Homilia | Missa Crismal 2026

1. Cristo, o Alfa e o Ómega

O texto que escutámos na segunda leitura inicia o livro do Apocalipse, no qual o apóstolo S. João saúda as sete igrejas da província da Ásia com estas palavras: “Graça e paz vos sejam dadas por Jesus Cristo, que é testemunha fiel, o Primogénito dos mortos, o Soberano dos reis da terra”. Esta Igreja a quem se dirige o apóstolo somos, hoje, a Igreja de Aveiro reunida à volta do bispo, rodeado pelos ministros ordenados, sacerdotes e diáconos, e pelo povo de Deus, que nesta missa crismal nos acompanha com a sua oração e comunhão, porque “Aquele que nos ama libertou-nos de todo o pecado e fez de nós um Reino de sacerdotes para o seu Deus e seu Pai”.

A graça do ministério sacerdotal que nos foi conferida no dia da nossa ordenação está bem expressa nesta oração própria do rito bizantino: «Senhor, enchei do dom do Espírito Santo aquele que Vos dignastes elevar ao grau de presbítero, para que seja digno de se manter irrepreensível diante do vosso altar, de anunciar o Evangelho do vosso Reino, de desempenhar o ministério da vossa Palavra de verdade, de Vos oferecer dons e sacrifícios espirituais, de renovar o vosso povo pelo banho da regeneração; de modo que, ele próprio, vá ao encontro do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, vosso Unigénito, no dia da sua segunda vinda, e receba da vossa imensa bondade a recompensa dum fiel desempenho do seu ministério» (CCE 1587).

Que sacerdotes necessita a nossa Igreja de Aveiro neste tempo que estamos a viver? Certamente não homens definidos pela multiplicidade de tarefas ou pela pressão dos resultados, mas sim homens configurados com Cristo através de uma relação pessoal com Ele, alimentada pela Eucaristia e expressa numa caridade pastoral marcada pelo dom de si mesmo. Não se trata de inventar modelos novos nem de redefinir a identidade que recebemos, mas voltar a propor, com renovada intensidade, o sacerdócio no seu núcleo mais autêntico, isto é, ser alter Christus, deixando que seja Ele e configurar a nossa vida, unifique o nosso coração e dê forma a um ministério vivido a partir da intimidade com Cristo, a entrega fiel à Igreja e o serviço concreto às pessoas que nos foram confiadas (Leão XIV aos padres de Madrid, 9-2-2026).

2. Aprender a trabalhar juntos e em comunhão

No encontro com os padres do seu presbitério de Roma, em 16 de fevereiro passado, o Papa Leão XIV pediu que aprendêssemos a trabalhar juntos e em comunhão. A paróquia, refere o Papa, não é suficiente para dar início a um percurso de evangelização capaz de alcançar quantos não conseguem participar de maneira adequada. As mudanças culturais e antropológicas ocorridas nas últimas décadas tornam urgente voltar a anunciar o Evangelho. Num tempo que é novo, marcado por uma cultura diferente, plural, multifacetado e pluricultural, só mudando e adequando os modelos organizativos e os processos de ação pastoral, podemos transmitir o que não muda.

É o que estamos a realizar através da definição, estruturação e implementação das comunidades pastorais. É um tempo exigente, difícil, mas toda a renovação autêntica exige coragem, dinamismo e conversão interior de pessoas e estruturas.

A implementação das comunidades pastorais requer tempo e paciência. Este é o tempo oportuno. Não há que ter medo; seguir Jesus, confiar e ousar. É um caminho, é um processo resultante do discernimento segundo o Espírito de Deus, mas que será alcançado no ritmo próprio de cada comunidade, de cada paróquia, de cada equipa pastoral. Nem todos caminham com o mesmo ritmo, mas todos caminham para o mesmo objetivo. Por isso, as estruturas e a organização não têm de ser iguais em todas as comunidades pastorais, tendo em conta a dimensão, a geografia e os dinamismos próprios.

Por isso, é necessário que a pastoral de cada comunidade pastoral volte a colocar o anúncio de Cristo ressuscitado no centro da sua vida, procurar caminhos e formas que ajudem as pessoas a entrar novamente em sintonia com a promessa de Jesus. Como refere o papa Leão XIV aos seus padres, a iniciação cristã, muitas vezes modulada por ritmos escolares, deve ser revista: é necessário experimentar outras modalidades de transmissão da fé, até fora dos percursos clássicos, para procurar envolver de modo novo as crianças, os jovens e as famílias.

