Ter. Fev 10th, 2026
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Mateus

O Evangelho de São Mateus é o mais lido no presente ano litúrgico, Ano A. Ainda no contexto do Domingo da Palavra, que este ano foi a 25 de janeiro, deixamos aqui alguma ideias para entender melhor o evangelista do ano.

Segunda e última parte. J.P.F.

 

Nova lei, novo Pentateuco

Todos os evangelhos querem mostrar que Jesus é o Salvador. Felizmente, não temos apenas um evangelho, mas quatro, que nos mostram ora os mesmos aspetos de Jesus e da sua Boa Nova, ora aspetos diferentes. E nem sempre conciliáveis (o que, bem vistas as coisas, é uma mensagem muito estimulante sobre a pluralidade, desde o início). Mateus diz-nos que Jesus é a realização das escrituras, principalmente o novo Moisés. Moisés, para os judeus, era (e é) a figura mais importante, o primeiro e maior profeta, o legislador, o líder que guiou na libertação da escravidão do Egito, que deu os Dez Mandamentos, que escreveu os cinco livros da Lei (o nosso Pentateuco), que estabeleceu a Aliança de Israel com Deus. Mateus mostra que a nova Aliança é feita no sangue de Jesus e, antes disso, que o próprio Jesus deixou cinco livros-discursos da nova Lei.

Os cinco discursos de Jesus

Mateus estrutura o seu evangelho em seis partes narrativas e cinco “discursos” de Jesus pelo meio. Os cinco “discursos” (sigo a terminologia e divisão da recente edição de “Os Quatro Evangelhos e os Salmos”, da Conferência Episcopal Portuguesa – CEP) são:

– Discurso da Montanha (5,1-7,29)

– Discurso Missionário (10,1-42)

– Discurso das Parábolas do Reino (13,1-52)

– Discurso Eclesial (18,1-35)

– Discurso Escatológico (24,1-25,46)

Porque Jesus é o novo Moisés, afirma praticamente no início dos discursos: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os profetas. Não vim abolir, mas cumprir” (Mt 5,17). E os discursos de Jesus terminam com a mesma fórmula que os livros de Moisés. Mateus escreve, depois do último discurso: “…quando Jesus acabou de dizer todas estas palavras…” (Mt 26,1 – segue-se a narrativa da Paixão), que lembra a conclusão do último livro de Moisés: “Quando Moisés acabou de escrever todas as palavras desta Lei…” (Dt 31,24).

O primeiro ensinamento de Jesus

“Felizes os pobres no espírito porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3) – primeira Bem-aventurança, conforme a tradução da CEP. Outras traduções têm “pobres em espírito” (Difusora Bíblia) e “pobres de espírito” (João Ferreira de Almeida e António Pereira de Figueiredo), o que muitas confusões tem gerado. É importante saber o que realmente Jesus quer dizer porque as Bem-Aventuranças são a “proposta de felicidade, central em toda a Bíblia” (CEP) e, segundo alguns exegetas, as restantes Bem-aventuranças e toda a Boa-Nova de Jesus são consequência deste que é o primeiro ensinamento de Jesus. Uma nota da tradução da CEP refere que “os pobres aqui (…) são aqueles cujo espírito está livre e disponível para acolher o Senhor”. Não são, necessariamente, os pobres de dinheiro e muito menos os destituídos de inteligência. São os disponíveis. Os que estão abertos a embarcar num caminho sem retorno com Jesus. Frederico Lourenço traduz por “Bem-aventurados os mendigos pelo espírito…” e explica porquê. Em grego está “pelo espírito”, “toi pneumatoi”. “O caso em que se encontra «pelo espírito» é o dativo (exprimindo a ideia de mendigos “por ação do espírito”) (…) O sentido é «bem-aventurados os que são levados pelo espírito a serem mendigos». Esta mendicância, que o Jesus de Mateus considera bem-aventurada, é de natureza espiritual. Os pedintes a quem se promete aqui o reino dos céus são aqueles cuja mendicância interior radica num sentimento íntimo de carência: são aqueles que anseiam por receber justamente as palavras como aquelas que Jesus profere nos Capítulos 5, 6 e 7 de Mateus” (in “Os quatro evangelhos”, tradução e notas de Frederico Lourenço, ed. Quetzal, pág. 510). O contrário de pobre pelo espírito é a pessoa fechada, autossuficiente, dura, incapaz (sabe-se lá por que razão) de ouvir as propostas de Jesus.

