Um olhar sobre o património | A pretexto dos 600 anos da catedral
António Leandro*
O espanhol Domingos de Gusmão nasceu em Caleruega, província de Burgos, Espanha, então reino de Castela, decorria o dia 24 de junho de 1170. Pertencia à pequena nobreza, mas rica, e era filho de Félix Fernan Ruiz, também conhecido por D. Félix de Gusmão, e de Joana Aza. Tinha dois irmãos, Menes e António (este viria a ser sacerdote e faleceria prematuramente) e era sobrinho de um outro sacerdote, sendo a sua família conhecida pela sua forte devoção. O seu nome parece, mesmo, ter sido escolhido por sua mãe em homenagem a São Domingos de Silos, a quem terá invocado durante a gravidez. Desde cedo, o jovem Domingos foi preparado para ingressar na vida eclesiástica e aos quatorze anos foi para a escola da Catedral de Palência estudar Teologia e Filosofia, recolhendo-se, por volta dos vinte e quatro anos, no Cabido dos Cónegos Regrantes da Catedral de Osma e passado pouco tempo foi ordenado sacerdote, tornando-se posteriormente superior do Cabido[1].
Em 1203, o Bispo de Osma, Diego de Acebes ou D. Azevedo, como também era conhecido, convidou-o para o acolitar numa embaixada à Dinamarca a fim de tratar dos esponsais do filho do Rei D. Afonso VIII de Castela. É nesta viagem que, ao atravessarem o sul de França, mais precisamente na região do Languedoc, contactam com os Cátaros, ou também chamados Albigenses devido à cidade de Albi concentrar grande parte daqueles excessivos e deturpados crentes. Da mesma forma, tomam conhecimento da grande missionação a que se devotava o clero dinamarquês. Perante este contexto e luculentos pela ardência de tamanha fé, em 1206, dirigem-se à Santa Sé, incumbindo-lhes o Papa Inocêncio III a tarefa devocional de evangelização no seio da comunidade daquela região francesa. Percorrem, então, toda a área pregando e argumentando contra os heréticos, elevando a devotio como o seu principal poder e obtendo alguns resultados: um grupo de mulheres cátaras converteu-se e os missionários, para o seu recolhimento, fundam um mosteiro em Prouille, na zona de Fangeaux, sendo o primeiro de Dominicanas da segunda ordem. Todavia, o Bispo faleceu em dezembro de 1207[2].
Apesar desta adversidade Domingos de Gusmão não descorçoou e reuniu seis companheiros, incluindo, ao que parece, o seu irmão Manes, para continuarem a perseverante ação prédica e em 1215 já estavam cientes da ordem religiosa que queriam formar, tendo o Bispo Foulques de Toulouse recolhido-os na sua diocese e confiou-lhes a igreja de S. Romain. Convicto do importante papel que queria desempenhar na evangelização, o futuro São Domingos dirigiu-se ao IV Concílio de Latrão a fim de confirmar a constituição da sua ordem, confrontando-se, no entanto, com uma proposta para proibir a fundação de novas ordens religiosas. Perante este entrave, o mesmo com que se deparou também Francisco de Assis, o qual teve a mesma intenção que o clérigo espanhol, mas na medida em que o objetivo era o impedimento da aprovação de novas regras eclesiásticas, Domingos de Gusmão viu-se obrigado a escolher uma regra já existente, elegendo a de Santo Agostinho, à qual adjudicou estatutos próprios. É, então, redigida a Regula ad servus Dei que expressa verdadeiramente o ideal de perfeição cristã que São Domingos preconizou. Porém, o Liber Consuetudinum consigna especificamente os verdadeiros pilares dominicanos[3]. Inocêncio III aprovou, então, a ordem; Honório III confirmou-a a 22 de dezembro de 1216 e em 21 de janeiro do ano seguinte é aprovada a fundação com a designação de Ordem dos Pregadores[4].
