Ter. Jan 27th, 2026
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Adresse: La croix sans la bannière –

(pp. 7-14)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

– 4. Uma síntese da proposta cristã.Do ponto de partida da obra já se deu conta (n.º 2): a crescente incompreensão a respeito do que é próprio da fé cristã, especialmente na sua vivência católica. Às suspeitas sobre o que pensam, e como vivem, os cristãos, pretende Marion responder com um contra-questionamento, colocando a hipótese de aquela incompreensão resultar de uma fantasmática perspectiva imaginária sobre o que é a prática cristã, sem conhecimento efectivo do modo como realmente se estrutura: ser aquela incompreensão, em suma, um fruto precipitado da ignorância (p. 8). Começa-se, pois, por colocar em causa as razões de ciência que estariam na base daquela suspeição, abalando a aparente firme posição do adversário, e denunciando-se ao mesmo tempo a licença pública para livremente ignorar o que é próprio da vivência cristã:

«Sejamos sérios (…) ninguém ousaria com uma tal boa consciência exibir a sua ignorância sobre um qualquer outro assunto (nem em economia, nem em política, nem em literatura, nem em pintura, nem em música, nem mesmo em enologia, nem, claro, sobre o amor, isto para nos atermos ao essencial). Por que se nos é permitido quando se trata de Deus e da fé dos católicos?» (p. 9).

Abalados os fundamentos daquela suspeição, pergunta-se: quem são, afinal, os católicos? Antes de responder, talvez se imponha, a título preventivo, afastar a leviana caricatura que deles se possa fazer, e que afinal impede que se escute a resposta, qualquer que ela seja:

«Não tenhais, pois, medo de nós, guardai o vosso medo para as verdadeiras ameaças, que não faltam. Mas também não nos continueis a subestimar. Não nos tomeis por retardados ou ressabiados [revanchards]. Esquecei por um minuto os clichés e os slogans: os católicos não se dividem em não crentes potenciais (bom!) ou em integristas identitários (mau!), em humanistas indefinidos (aceitável!) ou militantes de uma contra-sociedade (intolerável!).» (p. 9)

Limpo o campo, pode voltar a perguntar-se: quem são, afinal os católicos? O que os move ainda, não obstante os movimentos de cultura de longo alcance que os lançam para uma clara periferia do espaço público? Por que não desapareceram já, conforme seria suposto?

Segue-se uma página de ouro de apologética:

«Sobra uma hipótese, convenho que surpreendente, mas a única plausível: devem eles ter alguns motivos, quer dizer, razões para se comportarem como dizem pretender. E, para conhecer estas razões, é bastante instruir-se acerca de Cristo, uma vez que, tudo visto, os cristãos (e por isso também os católicos) tiram o seu nome de Cristo: “Foi em Antioquia que, pela primeira vez, os discípulos começaram a ser tratados pelo nome de ‘cristãos.’” (Actos 11, 26). Para compreender os católicos, importa antes de tudo conceber quem os coloca em marcha, Cristo. E, em princípio, eles estão “…sempre dispostos a fazer a sua apologia (pros apologian) diante de quem quer que peça as razões da esperança que têm” (1 Pedro 13, 15). O resto deduz-se daí, os seus usos e costumes, as suas ideias e as suas acções, mesmo os seus erros e fracassos. Em que consiste essa apologia, que eu gostaria de aqui esquissar brevemente? Eles crêem com a dureza do ferro que vale mais dar do que receber; que conservar-se a todo o custo resulta em perder-se e, reciprocamente, que perder-se permite salvar e ser salvo; que a morte pode conduzir à vida em plenitude. Eles crêem-no porque o constatam na sua própria experiência e sobretudo porque o viram de uma certa maneira na figura de Cristo. Bem entendido, eles experimentam-no, sem o poderem demonstrar do exterior a quem permanece no exterior deste mistério. Convencer outrem não depende deles. Depende deles, em contrapartida, realizar efectivamente, na comunhão de crentes, o que pretendem experimentar; dito de outro modo, progredir na santidade. Não exigem de não crentes, por certo, que vivam à sua maneira, mas exigem-lhes pelo menos que não lhes interditem tentar praticar esta arte de viver – certamente paradoxal, nisso convêm. Porque, muito simplesmente, a questão coloca-se: como se vive melhor, é possuindo e conservando-se com todas as forças, ou é dando-se e abandonando-se ao dom? “Bem-aventurados aqueles que, em espírito, se tornam pobres, porque desde já o reino dos céus é deles”, no presente (Mateus 5, 1). No fim da história, mas não antes, far-se-á contas.» (pp. 11-12)

– 5. Plano da obra.É uma apologia desta presença católica no espaço comum que se dedica, pois, este escrito de Marion. A obra estrutura-se a partir de três andamentos fundamentais, dois deles retomando realizações anteriores, e que correspondem aos capítulos «Católico e francês» (pp. 15-47) e «Laicidade ou separação» (pp. 48-82), um deles inédito, de título «A utilidade da comunhão» (pp. 83-119). Segue-se-lhes um remate final, «Envio: Um momento católico» (pp. 121-124), e são precedidos da nota introdutória (pp. 7-14) que se comentou nestes nn.º 1 a 5. Faltou apenas aludir ao respectivo título: «la croix sans la bannière», «a cruz sem a bandeira». Eis um pregnante modo de entrada na vivência da identidade católica que Marion dá a partilhar.

 

(Continua.)


Imagem de Mirosław i Joanna Bucholc por Pixabay