Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


VI Passo | ORAR É UM ENCONTRO PESSOAL

 

Na oração que Teresa ensina, “não interessa tanto o QUÊ, mas antes o COM QUEM”. Quer dizer, a oração é um “trato entre pessoas”, muito mais e muito antes do que um “trato de negócios”. Quando há encontro de pessoas, TUDO adquire significado. Quando não se dá, TUDO se banaliza.

E esta banalização seria a razão pela qual muitos PRATICANTES de oração não chegam a ser ORANTES. Procuremos explicar as características deste encontro:

a Encontrar-se é…

“ESTAR”…, “QUERER ESTAR” com Ele:

Na verdade, a Santa tem um conceito muito simples de oração: “Pensar e entender o que dizemos e a Quem o dizemos e quem somos nós que ousamos falar com tão grande Senhor…, é oração mental. Não penseis que é outra algaravia” (C 25, 3).

ORAR será “estar” ou “querer estar” em tão boa companhia como a de Deus. Advertir, tornar presente o Amado. Olhar para quem nos olha. E isto… DENTRO DE NÓS, onde se realiza verdadeiramente todo o encontro pessoal; ali onde o homem é mais ele mesmo. Outro tipo de presença não é pessoal nem humana, nem supera a solidão, nem cria comunhão, nem vivifica…

Ouçamos novamente a sua palavra: “Estava-me ali… com Ele” (V 9, 4). Ou… “Entrava-me com Ele”, quando comungava (C 34, 7 – na tradução portuguesa, esta passagem encontra-se no nº 7 e não 8…). “Esforcemo-nos a nós mesmas para estar junto deste Senhor” (C 29, 6).

Mais tarde, Teresa anteporá ao “estar” o “querer estar”. Acentua desta forma o papel da vontade que, apesar de todo o obstáculo, quer orar, e responde assim a todos aqueles que lhe perguntam acerca do problema das distracções e securas na oração.

Como para ela o importante é o QUERER, querer esse encontro, querer essa companhia, querer essa presença, não há que dar qualquer importância a esses desvarios mentais. Se se garante este “QUERER”, a oração dá-se. Deus tem em muita conta os nossos actos de oração, mesmo que não pareçam arrastar consigo a pessoa: “Aqueles instantes em que estamos em oração, seja quão frouxamente quiserdes, os tem Deus em muito” (2M 1, 3).

b Este tipo de encontro supõe também um…

OLHAR-SE, CONTEMPLAR-SE, entre Deus e o orante

Outras das formas mais usadas por Teresa de Jesus para definir o acto de orar é “olhar”. É parecido com “estar”, mas como que acrescenta “alma” e estreita a inter-relação.

Desde o início ela quer que o futuro orante se deixe de raciocínios, encenações, etc., e “caia na conta” da “presença envolvente do seu Deus”. Por isso, todo aquele que pretenda orar, uma vez posto em solidão, o que deve fazer?

Responde a Santa: “Não vos peço agora para pensardes n’Ele, nem que formeis muitos conceitos, nem que façais grandes e deliberadas considerações com o vosso entendimento; NÃO VOS PEÇO SENÃO QUE OLHEIS PARA ELE” (C 26, 3).

Esta atitude de presença, este olhar para dentro de si mesmo, intensamente, é a resposta do homem a Deus. “Veja que o Senhor o olha” (V 13, 22), adverte a Santa a quem deseja aprender a orar. Orar, pois, é tomar consciência de um Deus próximo, de um Deus que vive atento ao homem, voltado para ele, olhando-o.

Vamos agora fixar o nosso olhar em Jesus e deixar que Ele nos olhe e nos dê a sua paz.

«Jesus é a nossa paz»

A palavra ‘paz’ indica a totalidade dos bens que Jesus trouxe aos homens. O dom da paz marca o início da sua missão sobre a terra, acompanha o seu desenvolvimento e é a coroa da mesma. Paz cantam os anjos junto da gruta de Belém, onde o “Príncipe da Paz” se encontra deitado na manjedoura (Lc 2, 14).

“Paz” é o desejo que brota do Coração de Cristo diante da fragilidade do nosso corpo – «Jesus disse: «Alguém me tocou, pois senti que saiu de mim uma força.» Vendo que não tinha passado despercebida, a mulher aproximou-se, a tremer; e, lançando-se aos pés de Jesus, contou diante de todo o povo por que motivo lhe tinha tocado e como ficara imediatamente curada. Disse-lhe Jesus: «Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz.» (Lc 8, 48)

“Paz” é ainda a palavra de Jesus diante do nosso pecado – voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume. 47Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados. (…) A tua fé te salvou. Vai em paz.» (Lc 7, 50)

“Paz” é a saudação luminosa do Ressuscitado aos seus discípulos: Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» (Lc 24, 36), que Ele, no momento de deixar esta terra confia à acção do Espírito Santo, fonte de “amor, alegria e paz” (Gal 5,22).

Uma paz que é ao mesmo tempo reconciliação. Como consequência do pecado estabeleceu-se uma profunda ruptura entre Deus e o ser humano. E toda a história da salvação não é senão o relato das vezes que Deus vem ao nosso encontro, para nos oferecer a Sua amizade, a vida em união com Ele, na liberdade e no amor, na comunhão e na paz.

No Coração de Cristo, cheio de amor pelo Pai e por nós, seus irmãos, realizou-se a perfeita reconciliação entre o céu e a terra: «Fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho» (Rm 5,10).

Para fazermos a experiencia da reconciliação e da paz temos de acolher o convite do Senhor e ir a Ele: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos» (Mt 11, 28). Ao irmos ao Seu Coração vamos descobrir que aí encontramos paz e repouso; a nossa dúvida transforma-se em certeza, a nossa angústia em tranquilidade, a tristeza em alegria; a perturbação em serenidade. Ao irmos a este Coração cheio de amor somos envolvidos pelo alívio para a nossa dor, pela coragem para superar o temor, pela generosidade para não ceder ao desalento e nos lançar no caminho da esperança.

Jesus é a nossa paz, n’Ele Deus reconciliou consigo todas as coisas. N’Ele Deus vem ao nosso encontro para nos abraçar.

Convido-te a ires a Jesus, a fixares n’Ele o teu olhar e a escutares no teu coração a palavra que Ele te dirige: «A paz esteja contigo. Não temas. Sou Eu». Deixa que o Espírito do Ressuscitado faça despertar no teu interior a alegria, a paz e o amor da presença do Deus que te habita e sente como Deus vem ao teu encontro em todos os momentos da tua vida. Nunca estás sozinho. Jesus está em ti para ser a tua paz.

Carmelo de Cristo Redentor

 

Imagem de Godsgirl_madi por Pixabay