(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista ‘Mundo Rural’

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

O terceiro dia, seguindo a tradução de https://www.paroquias.org/biblia/?c=Gn+1, permite-nos recolher dois dados particularmente relevantes para a nossa já longa reflexão sobre as relações entre ciência e religião.

Reparemos no texto.

9*Deus disse: «Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus, num único lugar, a fim de aparecer a terra seca.» E assim aconteceu. 10Deus chamou terra à parte sólida, e mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom.
11*Deus disse: «Que a terra produza verdura, erva com semente, árvores frutíferas que dêem fruto sobre a terra, segundo as suas espécies, e contendo semente.» E assim aconteceu. 12A terra produziu verdura, erva com semente, segundo a sua espécie, e árvores de fruto, segundo as suas espécies, com a respectiva semente. Deus viu que isto era bom. 13Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o terceiro dia.

Como víamos, em momento anterior da nossa abordagem, o segundo dia está em clara tensão para o terceiro. Aliás, é sinal disso o facto de não se referir, após esse segundo dia, que ‘Deus viu que era bom’. Só o faz já no contexto do terceiro dia em que, curiosamente, a expressão será repetida (em v.9 e v.12).

Neste terceiro dia, há, como acima antecipávamos, dois elementos de particular significado.

Em primeiro lugar, e tendo em conta que, no contexto bíblico, as águas são, múltiplas vezes, associadas ao ‘caótico’, este terceiro dia vinca a importância da separação entre o caótico e o cósmico (etimologicamente falando: a ordem, a organização, simbolizada na ‘terra’). Ao longo das narrativas bíblicas, o poder de Deus é evidenciando, repetidas vezes, como o poder sobre o caótico, expresso, inclusive, nos atos de ‘amansar as águas’.

Esta separação é, num contexto de diálogo entre ciência e fé, particularmente significativa. Só a fé, com a sua abertura de transcendência ao que está para além do físico, poderá assegurar motivos para a esperança, perante a inevitabilidade do fim do universo e de toda a realidade física (o que a ciência parece dar como certo, atendendo ao caráter incontornável da segunda lei da termodinâmica[1]). O caos poderá parecer vir a vencer, mas a Deus caberá (disso está convicto o autor de Génesis) a última e definitiva Palavra.

Mas há que ter em conta, porém, o segundo elemento que este terceiro dia nos permite observar.

Deus realiza a segunda parte dos atos de criação deste terceiro dia (a primeira parte está descrita nos vv. 9 e 10) dando ‘ordens’ à terra. É a terra que concretiza (‘Deus disse: que a terra produza…)’ a produção das espécies vegetais. E isto é particularmente interessante.

Há, certamente, discussão sobre se esta referência à ‘terra’ seria alusão à ‘mãe-terra’, mas os exegetas parecem coincidir[2] na relativização desse aspeto em relação à intenção de afirmar a ‘autonomia’ da terra, ainda que reconhecendo que a vida que a terra produz (só Deus ‘cria’) é dom recebido, mas autonomamente produzido.

Mais uma vez, recuperamos, assim, o reconhecimento de que a noção de ‘criação’ é a que predispõe (ao assegurar a autonomia do ‘criado’ em relação ao seu Criador) para o surgimento da ciência. Sem a autonomia das realidades terrestes, toda a ciência seria ‘teologia’. Ora, a ciência incide sobre a realidade observável e interpreta-a, percebendo os seus nexos e estruturando, a partir daí, leis que lhe confiram condições de compreensibilidade. Foi esta a grande descoberta que fez, aliás, Antony Flew, um ateu epistemológico (isto é, que o fora por motivo de ‘fé na ciência’, julgando, durante cerca de 50 anos, que só o saber científico era válido, verdadeiro e credível), que reconheceu, a partir de 2004, que, sem a possibilidade de Deus existir, não era possível sequer fazer-se ciência. Pois a condição necessária para se fazer ciência é acreditar que o mundo não é caótico, mas ‘cósmico’ (organizado, ordenado) e, por isso, suscetível de ser ‘lido’, interpretado e ‘teorizável’ em ‘teorias’[3].

Uma convicção assegurada no terceiro dia da Criação…


Sugestões bibliográficas

 

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.

Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.

Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 20027.

Michel.Yves Bolloré e Olovier Bonnasies, Deus, a ciência , as provas: a alvorada de uma revolução, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 20242.

Antony Flew, Deus não existe: como o mais célebre filósofo ateu mudou de convicção, Lisboa, Alêtheia Editores, 2010.


[1] Cfr. José Carlos González-Hurtado, Novas evidências científicas da existência de Deus, Apelação, Paulus, 2026, pp.43s. e Michel.Yves Bolloré e Olovier Bonnasies, Deus, a ciência , as provas: a alvorada de uma revolução, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 20242, pp. 73s.

[2] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013, p.33, Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 65.

[3] Cfr. Antony Flew, Deus não existe: como o mais célebre filósofo ateu mudou de convicção, Lisboa, Alêtheia Editores, 2010.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de ‘Bem-nascido… Mal-nascido… Do ‘filho perfeito” ao filho humano’, ‘Ensaios de liberdade’ e de ‘Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg’

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