Luís Manuel Pereira da Silva*

Conheci o professor Walter Osswald (para mim, permaneceria, para sempre, como ‘Professor Walter’) em finais da década de 90. Era eu, nessa altura, animador de grupo de jovens da Acção Católica Rural, na paróquia de Pessegueiro do Vouga e um ainda ‘aprendiz de professor’ de EMRC. Preparámos um ciclo de reflexão dedicado ao tema ‘eutanásia’ (então, ainda pouco falada, mas que já sentíamos no ar o seu sedutor odor…), envolvendo cinema e inquéritos à população. Entusiasmou-nos (e surpreendeu-nos, confesso!), na altura, a facilidade com que chegámos ao ‘gigante’ professor Walter. Eu não imaginava, então, que a bioética viria a fazer parte da minha vida, como veio a minha história pessoal a mostrar-me.

Admirei, na ocasião, a precisão dos conceitos que o nosso genial professor transformava em ideias simples, com um fino toque de humor germânico. Era sempre desconcertante o modo gentil com que falava connosco e como, entre graças, fazia passar ideias que deixavam a pensar.

Poucos anos depois, vim a reencontrar o professor Walter, no Mestrado de Bioética, altura em que, entre o fino pensamento, recordou como emergia, naquela altura, o conceito de ‘direitos dos animais’, que o professor considerava ser uma abordagem imprecisa: ser portador de direitos exigia condição de sujeito moral, insuscetível de se verificar no caso em apreço. Não mais abandonei essa ‘descoberta’, na linha de tantas outras que a precisão germânica do ‘modus cogitandi’ do professor Walter nos proporcionava. Se a tivéssemos ouvido, muitas das confusões atuais teriam sido evitadas. Mas a luminosidade de um olhar penetrante pode ofuscar olhos menos atentos que se fecham por importuná-los a luz…

O professor Walter veio a ser, por essa ocasião, o presidente do Júri da minha apresentação de tese de Mestrado, preciso e acutilante, como sempre se me apresentara. Compunha a mesa, para além do Professor Walter, o dr. Jorge Biscaia (de saudosa memória) e o meu orientador e grande mestre, professor João Duque. Quando editei, anos mais tarde, esta tese, em modo de edição para o grande público, contei com prefácio do Professor Walter e posfácio do Professor João Duque; o dr. Jorge Biscaia falecera, entretanto (em 2014).

Encontrámo-nos em muitas outras ocasiões: como autor, a meu convite, na coluna ‘Pensar a Vida’ que era coordenada pela ADAV-Aveiro, publicada no jornal diocesano, Correio do Vouga; em 2010, no primeiro ciclo de ‘Cinema Vida’, promovido pelo ISCRA, cuja direção eu integrava com a Irmã Rosa Maria e o Pe. Dr. Querubim Silva; participaram, ainda, nesse ciclo, o saudoso Pe. João Gonçalves (o ‘Padre das Prisões’) e o atual presidente do Tribunal Constitucional, Doutor João Loureiro; em 2015, numa publicação comemorativa dos 15 anos da ADAV-Aveiro, ‘A vida conta… Branco no preto…’, em que publicou o conto ‘a esmola’; em 2017, numa tertúlia promovida pela Comissão Diocesana da Cultura, evocando os 10 anos do referendo ao aborto, e em muitos outros momentos em que a Bioética personalista era chamada a tomar posição.

Tenho, por isso, uma enorme dívida de gratidão para com o gigante pensador e cultor da melhor bioética, professor Walter Osswald. Confidenciei-lhe, num dos momentos em que veio a Aveiro, que a ele e ao professor Daniel Serrão eu devia a minha dedicação à causa da Vida e da bioética, rendido que fiquei, desde a primeira hora, à pronta disponibilidade com que, há vinte e cinco anos, acolheram os meus convites para virem aos lugares mais recônditos deste nosso país. Ainda hoje lembro a surpresa com que recebemos (eu, animador, e os membros do grupo de jovens) a resposta positiva ao nosso convite para ir à nossa paróquia serrana. Esse foi o início de um caminho que prosseguiu, pelo tempo.

Bem o sabemos, hoje. Somos, como lembrou Bernardo de Chartres e replicou Isaac Newton, ‘anões aos ombros de gigantes’. É daí que vemos mais longe.

E, quando eles partem, vimos o vértice da montanha onde podemos repousar os pés para nos agigantarmos, na sua ausência.

A bioética vive, atualmente, uma crise. O utilitarismo, o libertarismo, o animalismo, etc. estão a colocar em risco a própria humanidade. Reduzidos ao critério da utilidade, sumidos numa liberdade identificada com vontade indeterminada, submersos num lodo que pretende extinguir o reconhecimento da singular dignidade, o humano corre o risco de se fazer eclodir a si mesmo.

Vozes como a do professor Walter precisam de continuar a ecoar e a encontrar novos arautos que recuperem a verdade que não se aprisiona nem se apaga.

Um legado que aos personalistas e humanistas cristãos (ou de todos os ‘homens e mulheres de boa vontade’) deve exigir o unir de esforços pelo bem maior que está em causa. Não como quem combate contra alguém (não era o registo do professor Walter), mas como quem enfrenta ideias erradas. Distinção que sempre nele encontrei: um é o erro; outro, bem distinto, o que o comete. Não combateu contra pessoas; combateu contra erróneas ideias.

E, nestes tempos em que se amalgamam as ideias e as pessoas, esta herança é mais necessária do que nunca.

Obrigado, Professor Walter…

…por todos os mais frágeis que as suas ideias protegeram da força dos fortes.


Foto: Ilustração (de Francisco Cunha) e início do conto ‘a esmola’, da autoria do Professor Walter Osswald, no livro ‘A vida conta… Branco no preto’, uma edição da Tempo Novo Editora, coordenada pela Adav (por ocasião dos 15 anos da Associação de Defesa e Apoio da Vida | Aveiro)