GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Marcos da vida de Ivan Illich (cont.) –
– 5. Segunda fase: sacerdote católico. – Fora Ivan Illich ordenado sacerdote em 1951. Em virtude das suas características pessoais – a origem, o percurso, o perfil (n.º 4) –, augurava-se um percurso eclesiástico junto da cúria romana. Aliás, a não menos o terá instado alguém como Giovanni Montini, o futuro Papa São Paulo VI. Demonstra-o igualmente o facto de, mesmo numa fase em que se encontrava distante do vértice eclesial de Roma, ter sido um dos teólogos que acompanhou o Cardeal Suenens no Concílio Vaticano II, um dos quatro cardeais moderadores do Concílio Vaticano II.
Mas não foi esse o percurso que escolheu. Os entrecruzamentos que já o caracterizavam por condição (ver n.º 4) continuam a ter lugar, agora por opção pessoal. Quando tudo apontaria para que permanecesse no coração da Europa, eis que cruza mais uma fronteira, desta vez a do Atlântico, e se desloca para essa enorme periferia católica que constitui o continente americano, onde passará a parte intermédia (e mais destacada) da sua vida.
O propósito que motivou Ivan Illich a deslocar-se para os Estados Unidos foi, então, o de continuar os seus estudos. Procurava realizar o equivalente ao grau académico que no espaço de língua alemã se designa Habilitation, que corresponde a um estudo de investigação aprofundado pós-doutoral, de maturidade, que habilita ao exercício estável ex cathedra da docência universitária. Tinha em vista fazer tais estudos em Princeton, dedicando-os a um dos expoentes da escolástica, o dominicano São Alberto Magno.
Mas logo surge nova inflexão.
Já nos Estados Unidos, é surpreendido pela chegada maciça de uma nova comunidade de imigrantes católica, a de Porto Rico, imigrantes que, não sendo propriamente estrangeiros (Porto Rico goza de um peculiar estatuto de associação aos Estados Unidos), provinham de uma realidade estranha aos Estados Unidos (Not Foreigners, yet Foreign é, justamente, o título de um texto de Ivan Illich). Semelhante estraneidade resultava, não só da sua religião minoritária no quadro norte-americano, a católica, como sobretudo da língua nativa (o espanhol e não o inglês), e, sobretudo, de trazerem consigo uma cultura latino-americana resultante da síntese entre as práticas trazidas pela expansão colonizadora espanhola e as tradições propriamente locais. Traziam consigo, portanto, não só um diferente modo de ser americano, como também um diferente modo de ser católico.
É perante o fenómeno da chegada em massa da imigração porto-riquenha e da sua imediata subalternização no confronto com outras comunidades de imigrantes – algumas das quais católicas – já claramente estabelecidas, como as comunidades irlandesa ou italiana, que Ivan Illich pede com sucesso ao Cardeal Spellman, Arcebispo de Nova-Iorque, que lhe seja confiado o cuidado pastoral desta nova comunidade. Era então o Cardeal Spellman uma das figuras de proa do episcopado norte-americano, que, a fazer fé nos retratos usuais que de si nos chegam, incorporava uma certa ideia dos Estados Unidos assente na estreita articulação entre dados valores patrióticos e certos valores institucionais cristãos. Fica a imagem de um certo tipo de personalidade estreitamente associada ao establishment político-eclesial, nos antípodas, aliás, daquela do iconoclasta Ivan Illich (Journey, p. 40). E, contudo, fica igualmente o testemunho, dado quer pelo próprio Ivan Illich (Conversation, p. 86), quer pelo Cardeal Spellman, que a Ivan Illich se referia como um padre «obediente sob todos os pontos de vista» (Rivers, p. 234, n. 29), de uma relação de enorme apreço e de forte lealdade. Não por acaso, as fortes dificuldades que Ivan Illich em breve virá a sentir em conservar a comunhão visível com a Igreja serão contemporâneas do período da morte deste prelado. O modo como estas duas personalidades reciprocamente se olham é suficiente para mostrar como a realidade é sempre mais complexa, mais rica, do que a sua fácil caricatura.
Junto da comunidade porto-riquenha, tem Ivan Illich por objectivo resgatá-la da condição de subalternidade, mesmo invisibilidade, em que se encontrava. Procurava que o seu rosto se pudesse afirmar por entre os muitos que compunham a cidade de Nova Iorque. Não se tratava, assim, de um trabalho de integração, se por ela se entender um esforço de assimilação nos termos do qual a comunidade imigrante se aproxima até à perfeita indistinção daquela com que se defronta (aliás, sempre caberia perguntar: numa cidade como Nova Iorque, a quem ao certo se haveria de assemelhar?). O esforço era mais o de afirmação no quadro de um tecido humano plural, garantindo uma presença pública respeitadora da idiossincrasia do grupo imigrante.
De modo perfeitamente concorde com estes propósitos, o fim do munus pastoral de Ivan Illich junto da comunidade porto-riquenha foi assinalado, em 1956, com uma fiesta na qual tomaram parte 30 000 pessoas. Ora, qualquer festa é uma sonora, jubilosa, alegre sinalização da presença pública de um grupo, que já não teme dar-se a conhecer.
O fim do trabalho com a comunidade imigrante de Porto Rico de Nova Iorque não representou, porém, a ruptura da ligação com Porto Rico ou com a cultura latino-americana, em que mergulhará profundamente ao longo das décadas de 60 e 70, e que lhe será sempre muito próxima. Se em Nova Iorque acompanhava a comunidade de Porto Rico desde uma periferia social, agora partirá para Porto Rico para exercer um conjunto de funções que lhe permitirão ver a sociedade desde um ângulo diferente, o do seu topo, a partir do qual a sociedade é pensada como um objecto de planificação administrativa. De facto, em Porto Rico passará a exercer funções como Vice-Reitor da Universidade Católica; mas igualmente tomará assento no Conselho Educativo Nacional de Porto Rico, responsável pela administração do sistema escolar. Neste período começará a tomar forma o pensamento que explodirá de forma vigorosa nos escritos de Ivan Illich sobre o tema da «desescolarização». A seu tempo será considerado.
Por enquanto, fica a síntese desta fase da vida de Ivan Illich: nela se assume ainda como alguém que exerce o seu munus de sacerdote católico. Mas nela experimenta igualmente as primeiras tensões, que em breve conduziriam a uma ruptura, entre o que sentia serem as exigências decorrentes da sua condição sacerdotal e as funções que fora chamado a desempenhar. Sirva de exemplo o facto de, enquanto Vice-Reitor da Universidade Católica, celebrar a eucaristia em lugares bem distantes do espaço em que exercia a sua actividade, por ex. junto de comunidades pobres de pescadores, onde ninguém o conhecesse desde o exercício daquelas funções. Assim procurava conservar a integridade do sacerdócio como meio e instrumento de unidade, evitando que fosse deslustrado por eventuais apreciações negativas que sobre o seu exercício do poder pudessem ser formuladas. Aliás, como de seguida se verá, há-de renunciar ao exercício de quaisquer ofícios eclesiásticos no preciso momento ao concluir já não estar em condições de ser o sacramento de unidade que é também característico do sacerdócio.
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