O que só Mateus tem

Cada um dos quatro evangelhos tem a sua especificidade. O de João é o mais diferente, enquanto os outros três são sinóticos, mais comparáveis, mas mesmo assim com amplas diferenças. Mateus, sem sermos exaustivos, é o único que conta com as seguintes passagens: genealogia descendente (de Abraão a Jesus), adoração dos magos, fuga para o Egito, massacres dos inocentes, sermão da montanha (com 8 ou 9 bem-aventuranças em vez das 4 de Lucas), parábolas como a do trigo e do joio, a da rede, a das dez virgens, a dos dois filhos, a do devedor impiedoso e a dos trabalhadores da vinha. Mateus dedica muito mais espaço a criticar escribas e fariseus (cap. 23), é o único evangelista que refere o perdão 70X7, Pedro a caminhar sobre as águas, os critérios juízo definitivo (25,31-46), Pilatos a lavar as mãos, o sonho da mulher de Pilatos, o enforcamento de Judas, os guardas subornados para dizerem que o corpo de Jesus foi roubado…

Notas financeiras para ler uma passagem exclusiva de Mateus

No discurso eclesial, Jesus conta uma história (Mt 18,21-35) para explicar a Pedro que o perdão, entre cristãos (“irmão”), tem de ser setenta vezes sete, ou seja, sempre. Inserida no discurso eclesial, a parábola parece querer dizer-nos que na Igreja (na comunidade cristã) o perdão é a qualidade fundamental. Jesus conta o caso do rei que tem um servo que lhe deve 10.000 talentos e é perdoado. Por sua vez, o servo não perdoa 100 denários a um companheiro. A diferença de quantias é abissal e aí reside o poder da história contada por Jesus. Um talento correspondia a entre 30 e 60 quilos de prata (as medidas variam consoante a geografia e a época). Dez mil talentos seriam, no mínimo, 300.000 quilos de prata. Segundo outras comparações, um talento é igual 6.000 denários. Ou seja, o servo devia ao rei 60 milhões de denários (talvez fosse o cobrador de impostos de todo um país). E é perdoado, quando apenas lhe pede um adiamento do prazo. Mas não perdoa a quem lhe deve 100 denários (ou seja, 100 dias de trabalho; algo como 600 gramas de prata). Talvez a primeira dívida fosse incobrável, enquanto a segunda não é – diríamos hoje. “Deus deu-lhe, pelo Evangelho, pela atribuição do perdão, uma sentença de graça, que supera toda a compreensão. Será que você não deveria perdoar também os seus irmãos a sua culpa que não passa de uma bagatela? O dom de Deus obriga”, explica Joachim Jeremias em “As parábolas de Jesus” (ed Paulinas, São Paulo, 1980). O perdão de Deus é infinito porque a dívida humana é impagável. Mas por isso mesmo é inaceitável a falta de misericórdia, a insensibilidade, de quem foi perdoado.

Mateus, o traidor que recolhia impostos entre judeus para entregar a romanos, que percebia de dívidas, talentos e denários, o publicano chamado por Jesus (“miserando atque eligendo” – “olhando-o com misericórdia e escolhendo-o” era o lema do Papa de Francisco, a partir do chamamento de Mateus), sabe pela sua própria vida que a misericórdia recebida deve-se transformar em misericórdia oferecida. E para isso deixou-nos um evangelho.


Por Rembrandt [1606-1669]