Sex. Mar 27th, 2026

Aveirenses notáveis

Família Pereira Campos – Inovadores empresários de cerâmica

Cardoso Ferreira (textos)

Parceria com o Correio do Vouga

Jerónimo, Ricardo, Domingos, Henrique, João e Ricardo Pereira Campos Júnior são os nomes de seis empresários, de três gerações, que marcaram a indústria cerâmica aveirense.

A ligação da família Pereira Campos à cerâmica começou quando Jerónimo resolveu investir na fundação de uma fábrica de cerâmica em Aveiro, empresa que construiu as grandiosas instalações hoje ocupadas pelo Centro de Congressos de Aveiro e pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.

Jerónimo Pereira Campos nasceu em 1828, e faleceu no ano de 1907. Era oriundo de uma família de carpinteiros e mestres de obras da zona de Ovar.

Profissionalmente, começou a sua atividade como carpinteiro, trabalhando juntamente com o seu irmão, tendo construído uma praça de touros no Campo de S. João (atual Rossio).

Em 1868 foi nomeado mestre de obras da Câmara Municipal de Aveiro, altura em que a Câmara Municipal de Aveiro era presidida por Sebastião de Carvalho Lima, exercendo essas funções até 1882, quando a nova gestão municipal o substituiu.

Foi também fornecedor de barro para a cerâmica das Devesas, fábrica fundada em meados da década de 1860 em Vila Nova de Gaia, por António Almeida da Costa, José Joaquim Teixeira Lopes e Feliciano Rodrigues da Rocha. Desse contacto nasceu a ideia de fundar uma fábrica em Aveiro.

Essa primeira fábrica surgiu em 1896, tendo Jerónimo Pereira Campos, então com 68 anos de idade, chamado os seus filhos mais novos – Henrique e João, que até então eram marceneiros que construíam barcos de pequeno porte – para a direção da mesma. Situada nas Agras, no final do Canal do Cojo, junto a um barreiro de grande qualidade (ainda existente) e da estação da CP de Aveiro, a fábrica foi concebida de acordo com as mais avançadas técnicas, apesar de se viver num período de estagnação económica. Mesmo assim, não tinha concorrência entre o Porto e a Pampilhosa, para o tijolo e a telha tipo Marselha que produzia.

Em 1911, quatro anos após a morte do fundador, o capital social da empresa é elevado de 15 para 30 contos, divididos em partes iguais pelos quatro filhos, Ricardo (1870-1953), Domingos (1872-1946), Henrique (1874-1944) e João (1877-1927). Os dois primeiros dedicavam-se a outras atividades: o Ricardo era comerciante de mercearia e confeitaria, e o Domingos era proprietário de uma oficina de encadernação. Este último ganha bastante protagonismo na administração da empresa.

Entretanto, em 1903, a empresa tinha aberto uma fábrica de vidro, que laborou até 1908.

As instalações iniciais depressa deixaram de satisfazer as necessidades da empresa, pelo que se avançou para a construção da imponente fábrica, hoje transformada em Centro de Congressos e IEFP. Em 1917, quando o edifício da fábrica estava quase concluído, José Maria Olímpio, o arquiteto responsável pela obra, disse ao Jornal de Notícias: “A construção do edifício da Fábrica de Cerâmica de Aveiro, cujo projeto é meu, é um justificado orgulho para os filhos de Aveiro. Os nomes dos seus proprietários merecem ser impressos na lista de ouro dos seus mais ilustres contemporâneos”.

Na primeira metade do século XX, foram, sucessivamente, integradas na empresa Jerónimo Pereira Campos, Filhos, SARL, a empresas Cerâmica de Viana, Lda. e a Fábrica de Alvarães (ambas, de Viana do Castelo), em 1935; a Fábrica de Louça de Viana, Lda., da Meadela (Viana do Castelo), em 1949, e a Fábrica do Sabugo (Sintra).

Os irmãos Pereira Campos integraram o grupo de fundadores do Banco Regional de Aveiro, instituição que financiou a construção da nova fábrica, em meados da década de 1910 – 1920.

 

Nota a final: Parte substancial dos dados apresentados foi obtida em diversos textos da autoria do investigador e historiador Manuel Ferreira Rodrigues.


João Pereira Campos

João Pereira Campos nasceu no ano de 1877, e faleceu em 1927. Em 1894-1895, no primeiro ano de funcionamento da Escola de Desenho Industrial, Henrique e João Pereira Campos começaram a frequentar as disciplinas de Desenho Elementar, Modelação e Desenho Aplicado à Cerâmica, apesar de terem, respetivamente 21 e 18 anos de idade. Em 1912, por motivos pessoais, por desavenças relacionadas com a gestão da empresa, e por razões políticas (era republicano, enquanto os irmãos eram monárquicos), João Pereira Campos deixa a empresa que detinha com os irmãos, vendendo a estes a sua quota e, logo de seguida, funda outra empresa de cerâmica de construção, a empresa Cerâmica Aveirense, erguida praticamente sobre um barreiro de boa qualidade, nas proximidades dos novos Canal de S. Roque e ramal ferroviário de S. Roque, da qual nada resta. Em 1914, a fábrica já produzia telha, telhões, tijolos vermelhos e refratários, ladrilhos, azulejos, tubos de grés, cimentos, entre outros produtos. Poucos anos volvidos, João Pereira Campos funda uma outra empresa cerâmica na região de Viseu. Em 1922 compra a Serralharia Mecânica e Fundição de Ferro e Bronze, Lda e, pouco depois, funda e torna-se gerente de uma outra serralharia e fundição de metais. Após a morte de João Pereira Campos, a gestão da empresa ficou a cargo da viúva, Severina Pereira Campos, e do seu filho Armando. Em 1953 a empresa passou a sociedade por quotas.

 

Ricardo Pereira Campos Júnior

Ricardo Pereira Campos Júnior nasceu em Aveiro, no dia 8 de janeiro de 1919. Era filho de Henrique Pereira Campos e Olívia Rosa Pereira Campos e neto de Jerónimo Pereira Campos. Morreu no dia 7 de maio de 1959, com apenas 40 anos de idade. Foi praticante de várias modalidades desportivas (voleibol, andebol, natação, esgrima, vela e remo), mas foi no basquetebol e no futebol que se distinguiu, tanto ao serviço do Liceu Nacional de Aveiro, como do Beira-Mar, e ainda durante o Serviço Militar na Ilha Terceira (Açores), onde foi campeão militar em basquetebol e futebol. Após o cumprimento do serviço militar, regressou a Aveiro e começou a trabalhar na fábrica Jerónimo Pereira Campos. Em 1953, por morte do seu tio Ricardo, assume a administração da fábrica, dando continuidade à política de modernização da empresa e expansão encetada pelo seu tio, assegurando mais tarde uma posição de relevo na indústria de cerâmica portuguesa com o seu grupo a notabilizar-se como o maior da Península Ibérica. A par da gestão empresarial, foi vereador da Câmara Municipal de Aveiro, nos mandatos 1951-1954, 1955-1958, e de 1958 até à data da sua morte, em 1959. Ainda em 1959, presidiu à Comissão de Exposições Comerciais, Industriais e Agro-Pecuárias, no âmbito das Comemorações do Milenário e Bicentenário de Aveiro. Também fez ainda parte dos trabalhos da Grande Exposição das Indústrias do Distrito de Aveiro. Idealizou o Bairro Social das Barrocas, foi dirigente do Sport Clube Beira-Mar, integrou a Confraria Santa Joana Princesa, a Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro, e foi membro do Rotary Clube de Aveiro.