A pregação continuava a ser a missão especial e o dever primo, mas para o desenvolvimento desta apostólica tarefa era necessário os pregadores terem um aprofundado e correto conhecimento da literatura bíblica, o que tornava imperioso o estudo profundo das Sagradas Escrituras. Para isto, Domingos de Gusmão fomentou o ingresso nas Universidades (entenda-se Universidade segundo o conceito medieval de corporação de estudos religiosa[5]) e concedeu dispensas individuais para facilitar tal ministério, a salvação dos homens e principalmente o estudo e análise dos escritos religiosos. É por este altruísta e compulsório motivo que alguns dos primogénitos conventos são fundados próximos de Universidades[6] e muitos outros passam a integrar uma Universidade[7]. É neste sentido que o fundador da Ordem dos Pregadores decide viver num convento em Bolonha, um dos principais centros universitários europeus da época. São Domingos fundiu os elementos tradicionais da Igreja, que ainda vigoravam na baixa Idade Média, mas não por muitos séculos como a prática de muitos clérigos viriam a comprovar, numa unidade equilibrada de pobreza, penitência e pregação, aditando-lhe o estudo rigoroso, bem patente na exigência, no Capítulo Geral de 1220, de um professor graduado em cada convento[8], como preconizava a Carta Magna. Esta fusão unitária de elementos sacrossantos seria quase um precursor de alguns ideais que caraterizariam o final da era medieval, que como todas as épocas de crise ideológico-cultural exacerbam o sentimento religioso entrecruzado com práticas profanas, e se explanaria na literatura coeva na qual “a vida da corte e a pretensão aristocrática são denegadas em favor da solidão, do trabalho e do estudo”[9]. No ano seguinte, a 6 de agosto de 1221, morria o fundador da ordem e, logo de seguida, a 3 de julho de 1234 Gregório IX, que conheceu pessoalmente Domingos, canonizou-o.
A ordem continuou a sua senda com os seus preceitos e teve alguns grandes teólogos, tais como: Alberto Magno, Pedro de Tarentaise, Raimundo de Peñaforte, Santo Antonino e Savonarola, a quem o célebre pintor renascentista Boticelli dedicou, segundo alguns historiadores, a sua obra crítico-alegórica intitulada A Calúnia, conquanto o mais importante de todos terá sido Tomás de Aquino, cujas ideias, uma verdadeira filosofia teológica, foram muito seguidas durante a Idade Média. O século XIII foi, sem dúvida, o século de ouro dos dominicanos, mas no final do período medieval os franciscanos apresentam-se como os seus grandes opositores, apesar de terem sido fundados durante o mesmo concílio, de serem, também, uma ordem mendicante e de os próprios ideários de São Francisco de Assis serem muito semelhantes aos de São Domingos de Gusmão, havendo, mesmo, algum paralelismo nas suas Regulas. Ambas as ordens ficam também conhecidas como mendicantes devido à sua devoção pela humildade e oposição à riqueza do clero e as duas procuram uma nova pregação, nomeadamente junto de comunidades mais urbanas. Contudo, se os dominicanos se assemelhavam a Jesus Cristo e aos seus apóstolos na humildade da pregação e da evangelização, os franciscanos, por seu lado, imitavam O Messias no anúncio e pregação da Boa-Nova, mas destas “… disputas surgiu um grande respeito e amor mútuos”[10].
Imagem: São Domingos [cadeiral da Sé de Aveiro]
[1] William A. Hinnebusch, Breve história da Ordem dos Pregadores, Porto, Secretaria da Família Dominicana, 1985, p. 16.
[2] William A. Hinnebusch, Breve história da Ordem dos Pregadores, Porto, Secretaria da Família Dominicana, 1985, pp. 16-18.
[3] António Gomes da Rocha Madaíl – “Constituições que no século XV regeram o Mosteiro de Jesus de Aveiro da Ordem de São Domingos”. in Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. XVII. Aveiro, 1951. pp. 67-68.
[4] William A. Hinnebusch, Breve história da Ordem dos Pregadores, Porto, Secretaria da Família Dominicana, 1985, pp. 20 – 21.
[5] Sobre a diferença do conceito de Universidade consultar Manuel Lopes de Almeida – “Méritos e deméritos da história dominicana em Portugal. in Actas do I Encontro sobre história dominicana. Porto. Arquivo Histórico Dominicano Português. 1979. Vol. II. p. 20.
[6] Maria Helena da Cruz Coelho e João José da Cunha Matos, “O Convento Velho de S. Domingos em Coimbra. Contributo para a sua história” em Actas do II Encontro sobre História Dominicana, Vol. III, Tomo 2, Porto, Arquivo Histórico Dominicano Português, 1984, p. 42.
[7] Manuel Lopes de Almeida – “Méritos e deméritos da história dominicana em Portugal. in Actas do I Encontro sobre história dominicana. Porto. Arquivo Histórico Dominicano Português. 1979. Vol. II. pp. 20-21.
[8] William A. Hinnebusch, Breve história da Ordem dos Pregadores, Porto, Secretaria da Família Dominicana, 1985, pp. 13-14 e 27.
[9] Johan Huizinga – O declínio da Idade Média. Braga. Editora Ulisseia. 1996. p. 135.
[10] William A. Hinnebusch, Breve história da Ordem dos Pregadores, Porto, Secretaria da Família Dominicana, 1985, p. 61.