Sáb. Fev 21st, 2026
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Catholique et français –

(pp. 15-47)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

– 9. Cont. A medida de uma societas perfecta. – A Igreja, em suma, como societas perfecta. Sociedade perfeita, não pela impecabilidade dos seus membros, que a não há, mas pela conversão que, qual «empresa de branqueamento de crápulas», promove e realiza (p. 29). Societas perfecta, não em jeito de pretensão e qualidade jurídica, mas apenas se, e na medida, em que actue como «corpo vivo de Cristo» (p. 30).

Os críticos contemporâneos à Igreja deixam-se mover, segundo Marion, não pela denúncia do que aquela, na sua vivência, tem de reprovável (e tem), mas pelo que nela há de justificado:

«No fundo, não se trata de censuras sobre a sua história passada, mas do facto de que, mesmo que pareça estar silenciosa, a Igreja reprova os seus costumes ou as decisões que perturbam ou mesmo interdizem a escuta do Evangelho e o acesso à vida do Espírito» (p. 30).

A censura à Igreja encontraria o seu fundamento, pois, na sua recusa firme em aceder à exigência, que recorrentemente se lhe faz, de se «adaptar aos tempos» (p. 30).

Com efeito, outro é o movimento que pretende realizar. Não o de sintonizar o seu passo com cada tempo, mas o de sintonizar um qualquer tempo com aquilo que lhe tem a transmitir:

«A Igreja não pode mudar nada daquilo que a torna possível, salvo se se dissolver ou morrer de pé (ou antes morrer sem o pé da cepa que a nutre) (João 15, 4). A única coisa que ela pode e deve mudar é a si própria, para permanecer e tornar-se, em cada época e em cada lugar, o mesmo e único acesso a Cristo. Por uma vez, Claudel está errado: aqui, é necessário que tudo mude para que, com efeito, tudo permaneça o mesmo. A Igreja não pode mudar a face do mundo a não ser permanecendo ela própria. Mas ela não pode permanecer ela própria a não ser transformando-se (deixando-se transformar) de geração em geração à medida do apelo que não deixa de receber» (p. 31).

Há algum exagero naquelas primeiras palavras de Marion? Há, de novo. Mas, uma vez mais, esse exagero é apenas um primeiro passo para deixar refulgir com a máxima lucidez a clareza do juízo. Há, é evidente e deve reconhecer-se, uma crítica justíssima e legítima à acção da Igreja e dos seus membros, quando e na medida em que ajam indevidamente; os respectivos erros não podem ser senão confessados e reconhecidos. Mas – assim parece dizer Marion – esse não é o ponto, e quem por ele se fique não chega a pressentir os abismos de uma recusa que tem causas mais profundas, inconfessadas, porventura nunca examinadas. Basta perguntar: crê-se porventura que uma Igreja, se impecável fosse, estaria subtraída a toda a crítica? Por que razão, nesse caso, foi entregue a cabeça de João Baptista? E porquê o destino do seu fundador? Se «o discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima do senhor» (Mateus 10, 24), então é bem de crer que um certo tipo de fidelidade radical à sua missão não a poupa a ver-se exposta à maior das animosidades.

(Continua.)


Imagem de PublicDomainPictures por Pixabay