Frei Pedro Mangana, OP*
Há encíclicas que pertencem ao seu tempo. E há outras que procuram disputar o futuro. A encíclica de Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, pertence claramente à segunda categoria: não é apenas um documento da Igreja, mas uma advertência moral lançada ao coração de uma civilização fascinada pela velocidade, pela eficiência e pela ilusão de omnipotência tecnológica.
O gesto inaugural do Papa é profundamente simbólico. Ao publicar o texto 135 anos depois da Rerum Novarum, Leão XIV estabelece uma ponte deliberada entre duas revoluções: a industrial e a digital. Se no século XIX a máquina ameaçava reduzir o trabalhador a mera engrenagem económica, hoje o algoritmo ameaça reduzir o ser humano a perfil, estatística e dado comercializável. A diferença é que, desta vez, o controlo é mais subtil e, talvez, por isso mais perigoso.
A leitura da Magnifica Humanitas deixa precisamente essa convicção inquietante: a questão decisiva do nosso tempo não é tecnológica, mas profundamente humana. Ao longo do documento emerge uma ideia central: nenhum avanço científico, nenhum sistema inteligente, nenhuma promessa de automatização poderá jamais ocupar o lugar da relação pessoal, da compaixão, da consciência e da responsabilidade que cada ser humano deve ao outro. O progresso só adquire verdadeiro sentido quando permanece ao serviço da pessoa e da sua dignidade.
É aqui que a encíclica revela a sua profundidade. Leão XIV não apresenta a dignidade humana como um conceito abstrato ou mera categoria jurídica. Pelo contrário, ela manifesta-se no encontro concreto entre pessoas, na vulnerabilidade partilhada, no reconhecimento da singularidade irrepetível de cada vida. Mesmo numa cultura dominada pela eficiência, pela quantificação e pela obsessão pelos resultados, o Papa recorda que o ser humano excede sempre aquilo que pode ser medido, previsto ou calculado.
A encíclica possui uma lucidez rara porque recusa os extremos fáceis. Não há nostalgia ingénua nem histeria apocalíptica. O Papa reconhece o potencial extraordinário da inteligência artificial, mas recusa ajoelhar perante ela como se fosse uma nova divindade secular. A tecnologia deve servir a humanidade, “mas sem derrubar a liberdade e o discernimento do ser humano, sujeito das relações e responsável pelas decisões” (nº 114) escreve Leão XIV, numa das passagens mais incisivas do texto.
É precisamente aqui que o documento se torna incómodo e necessário. Porque identifica algo que demasiados líderes políticos evitam enfrentar: o poder tecnológico deixou de ser apenas económico; tornou-se antropológico. Quem controla os algoritmos começa também a moldar a perceção da realidade, a linguagem pública, os afetos e até os limites do pensamento aceitável. A denúncia do “tecnofascismo” pode soar excessiva a alguns ouvidos, mas encerra uma intuição perturbadora: nunca na história tão poucas entidades privadas acumularam tanta capacidade de influência sobre tantos milhões de pessoas
Há igualmente uma coragem invulgar na forma como Leão XIV desmonta o mito contemporâneo da neutralidade tecnológica. A técnica, embora indispensável e portadora de benefícios extraordinários, necessita de orientação ética. Sem um horizonte moral, a inovação corre o risco de perder de vista precisamente aqueles que mais necessitam de proteção e cuidado. Por isso a encíclica insiste tanto na solidariedade, na memória, na atenção ao sofrimento humano e no compromisso com os mais frágeis. A inteligência artificial não nasce num vazio moral; é construída por interesses, financiada por poderes económicos e treinada a partir das fragilidades humanas que aprende a explorar.
Talvez por isso uma das expressões mais fortes da encíclica seja o apelo a “desarmar a IA” (n.º 110). Não apenas no sentido militar, embora também aí o alerta seja severo, mas sobretudo no plano cultural e espiritual. Desarmar a IA significa impedir que o ser humano abdique do pensamento crítico, da responsabilidade moral e da capacidade de contemplação. Significa recordar que nenhuma máquina, por sofisticada que seja, conhece a compaixão, o arrependimento ou a consciência do sofrimento humano.
O texto atinge a sua maior força quando abandona a abstração teológica e entra no quotidiano concreto: crianças educadas por ecrãs antes de aprenderem silêncio; relações humanas substituídas por simulações emocionais; trabalhadores descartados em nome da eficiência; democracias manipuladas por sistemas opacos de informação. Leão XIV não escreve como um tecnófobo, escreve como alguém que teme que a humanidade esteja a perder lentamente a capacidade de permanecer verdadeiramente humana. E, talvez, seja precisamente aí que reside a grandeza desta encíclica. O seu tom é marcado por uma esperança exigente. Em vez de encarar a revolução tecnológica como ameaça inevitável, o Papa propõe que ela seja habitada por valores humanos e espirituais capazes de orientar o seu desenvolvimento. A grande tarefa do presente não consiste apenas em aperfeiçoar instrumentos, mas em cultivar a capacidade de reconhecer o valor intrínseco de cada pessoa. É nessa fidelidade ao humano, expressa no cuidado, na justiça e no amor ao próximo, que a encíclica situa o fundamento de um futuro verdadeiramente digno para todos.
Há, por fim, uma dimensão quase literária no texto. A inesperada citação de Gandalf, “não nos toca dominar todas as marés do mundo” (n.º 213), funciona menos como curiosidade cultural e mais como metáfora do limite humano. Numa era que transformou o poder técnico em critério absoluto de progresso, Leão XIV recorda uma verdade antiga e profundamente incómoda: nem tudo o que pode se pode fazer deve ser feito.
Magnifica Humanitas não ficará na história apenas como a primeira grande encíclica sobre inteligência artificial. Ficará, possivelmente, como um dos mais relevantes manifestos humanistas deste século. Porque, no fundo, Leão XIV coloca a única pergunta que verdadeiramente importa: quando toda a tecnologia estiver finalmente ao nosso alcance, ainda saberemos o que significa ser humano?
*Frade da Ordem dos Pregadores (Dominicanos)
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