GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Glosas a Brève apologie pour un moment catholique
– Catholique et français –
(pp. 15-47)
(Cont.)
[Primeiro texto: aqui.]
Tiago Azevedo Ramalho
– 8. Cont. – Lança Marion uma hipótese explicativa para, não obstante todas as limitações, a Igreja haver conservado uma relevante presença no mundo actual: fazer seu o princípio de compromisso com a reforma permanente, Ecclesia sempre reformanda. A forte implantação da Igreja na vida social, especialmente visível nos sectores educativo e caritativo, dever-se-á à capacidade de, não obstante todos os sinais de declínio, a Igreja, porque conhecendo a distância entre o que é e o que deveria ser, se subordinar a um processo de revisão permanente: «E poderá mesmo dar-se o caso de a Igreja Católica se tratar da única instituição que não se encontra em crise na sociedade francesa» (p. 21).
A afirmação é fortemente provocadora, por parecer tão contra-factual (…Marion é, de resto, um leitor de Pascal). Mas logo se nota, e o dado é conhecido, que à escala mundial a Igreja se encontra em movimento de expansão (p. 21). Pretende sugerir-se, pois, que a sensação de um assinalável declínio da Igreja Católica pode derivar de uma forte idealização do seu passado, que não deixaria dúvidas acerca de qual seria a única linha de acção cabível, a restauração dessa pretensa idade de ouro. Trata-se, aí, de viver sob o «peso de um fantasma», período «na verdade indeterminado e que cada um pode imaginar à sua maneira, onde a nação francesa se identificaria inteiramente com a fé cristã e, portanto, com a Igreja Católica. (…) De onde provém, ao menos desde a Revolução, a obsessão católica de “fazer de novo cristãos os nossos irmãos”, dito de outro modo, de voltar a tornar-se maioritário, senão hegemónico, em França» (p. 22).
Impõe-se uma correcção àquela idealização do passado, não apenas para obter uma leitura mais lúcida da condição actual, mas também para, obtendo-a, delinear linhas de acção esclarecidas, com uma firme recusa em embarcar numa aliança com movimentos políticos que, acenando bandeiras aparentemente concordantes com a profissão de fé cristã, parecem prometer a possibilidade da ansiada restauração daquela pretensa idade de ouro: «De facto, sob a cobertura de “promover as realidades terrestres”, de reconhecer a “autonomia do político”, de se “abrir ao mundo”, ou de aceitar uma “nova ordem mundial”, uma grande parte do catolicismo francês, da pastoral paroquial até à alta teologia dogmática, caiu na tentação de um tal compromisso. E, por vezes, sucumbiu» (p. 23). Tendo, aliás, o efeito de ricochete de conduzir a movimentos intraeclesiais organizados sob forma «partidária» (quer dizer, tomando partido por «isto» ou «aquilo», e desenvolvendo organicamente esforços no sentido de fazer afirmar uma certa linha de acção): «Hoje, já seria tempo de finalmente pedirmos [os católicos franceses] perdão a toda a Igreja universal por, mais do que outros, lhe termos inoculado as suas duas mais recentes heresias – o integrismo e o progressismo – que, cada uma delas, conduziram em momento recente quase a um cisma, em França e fora dela» (p. 24).
(Continua.)
Imagem de Karl Egger por Pixabay