A Comissão Diocesana da Cultura|Aveiro recomenda

O programa tem a curiosidade de se cantarem algumas sequências marianas do fundo do Mosteiro de Jesus (onde esteve a Princesa Santa Joana), de códices quatrocentistas, um repertório da tradição gregoriana pouco conhecido e praticado.

Este concerto apresentará programa original adequado ao tempo da quaresma.


O quê: 5.º Concerto do Ciclo de Concertos do Jubileu da Catedral de Aveiro

Onde: Igreja Matriz de Águeda

Quando: 1 de Março de 2024 | 21.00h.

Quem: Grupo Coral Ançãble


Sequências Marianas do Mosteiro de Jesus

As sequências foram um género poético-musical surgido como rebento do canto jubiloso muito desenvolvido e estendido do Aleluia— aplicando ao melisma final da última sílaba do Aleluia um texto poético de comentário ao mistério celebrado— que surgiu no séc. XI e se expandiu e floresceu por toda a baixa Idade Média, até ser muito contido na “reforma itúrgica” de pendor uniformizador do Concílio de Trento. Na liturgia reformada pelo Concílio Vaticano II sobreviveram 5 sequências: duas obrigatórias, a da Páscoa (Victima Paschali Laudes) e a do Pentecostes (Veni creator Spiritus), duas facultativas, a do Corpo de Deus e a da Senhora das Dores (Stabat Mater) e uma que é assumida como Hino do Ofício de Leitura para a XXXIV semana do Tempo Comum, não como sequência, propriamente dita, que é a Dies irae, da antiga liturgia dos Defuntos.

No séc. XV, de que datam os códices do Mosteiro de Jesus de Aveiro, que se inscrevem perfeitamente na tradição do corpus litúrgico especificamente dominicano, circulava já por toda a Europa um corpo de textos poéticos e de melodias surgidos a partir do sec. XI, que se inspiravam e suscitavam consecutivamente, num processo de criação poético-musical inicialmente totalmente livre, mas depois cada vez mais de “reciclagem criativa” de material preexistente— tanto musical como literário. Do estudo do conjunto das sequências deste fundo litúrgico, o Sr Pe Arménio retirou muito amplamente as seguintes conclusões:

  1. Já não se pode falar das sequências em Portugal como algo de raro e sem qualquer significado entre nós;
  2. Esta forma poético-litúrgica estava bastante difundida no tempo e no espaço do território português, tal como acontecia no resto da Europa;
  3. As ordens dominicana e franciscana foram as que mais contribuíram para a implantação e difusão das sequências em Portugal;
  4. O mosteiro de Jesus em Aveiro, na medida em que foi chamado a reformar e a reformar novos mosteiros, ocupou um lugar privilegiado na difusão desta tradição litúrgico musical, que era a sua própria tradição;
  5. A riqueza de informação, oferecida pelos códices analisados­­, permitiu vislumbrar a importância do recheio aveirense.[1]

As sequências, especialmente do ponto de vista musical, são um produto genuíno, embora serôdio, da época clássica do canto chamado gregoriano, de quando ele começou a ser escrito. Considerado pelos cultores do canto gregoriano pós restauração oitocentista e novecentista, de que S. Pio X é o papa de referência, um canto gregoriano tardio, tem sido desde então menos cultivado e praticado do que o corpus de repertório mais antigo do Kyriale e do Gradual. Mas o contacto com esta prática a que se pode chamar de “reciclagem criativa” de textos e cantos já então, no séc. XV, tradicionais, é uma experiência surpreendente e aliciante. É o que vos propomos com a execução de três sequência marianas — Da Natividade, da Anunciação e da Assunção, numa alusão aos três dogmas marianos da Imaculada Conceição, da Maternidade Divina e da Assunção— integradas no fio condutor das Antífonas marianas do actual Ofício de Completas, Salve Regina, Alma Redemptoris Mater, Ave Regina Caelorum e Regina Caeli laetare.

[1] Pe Arménio Alves da COSTA JÚNIOR, Mosteiro de Jesus de Aveiro, Tesouros musicais… nos códices quatrocentistas, Vol. I, Universidade de Aveiro, 1996, p. 406


Grupo Vocal Ançãble, constituído por uma família de Ançã (de onde retira o nome) e dedicado sobretudo à Música Sacra Portuguesa, tem-se apresentado em público com uma frequência regular em Portugal, registando também intervenções no estrangeiro, sobretudo em Itália, mas também Espanha e Brasil. Entre os seus regulares encontros com o público, iniciativas, o mais das vezes, de paróquias e autarquias, é de referir uma série de concertos temáticos – acompanhados por vezes das respectivas comunicações científicas – em congressos internacionais e outros eventos académicos. Destaca-se na já longa história do Grupo Vocal Ançãble a actividade desenvolvida em colaboração com o Instituto Português de S. António em Roma, onde, a partir de 1995, apresentou, em primeira audição contemporânea, um número conspícuo de composições inéditas, recolhidas e transcritas pelo seu director artístico em arquivos musicais de especial relevo para a música portuguesa. Foi sobretudo graças a esse mecenato que o Ançãble pôde contar, entre outras publicações discográficas saídas de participação em congressos científicos (Damião de Góis, Coimbra, 2002, Retórica e Teatro, Porto, 2010), com o registo e publicação sistemáticos do seu labor musical.
São de destacar também a participação no Congresso Internacional “O Órgão e a Liturgia hoje”, Santuário de Fátima 2003, o concerto integrado no Festival de Órgão Ibérico de 2010, da Misericórdia de Guimarães, gravado e transmitido em Setembro de 2011 pela Antena 2 da RDP, em que apresentou em primeira audição moderna motetos de Manuel Martins Serrano (séc. XVII-XVIII), mestre de capela da Sé de Portalegre, o concerto para a Semana Nacional de Pastoral Litúrgica em 2011, os concertos de abertura em já 4 Semanas Gregorianas e o concerto integrado no Ciclo Comemorativo do Centenário das Aparições de Fátima, em Setembro de 2017, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário.