GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Glosas a Brève apologie pour un moment catholique
– Catholique et français –
(pp. 15-47)
(Cont.)
[Primeiro texto: aqui.]
Tiago Azevedo Ramalho
– 10. Crise e decadência. – A crise em âmbito eclesial não deve, portanto, ser interpretada apenas como a resposta a uma conjuntura especialmente indesejada, mas como um sinal de vigor: por crise, bem entendida, deve tomar-se o discernimento (de verbo krinein, de onde krisis) da distância entre a vivência efectiva da Igreja e daquilo que se encontra chamada a ser, reconhecimento que a coloca em caminho de conversão. A inquietude da crise, o empenho em determinar precisamente as suas causas, é, portanto, um sinal de especial vitalidade. Desde estas ponderações se compreende a afirmação provocatória de Marion: pode dar-se o caso de a Igreja ser a única entidade que não se encontra «em crise» (p. 34)
A afirmação compreende-se no contraste com a situação geral das sociedades contemporâneas:
«Mas o verdadeiro e mais inquietante fenómeno encontra-se noutro lugar: quando a crise se torna um estado, e um estado que se estende à maioria dos corpos sociais, como é o hoje o caso desde aquilo a que chamámos “primeiro choque petrolífero” de 1974 e o fim dos “Trinta Gloriosos”; quando, de década em década, não se trata de mais nada do que de “gerir a crise”; quando a crise se torna o único objecto de uma gestão e não mais a ocasião de uma decisão; quando o poder político revela a sua impotência e a sua inutilidade, porque, desapossado de todo o poder e constrangido por todas as partes, não pode senão repetir que “não há nenhuma outra escolha”, que não há senão uma política possível; em suma, quando o poder político aparece como uma impostura impotente e não pode senão repreender o povo fazendo-o pagar o preço, cada vez maior, da sua falência, então já não se trata de uma crise, mas de uma decadência.» (p. 32)
Diferença capital, pois, entre crise em que há o ímpeto de transformação e a pura e simples decadência, em que os braços se baixam mesmo perante o declínio da prática da vida em comum, num indiferentismo generalizado (para o que, aliás, o discurso religioso tem um nome: acédia).
De facto, não é «em crise» que se encontra, nem a Igreja, nem a sociedade europeia contemporânea. A Igreja não está «em crise», mas em crise, de modo autêntico e sem aspas, em movimento de discernimento sobre como se reconfigurar. Já a sociedade europeia não está «em crise», mas em longo processo de decadência.
(Continua.)
Imagem de Marco Schroeder por Pixabay