Estamos a viver tempos de graça e conversão que exigem um novo modelo de vida cristã. Temos de aprender a viver mudando. Isto significa aprender a “despedir” o que já não evangeliza, nem abre caminhos ao reino de Deus. Devemos despedir, sem nostalgia, o que está a morrer, e potenciar o que está a nascer. Cada vez será mais difícil tomar como referências válidas situações do passado e temos de deixar de falar das dificuldades, escassez de meios e deficiências, para dedicarmos mais tempo à oração, a discernirmos juntos caminhos de futuro e empreendermos caminhos de conversão.

Queridos diocesanos, leigos, sacerdotes, diáconos e consagrados: após a consulta sinodal realizada o ano passado em todos os arciprestados, e as reuniões realizadas em quase todas as paróquias da nossa diocese neste ano pastoral, entramos numa fase decisiva do nosso projeto pastoral: todos estamos convocados para as Assembleias arciprestais a realizar nos meses de abril e maio, e a Assembleia diocesana do dia 5 de julho. Este trabalho deve ser feito com o maior número possível de participantes, para prepararmos bem a Assembleia Sinodal do primeiro trimestre do novo ano pastoral, que irá decidir as comunidades pastorais, os órgãos que as compõem e o território que as constituem. Neste momento, somos como as mulheres que foram na manhã do dia de Páscoa ao túmulo e receberam a mensagem: “Não vos assusteis! Procurais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui.” (Mc 16,6). A Jesus não o devemos procurar no mundo dos mortos, mas sim na Galileia das nossas comunidades, porque “Ele irá à frente de vós. Ali o vereis”. Este é o caminho de cada um de nós e de todos os batizados da nossa diocese: escutar o chamamento de Jesus, aprender o seu estilo de vida ao serviço do reino de Deus, partilhando o seu destino de morte e ressurreição.

3. Caminhamos juntos

Não posso terminar sem partilhar convosco um pensamento de gratidão, evocando as palavras que o Papa Francisco nos dirigiu numa das últimas Missas crismais a que presidiu: «Obrigado pelo vosso serviço; obrigado por todo o bem escondido que praticais; obrigado pelo vosso ministério, muitas vezes desempenhado no meio de tantas dificuldades, incompreensões e pouco reconhecimento» (6 de abril de 2023).

A vinda da Ordem dos Mínimos para a nossa diocese, queremos que seja um dom e um momento de graça para todos. Por feliz coincidência, se não fosse a Semana Santa, seria o dia litúrgico de S. Francisco de Paula. As recomendações que faz aos seus frades também são válidas para nós: “Amai a paz, que é o mais precioso de todos os tesouros. Convertei-vos de todo o coração. Vivei de tal modo que mereçais receber a bênção do Senhor, e a paz de Deus nosso Pai esteja sempre convosco”.

Agradecemos o dom do sacerdócio dos presbíteros que este ano celebram os seus jubileus sacerdotais: o padre Félix Nunes Bento (24/11), da Arquidiocese de Lubango, mas a colaborar pastoralmente na Gafanha da Nazaré, celebra 25 anos de ordenação, o padre Joaquim Martins 50 anos, o Padre José Arnaldo Simões 60 anos, e o padre António Valente de Matos, 70 anos de ordenação.

Também recordamos com saudade e carinho aqueles que desde a última Missa crismal partiram para os braços do Pai, rico em misericórdia: o senhor padre José Martins Belinquete, que faleceu em 29 de junho de 2025; o padre Manuel Arlindo da Rocha Valente, em 3 de julho de 2025; o Padre António Correia Martins, em 9 de dezembro de 2025; o monsenhor João da Silva Antão, em15 de janeiro de 2026 e, mais recentemente, o padre João Evangelista Marques Sarrico, em 18 de março passado.

Lembramos, com gratidão, os diáconos falecidos: diácono António Carlos Vilaça Delgado (25/8/2026), o diácono Afonso Dinis Dias (13/11/2025) e o diácono José Cardoso de Abreu (3/2/2026).

“Os presbíteros são irmãos entre os irmãos, membros dum só e mesmo corpo de Cristo cuja edificação a todos pertence» (PO 9). Dentro desta fraternidade fundamental, que tem a sua raiz no Batismo e nos une a todo o Povo de Deus, é necessário realçar os vínculos fraternos que devem existir entre nós, inserindo-os no sacramento da Ordem, do qual todos participamos como dom que nos foi dado.

É com muita alegria e esperança que anuncio a ordenação sacerdotal do Diácono Rafael Malaquias Oliveira, a fazer o seu estágio pastoral nas paróquias da Branca e Ribeira de Fráguas e Diretor Adjunto do Serviço Pastoral das Vocações, para o dia 12 de julho, às 16:00 H, aqui na nossa Catedral de Aveiro.

Pedimos à nossa padroeira, Santa Joana Princesa, para ele e para nós, que nos ensine a caminhar ao encontro de Cristo, nosso Mestre e irmão.

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Quinta-feira Santa, 2 de abril de 2026

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro