‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ | Parceria com a revista ‘Mundo Rural’

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

O nosso ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’ leva-nos, hoje, ao encontro de uma outra ponte entre a cultura clássica e a cultura judaico-cristã. Percorremo-la pela mão de ‘Tântalo’.

A nossa cultura guarda memória desta figura da cultura grega na alusão ao ‘suplício de Tântalo’ com que se pretende expressar uma dramática e nunca bem-sucedida missão que se esfuma no medo e na angústia. À maneira do original ‘Tântalo’ que nos servirá de guia, nesta reflexão.

[Sigamos, na nossa descrição, a sumária apresentação que desta personagem nos faz Luc Ferry no seu livro ‘a sabedoria dos mitos’ (Edição da Temas e Debates).]

Tântalo deseja testar a omnisciência dos deuses. Convida-os para com ele partilharem de uma refeição, submetendo-os a um teste que, quando desmascarado (tentara levá-los à prática da antropofagia…), lhe vale um castigo perpétuo: o de sofrer fome e sede eternas e o medo permanente de que lhe caia em cima uma pedra suspensa sobre si.

Nesta história, reúnem-se a visão trágica da existência (o destino de que o Homem, na visão grega, não consegue libertar-se…), mas também um elemento que parece associar Tântalo e Adão: ambos cometem a ousadia da presunção de serem divinos pela via do conhecimento. (Também a Adão é proibido que coma da árvore do conhecimento do bem e do mal!).

Há, porém, que ter em conta que, no mesmo momento em que Tântalo e Adão parecem unir-se, divergem: de Tântalo não consta que se vislumbre qualquer sinal de redenção possível; de Adão o que se conta é toda uma posterior história que, ainda que marcada pela presença da tragédia da vida, se abre à redenção definitiva.

Hoje, como ontem, hoje, como no tempo do primeiro encontro entre a cultura grega (trágica) e a cristã (redencionista), o desafio é o de, no ponto em que ambas se encontram, se abrir o elemento distintivo que o cristianismo é convidado a continuar a trazer à História: a crítica à presunção da pretensão de se ser divino é, no mesmo momento em que ocorre, convite a que o Homem se transcenda, não contra Deus (assim fôra com Tântalo, submetendo os deuses a um teste hediondo), mas com Deus que o eleva.

A figura do Novo Adão, configurado na encarnação do Verbo, Jesus Cristo, retrata, não a recusa do humano substituído pelo divino, nem a recusa do divino, suplantado por um Super-Homem, mas a enunciação de que a divinização humana se dá na plena humanização do Homem. Jesus Cristo não é Deus na recusa do Humano, mas antes é a plenificação da ‘humanitude’ de cada Homem.

Tântalo é redimido pelo Novo Adão. Tudo saberá, nos limites próprios da condição humana, enquanto estiver na história, para que, um dia, no olhar frontal e fontal com Deus, poder participar da sabedoria plena de Deus.

Tal perspetiva confere uma humildade projetiva que supera os limites de Tântalo e do primeiro Adão. Uma humildade projetiva é a que reconhece que a verdade existe como horizonte (contra todo o relativismo), mas que nunca, na história, é definitiva (contra todos os absolutismos). A esta luz, perante as presunções tantálicas de se poder possuir um só e definitivo tipo de saber verdadeiro, há que saber-se a caminho, com humildade, mas também com um olhar que projeta para diante. Tântalo já não tem de desejar testar a omnisciência ‘dos deuses’, pois sabe que a Verdade existe, mas nunca é, aqui, definitiva. Mas existe e caminha para ela.

O pecado moderno está entre as duas tentações: a da definitiva posse da verdade e a da sua total recusa como possibilidade.

Hoje, pode vislumbrar-se a sua presença em dois sinais a denunciar: o da recusa de qualquer horizonte de verdade moral (tudo é permitido) e a da presunção de que só a verdade de tipo científico possa ser portadora de verdade.

Contra a primeira tentação, caberá recordar que, quando o homem recusa a possibilidade da busca da verdade é ele mesmo, enquanto ser racional, que fica em crise (como tão bem constataram alguns estruturalistas): quando a verdade definitiva morre (Deus morreu, dizia Nietzsche) o próprio homem morre (assim o reconheceu Michel Foucault).

Contra a segunda tentação, é preciso reafirmar, com John Haught, que a densidade da realidade obriga à humildade de reconhecer que há muita verdade para além da científica (não defendemos qualquer tipo de obscurantismo, mas, pelo contrário, a superação de uma presunção positivista que se densificou, no século XIX, e que ainda hoje tem muitos seguidores. Valerá a pena, sempre, recuperar a verdade das afirmações de um dos maiores génios da história, Albert Einstein que, em textos do período entre 1939 e 1941, reconhece que «o método científico não nos pode ensinar senão o modo como os factos se relacionam e condicionam entre si.» e complementa com a ideia tão fecunda de que «a ciência pode apenas indagar aquilo que é, mas não o que devia ser, e fora do seu domínio permanece toda a esfera dos juízos de valor, cuja necessidade ninguém discute.» (citações recolhidas de A. Einstein, Como vejo a ciência, a religião e o mundo, Relógio d’água, 272 e 275)

Talvez Einstein se surpreendesse com a quantidade de gente que, hoje, discute a necessidade dos juízos de valor…

A tentação de Tântalo permanece, como a de Adão, mas a tragédia do primeiro não tem de sair vencedora em relação à redenção que começou na própria narrativa adâmica.

Hoje, como outrora, Tântalo e Adão continuam a ousar, pela via do conhecimento, deixar de ser humanos como se Deus fosse um seu opositor e não, pelo contrário, a sua própria condição de possibilidade de existir. Sem o horizonte do Definitivo, o humano sucumbe… Adão parece tê-lo descoberto: mas a sombra da pedra que impende sobre a cabeça de Tântalo quer, muitas vezes, atormentá-lo.

– “Não passa de uma sombra, Adão! Ergue os olhos e verás que o horizonte é largo e a sombra que te parece atormentar não passa de uma projeção sem suporte numa realidade trágica. Ergue os olhos, alonga o teu olhar, sem medo nem angústias: no aqui da história não está, ainda, o definitivo. É para ele que caminhas. Mas caminha… Não absolutizes o relativo; não relativizes o Absoluto!”


Imagem: A festa de Tântalo | Hugues Taraval [1766] in https://wsimag.com/culture/66259-villains-punished


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura e autor de ‘Bem-nascido… Mal-nascido… Do ‘filho perfeito” ao filho humano’
Artigo originalmente publicado em www.teologicus.blogspot.com