Ter. Fev 10th, 2026
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O fracasso de Babel

Paolo Benanti, O fracasso de Babel, Paulinas, 288 páginas

Steve Jobs, o fundador da Apple, não permitia que as suas filhas usassem iPhones e iPads, e Tim Cook, o seu sucessor, proibiu os netos de usarem redes sociais. Bill Gates, fundador da Microsoft, só deu um telemóvel aos filhos aos 14 anos e impôs regras como “o toque de recolher digital”. Evan Williams, cofundador do Twitter, prefere comprar livros para os filhos a dar-lhes dispositivos tecnológicos. A lista de fundadores de empresas que dominam a Internet mas não a querem para os seus filhos é enorme. E Paolo Benanti explica porque reagem assim: “As principais razões pelas quais esses líderes de tecnologia proibiram ou limitaram o uso de smartphones e outras plataformas aos seus filhos estão relacionadas com a prevenção do vício e controlo da exposição a centeúdo nocivo, mas, nas verdade, sugerem um impacto significativamente melhor, na saúde dos seus filhos, de propostas de atividades alternativas às digitais, e a necessidade, diante dos desafios da sociedade tecnológica, de formas de educação personalizada” (pág. 125-6). Este é apenas um exemplo de como o sonho de Babel – o pensarmos que a Internet “parecia ser o espaço democrático por excelência”, algo que “nos tornaria mais livres, mais informados e mais próximos” – se transformou em “fracasso de Babel”, ou seja, uma “realidade de vigilância”, onde o debate público é capturado por algoritmos opacos, onde as pessoas acabam isoladas em bolhas, os factos são reduzidos a “narrativas” e a presença digital é transformada em dados a explorar comercialmente.

Paolo Benanti, frade franciscano, professor na Universidade Gregoriana e conselheiro quer do Papa quer do governo italiano para as novas tecnologias e a inteligência artificial, conduz-nos neste livro pelos bastidores da grande desilusão em que se transformou a Internet nas últimas duas décadas. Mas há caminhos a abrir “para que as novas tecnologias permanecem ao serviço da nossa humanidade comum”.


O telemóvel “comeu” o mundo e que vai continuar a “comê-lo”

Paolo Benanti, o autor o livro referido nesta página, esteve em Braga no dia 26 de janeiro para falar ao clero e aos serviços da arquidiocese. Da notícia no site da diocese bracarense (www.diocese-braga.pt) retiramos os seguintes parágrafos..

«Ao dirigir-se à plateia, o padre Paolo Benanti começou por lembrar que não há apenas uma IA (inteligência artificial) mas uma família de tecnologias, que vão sendo usadas, conforme as necessidades de cada utilizador. Por outro lado, frisou que, por enquanto, nem ele nem ninguém, tem respostas definitivas. Aliás, há mais perguntas do que respostas. Respostas essas que vão ter que ser construídas por todos.

Mas uma coisa é certa. «Não há almoços grátis». Ou seja, a google, a IA e os algoritmos fornecem os serviços, «resolvem-nos os atritos», mas não o faz de forma gratuita. Estes serviços são pagos pelos dados que fornecemos ou pelas «pegadas» que deixamos quando pesquisamos ou quando requisitamos um serviço. E deu o exemplo de serviços da Cáritas ou de ou um Centro Social Paroquial, quando faz uma entrega. Ao usar o GPS, que é uma inteligência artificial, está a dar pistas sobre a pobreza no local e sobre os beneficiários.  Ou seja, aquilo que seria um benefício, pode tornar-se num prejuízo, uma injustiça social para com os mais frágeis.

O sacerdote franciscano fez saber que o bispo de uma diocese dos Estados Unidos dispensou os fiéis da obrigação da missa, para não serem apanhados pelos Serviços de Imigração. Ainda assim, o especialista deixou claro que, à semelhança de outras tecnologias que mudaram o mundo, a IA veio para ficar e a Igreja tem é que saber adaptar-se e tirar proveito dela para ajudar na evangelização. Acredita que padres podem e devem ser “influencers”, precisamente para melhor saberem orientar os jovens na ação pastoral. Até porque, um dos perigos das redes sociais e dos algoritmos é que capacidade de dar uma resposta específica a cada um, prendendo a atenção sobretudo dos mais novos. O telemóvel foi apresentado como o objeto que “comeu” o mundo e que vai continuar a “comê-lo”.»