filho” (*112)
Reforço a ideia: segundo a sua theologoumenon (tese teológica não oficial do magistério da Igreja, nem pertence à tradição teológica) há uma união hipostática entre as pessoas divinas e as pessoas humanas, assim: o Filho está presente em Jesus, o Espírito Santo está presente em Maria e o Pai está presente em José.
Esta mesma ideia é, de alguma forma, proposta no documento, já citado, de S. João Paulo II, Exort. Apost., Redemptoris Custos, nº 21, “Juntamente com a assunção da humanidade, em Cristo foi também «assumido» tudo aquilo que é humano e, em particular, a família, primeira dimensão da sua existência na terra. Neste contexto foi «assumida» também a paternidade humana de José.”
- São José, a personificação do Pai (*121-123)
Foi frei Adauto Schumaker quem usou pela primeira vez esta expressão, “José, a personificação do Pai”, num manuscrito com data da festa de S. José (19março1987). Defendia que havia “três humanizações divinas (hipóstasis): a primeira por encarnação, Jesus, Deus Filho; a segunda por corporificação, Maria, Deus Mãe (Espírito Santo); e a terceira por incorporação, José, Deus Pai”.
Dizia, então, frei Adauto, “José é Deus Pai humanizado, incorporado. É a sua Sabedoria e Discrição eternas, incorporadas no seu substituto na terra, no encargo da Sagrada Família. É a paternidade divina compartilhada do Pai Supremo (…) Os três (Jesus, Maria e José viviam na doce paz do amor divino, mas também numa persistente hipertensão espiritual (…) Submetiam-se ao cumprimento da lei – circuncisão, apresentação, purificação, romaria pascal anual –, mas interpretavam o seu procedimento de maneira distinta dos demais, em dolorosa busca de identidade”. Que foram percebendo de forma progressiva e gradativa.
Transcrevo, ainda, o seu Credo que resumia o seu pensamento:
“Creio em Deus Pai omnisciente, Criador e Glorificador do céu e da terra, incorporado em José, Pai da Igreja. Creio em Deus Filho omnipotente, encarnado em Jesus Cristo, Redentor e Salvador do mundo, Cabeça e Coração da Igreja que é o seu corpo. Creio no Espírito Santo omnipresente, Santificador e Mãe da Criação universal, corporificado em Maria, Mãe da Igreja. Ámen.”
Aqui está uma formulação explícita da relação hipostática do pai de Jesus, José, com o Pai celeste.
Assim, personificação expressa a “autocomunicação sem reservas do Pai celeste ao pai terrestre”.
- A família divina na família humana (*135- 138)
Entendemos a Santíssima Trindade como a eterna comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. “Eles irrompem simultaneamente juntos e relacionados. Eles coexistem eternamente um dentro do outro, para o outro, com o outro e jamais sem o outro. (…) Trindade quer significar esta circulação de vida, de inclusão e de amor”. O que constitui a família divina.
Esta família divina quis sair de si mesma, deixar a sua transcendência para convidar outra família, a comungar e a participar da sua vida íntima.
Esta família é a família de Nazaré, com José, Maria e Jesus. Esta família humana foi assumida pela família divina e passou a pertencer-lhe. Esta família escolhida num recanto escondido do mundo, representa todas as famílias humanas de todos os tempos e de todas as culturas. Deus “arma a sua tenda” sobre uma família humana para que todas participem da sua comunhão e da sua vida eterna.
- Santíssima Trindade inteira está entre nós (*174- ss)
Todas as famílias humanas e cada ser humano está inserido neste processo de personificação porque todos somos, quer tenhamos consciência ou não, irmãos e irmãs de Jesus, Maria e José. A mesma humanidade que está neles e que foi assumida pela Santíssima Trindade, está também em nós. Há algo da nossa humanidade que pertence ao Deus trino. Veja-se o desejo infinito que há em nós…
Como cristãos, esta é a nossa grande responsabilidade: a de assumirmos na nossa humanidade este “pedacinho de Deus” que nos projeta para a transcendência.
*Assinalam-se as páginas a que se refere cada etapa da reflexão. O livro de referência é Leonardo BOFF, São José: a personificação do Pai, Cascais, Editora Pergaminho, 2006, já aqui analisado