Homilia | Missa da Ceia do Senhor
1. A Páscoa e a Ceia do Senhor
Nesta noite santa em que iniciamos o Tríduo Pascal de Jesus, no qual celebramos a entrega de Jesus pela humanidade, fazemos memória de três grandes acontecimentos da nossa fé: comemoramos a Páscoa dos judeus, imagem da Páscoa cristã, o mandamento novo no gesto do lava-pés e a instituição do sacramento da ordem, que qualifica os ministros ordenados para celebrarem o sacramento da Eucaristia, isto é, memorial da morte e ressurreição de Jesus.
A ceia da Páscoa é para os judeus um sinal e celebração da salvação operada por Deus em favor do seu povo, e tem como características principais ser uma celebração comunitária e familiar, renovar cada ano a aliança do povo com Deus e a passagem da escravidão para a vida, simbolizada na terra prometida. O cordeiro pascal, como lembrança do cordeiro sacrificado na noite em que saíram do Egito, tem um caráter expiatório pelos pecados do povo.
A segunda leitura de S. Paulo aos Coríntios apresenta uma questão que as comunidades de Corinto colocam ao apóstolo sobre o modo como celebram a Ceia do Senhor e os abusos que se cometem durante a celebração: “ouço dizer que, quando vos reunis em assembleia, há divisões entre vós, e em parte eu acredito. Quando, pois, vos reunis, não é a ceia do Senhor que comeis, pois cada um se apressa a tomar a sua própria ceia; e enquanto um passa fome, outro fica embriagado” (1Cor 11,19-21).
Paulo não pode elogiar estas reuniões dos cristãos porque há divisões entre eles, grupos ou partidos dentro das comunidades, entre os que podem comer a sua própria comida, porque são abastados, e os “que nada têm”. O pecado dos coríntios descreve-se quando diz “porventura não tendes casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e quereis envergonhar aqueles que nada têm? Que vos direi? Hei de louvar-vos? Nisto, não vos louvo” (v.22). A Ceia do Senhor supõe uma reunião onde a presença de Jesus cria fraternidade e não divisão. A Eucaristia, para Paulo, tem uma estreita relação com a morte de Cristo na cruz. O pão que partimos é comunhão com o corpo de Cristo que se entrega; o vinho é comunhão com o sangue da nova aliança de Cristo. “Fazei isto em memória de Mim” tem uma clara tensão escatológica, porque celebramos a presença de Jesus “até que venha” ou “para que venha”. Há um olhar não só para o passado, mas também para o futuro: na Eucaristia há um “hoje”, a atualização do acontecimento salvador que é a morte de Cristo e os cristãos entram em comunhão com Cristo, com o seu corpo e o seu sangue. Comer e beber a Eucaristia é participar do Messias glorioso e ressuscitado.
O próprio Senhor que se entregou na cruz oferece-se agora à sua comunidade a partir da sua vida gloriosa, por meio da Eucaristia. A sua presença não termina no pão e no vinho, presença real do ressuscitado no meio de nós, mas na comunidade que o come e recebe.
2. Lavar os pés aos irmãos
Comendo esse único pão, que é o corpo do Senhor, nós tornamo-nos muitos no seu corpo eclesial, porque não só comemos o corpo de Cristo, mas isso ajuda-nos a converter-nos em corpo de Cristo. Receber dignamente o corpo e sangue do Senhor significa a atitude da caridade fraterna, reconhecendo na comunidade o corpo de Cristo e imitando a entrega pelos outros do próprio Senhor. Por isso, deve o cristão “examinar-se” a si mesmo, para que a celebração não só esteja de acordo com a letra, mas também com o espírito que Cristo lhe atribuiu, que é ser alimento e juiz ao mesmo tempo.
O relato do Lava-pés obriga-nos a refletir na Eucaristia enquanto comunhão e caridade com os irmãos, que nasce da comunhão do Corpo e Sangue de Jesus. Na última Exortação Apostólica do papa Leão XIV sobre o amor para com os pobres –Dilexi Te = Eu Te amei, diz-nos que para nós, cristãos, a questão dos pobres remete-nos à essência da nossa fé. A realidade é que para os cristãos os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo. Com efeito, não basta limitar-se a enunciar de modo genérico a doutrina da encarnação de Deus ou afirmar a presença real de Jesus na Eucaristia. Para entrar verdadeiramente neste mistério, é preciso especificar que o Senhor se faz carne, que tem fome e sede, que está doente e na prisão. E, citando o Papa Francisco, afirma: «A Igreja pobre para os pobres começa pelo dirigir-se à carne de Cristo. Se nos fixarmos na carne de Cristo, começamos a compreender qualquer coisa, a compreender o que é esta pobreza, a pobreza do Senhor. E isso não é fácil!»
Aprendamos a lavar os pés dos nossos irmãos, sejam os últimos da sociedade, os sem abrigo ou os imigrantes abandonados à sua sorte e explorados por tantos que não vivem o mandamento novo do amor: “Amai-vos como Eu vos amei”. Que a oração de um dos padres da Igreja, S. Gregório de Nazianzo, desperte em nós sentimentos de misericórdia, lavando os pés uns aos outros: «Se, portanto, me ouvirdes enquanto é tempo, ó servos de Cristo, irmãos e co-herdeiros, visitemos Cristo, cuidemos de Cristo, alimentemos Cristo, vistamos Cristo, acolhamos Cristo, honremos Cristo: não apenas com uma refeição, como alguns; não apenas com perfumes, como Maria; não apenas com um túmulo, como José de Arimateia; não apenas com os ritos para a sepultura, como Nicodemos, que amava Cristo apenas pela metade; não apenas com ouro, incenso e mirra, como os Magos; mas, visto que o Senhor quer misericórdia e não sacrifício […] ofereçamos esta aos pobres, para que, quando partirmos deste mundo, sejamos acolhidos por eles nos templos eternos».
_______
Quinta-feira Santa, 2 de abril de 2026
† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro