Pe. Franclim Pacheco

Breve comentário
O texto evangélico deste domingo continua a apresentar-nos a polémica entre Jesus e os vários grupos representativos do judaísmo da época. O texto começa por fazer referência ao facto de Jesus ter feito calar o grupo dos saduceus, a propósito duma pergunta sobre a ressurreição. Fariseus e saduceus eram inimigos uns dos outros, mas tornam-se amigos na crítica contra Jesus. O tom de controvérsia é assinalado pelo evangelista ao referir que a pergunta feita é para pôr à prova Jesus: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
A palavra fariseu significa «separado» porque o seu modo rígido de observar a lei de Deus os separava dos outros. O estilo de vida da maioria dos fariseus constituía um testemunho para o povo pois viviam do seu trabalho e dedicavam muitas horas do dia ao estudo e à meditação da lei de Deus. Tinham mais confiança no que eles próprios faziam por Deus do que Deus fazia por eles. Tinham perdido a noção da gratuidade que é a fonte e o fruto do amor. Jesus reage com firmeza e insiste na prática do amor que relativiza a observância da lei e do seu verdadeiro significado.
A questão do maior mandamento da Lei era uma preocupação presente na antiga tradição judaica, expressa no livro do Deuteronómio e entre os rabinos, para encontrar um princípio unificador para o conjunto dos 613 preceitos, 248 positivos e 365 negativos, nem mais nem menos, pois 613 era o número das letras do Decálogo, como no séc. XII notava o Rabi Maimónides. Além disso, o número dos preceitos negativos e positivos correspondia às 613 partes do corpo humano: 248 membros e 365 vasos.
Alguns diziam: «Todas as leis têm o mesmo valor, sejam grandes ou pequenas, porque todas vêm de Deus. Não nos compete introduzir distinções nas coisas de Deus». Outros diziam: «Algumas leis são mais importantes que outras e, por isso, obrigam mais». Entende-se, pois, a pergunta feita a Jesus, apesar de envolver, uma vez mais, uma armadilha para tentar desacreditá-lo.
Aparentemente, Jesus limita-se a citar dois textos do Antigo Testamento: o Shemá (Dt 6,5) que todo o judeu, ao tempo de Jesus recitava ao acordar, ao meio dia e ao deitar: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente» e o Lv 19,18: «Amarás ao teu próximo como a ti mesmo». Porém, a novidade total está em aproximar de tal forma um do outro que os torna inseparáveis. Mais ainda: «Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas», isto é, a revelação da vontade de Deus. Neste duplo mandamento do amor a vontade de Deus, testemunhada pela Lei e pelos profetas tem a sua máxima e completa expressão.
Este princípio dá sentido e unidade a toda a revelação bíblica no seu aspecto normativo. Por isso, Mateus refere a acusação de Jesus aos fariseus, pois eles são escrupulosos em observar prescrições minuciosas da lei, esquecendo o fundamental: a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mt 23,23; 15,6).
Toda a revelação histórica da vontade de Deus encontra a sua consistência e unidade no amor íntegro a ele como único Senhor e no amor activo e desinteressado para com o próximo. A perfeição dos discípulos consiste em reproduzir neste estilo de amor a sua relação filial para com o Pai que está nos céus (Mt 5,43.48).