Pe. Georgino Rocha

Quarto: o baú de memórias

No quarto, há um espaço reservado à memória da sua mulher, a companheira amiga, a confidente solícita, a mãe generosa dos filhos que consciente e generosamente resolveram ter. Gil refere-se a ela com elevada emoção frequentemente acompanhada de uma lágrima de saudade. Ali está o terço por onde rezavam, a aliança da fidelidade, o olhar terno que sobressai no seu retrato de mulher bonita e robusta, o lenço bordado que os netos lhe ofereceram quando celebraram, na paróquia e em família, as bodas de ouro matrimoniais.

Aqui pára a reviver as memórias que a consciência guarda religiosamente, qual baú de preciosidades inestimáveis. Aqui entra em comunhão espiritual com ela e repete o gesto, cheio de sentido, de acariciar a face (outrora davam as mãos, enquanto faziam oração). Aqui vai sonhando com o reencontro desejado, com a morte que parece avizinhar-se, pois sinais incomodativos o vão anunciando. Aqui faz o balanço da vida decorrida e fica sereno, porque reconhece o acerto da maior parte das suas opções e a honestidade das suas atitudes. A comprová-lo, está a família que constitui a sua maior satisfação e o seu melhor “cartão de identidade”, além de muitos outros sucessos alcançados na profissão e na paróquia.

Relação com outros residentes

A relação com as pessoas é prudentemente selectiva. A vida ensinou-o a ser generoso, mas não ingénuo. Tem um temperamento sociável, faz amigos com facilidade, aprecia a conversa e a companhia, mas sabe que a melhor garantia de convivência feliz exige a observância de regras fundamentais.

As mulheres exercem uma atracção discreta que controla com facilidade, sublimando afectos e impulsos sexuais. Colabora em tudo o que pode, oferece os seus préstimos sempre que são promovidas actividades de animação ou surgem serviços urgentes que é preciso fazer. No resto, prefere tratar de si e das suas “coisas” e não se envolver demasiado.