Sex. Mar 27th, 2026

Aveirenses notáveis

Fernando Manuel Homem Cristo, o quase desconhecido filho de Homem Cristo

Cardoso Ferreira (textos)

Parceria com o Correio do Vouga

 

Ainda que tenha desempenhado cargos políticos de relevo no período inicial do Estado Novo, Fernando Manuel Homem Cristo distinguiu-se como cantor, sobretudo como barítono e fadista. Faleceu em Lisboa, na freguesia de Santa Isabel, no dia 5 de setembro de 1998.

Nascido na cidade de Viseu, no dia 24 de maio de 1900, Fernando Manuel Homem Cristo, filho do jornalista aveirense Francisco Manuel Homem Cristo e de Laura Amélia Franco da Silva Cristo, nunca teve a projeção mediática do pai e do seu irmão Francisco Manuel Homem Cristo (Filho), ainda que, tal como eles, tenha sido formado em Direito e também tenha desempenhado cargos políticos e exercido funções relacionadas com a comunicação social.

Este ilustre, mas quase desconhecido aveirense, nasceu em Viseu. No ano de 1894 o seu pai tinha sido promovido a capitão, sendo então colocado no Regimento de Infantaria n.º 14, em Viseu, cidade onde ainda permanecia no ano de 1900, quando nasceu Fernando Manuel.

No ano letivo 1908/1909, Fernando Manuel Homem Cristo esteve matriculado no Colégio Aveirense, tendo então terminado o 1.º grau com distinção. Alguns anos mais tarde, o seu nome surge como um dos alunos que, no ano letivo 1913-1914, frequentava a quarta classe do Liceu Nacional de Aveiro, onde tinha como colega de turma João Carlos Celestino Gomes, o ilhavense que se distinguiu como médico, artista plástico, escritor e jornalista.

Aluno de Salazar

No ano letivo 1917/1918, Fernando Manuel Homem Cristo estava matriculado na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, frequentando então o primeiro ano, faculdade onde anteriormente se licenciaram o seu progenitor e o seu irmão.

Para além das cadeiras inerentes ao quarto ano do curso de Direito, no ano letivo 1920/1921 frequentava em simultâneo as cadeiras de Geografia Política e Económica, Filologia Clássica e Literatura Portuguesa.

No ano letivo seguinte, completou o quinto ano de Direito.

Um dos seus professores no curso de Direito foi António de Oliveira Salazar que, poucos anos volvidos, ascendeu a Presidente do Conselho (primeiro-ministro).

Foi precisamente na Faculdade de Direito da Universidade Coimbra que Fernando Manuel Homem Cristo se começou a distinguir na área musical, tendo sido condiscípulo do cantor José Dias.

Pouco antes da revolução de 28 de maio de 1926, que deu origem ao Estado Novo, Fernando Manuel Homem Cristo fundou, em Aveiro, as “Legiões Brancas Portuguesas”, uma organização anticomunista criada em oposição à “Legião Vermelha”. Mais tarde, esteve ligado à fundação da Legião Portuguesa.

A sua estadia em Aveiro foi curta, uma vez que, com o início do Estado Novo, fixou residência em Lisboa, quando ingressou, como assistente, nos Serviços de Ação Social do Instituto Nacional do Trabalho e da Previdência Social.

Intensa ação política no período inicial do Estado Novo

No início da década de 1930, foi criada a Emissora Nacional (EN), estação radiofónica que preenchia as suas emissões com músicas ao vivo executadas pelas orquestras privadas da emissora, palestras, noticiários e programas infantis, sob uma apertada vigilância política delineada por António Ferro, Henrique Galvão e Fernando Manuel Homem Cristo, todos eles ligados à União Nacional.

Entre finais de 1934 e a primavera do ano seguinte, Fernando Manuel Homem Cristo desempenhou o cargo de diretor da Secção Política da Emissora Nacional de Radiodifusão, tendo sido indicado pessoalmente por Salazar, defendendo que parte da programação da EN deveria ser preenchida com propaganda do Estado Novo e com conteúdos ideológicos, tendo então escrito que “a criação do novo serviço Político obedece ao pensamento de que, num Estado autoritário, um posto Nacional de radiodifusão deve ser um meio de cultura e um instrumento de ação política, e de que esta segunda finalidade não é menos importante que a primeira”.

Na EN, Fernando Manuel Homem Cristo criou laços de amizade com o então locutor Fernando Pessa, nascido em Aveiro, um homem da sua confiança política.

Apesar das resistências institucionais à sua presença na EN, Fernando Manuel Homem Cristo propôs a criação de quatro departamentos que considerava fundamentais: Serviço Técnico, Serviço Político, Serviço Artístico-Cultural e Serviço Administrativo”, as quais não se efetivaram.

Em 25 de maio de 1935, Fernando Manuel Homem Cristo escreveu uma carta a Couto dos Santos, o então homem forte daquela estação de rádio, em que dizia: “Vim para aqui mandado por V. Excia., por delegação de sua Excelência o Ministro e com a aprovação de Sua Excelência o Senhor Presidente do Conselho, como pessoa de confiança do Governo, especificamente para fazer a propaganda das novas instituições e fiscalizar a ortodoxia das pessoas e das palavras”.

No dia 30 de setembro de 1936 foi institucionalizada a Legião Portuguesa, que concretizou as ideias propostas no “comício anticomunista” ocorrido em 28 de agosto de 1936, no qual um dos oradores foi Fernando Homem Cristo, em representação do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência.

Mais tarde, Fernando Manuel Homem Cristo foi um colunista habitual do semanário nacionalista “Acção”, fundado em maio de 1936 e que tinha como subtítulo “Semanário Português para Portugueses”.

Em 31 de dezembro de 1951, Fernando Manuel Homem Cristo surge na relação dos advogados inscritos na Ordem dos Advogados, residindo na Avenida Marquês de Tomar, em Lisboa, ano em que os seus parentes António e David Cristo aparecem como residentes em Aveiro.

Correspondência em arquivos nacionais

O Arquivo de Oliveira Salazar, que se encontra depositado no Arquivo Nacional Torre do Tombo inclui alguma correspondência de Fernando Manuel Homem Cristo dirigida a António de Oliveira Salazar. Também na Fundação António Quadros, onde está depositado o Fundo António Ferro / Fernanda de Castro, se encontram três cartas de Fernando Manuel Homem Cristo, duas delas dirigidas a António Ferro, e outra a Fernanda de Castro.

Fadista cujos discos são hoje raridades

No catálogo da editora discográfica “Polydor” referente ao período de 1929/1930 surgem quatro registos fonográficos cantados pelo barítono Manuel Homem Cristo, como então assinava as suas intervenções musicais.

Mesmo sendo considerado um barítono, Fernando Manuel Homem Cristo gravou em 1929 para a etiqueta Polydor pelo menos quatro fados, não sendo conhecidos os músicos que o acompanharam à guitarra e à viola.

Esses quatro discos, que hoje são raridades, são:

– “Fado de Coimbra” (“Tricaninhas de Coimbra”), com música de Miguel Augusto Peres de Vasconcellos e letra de António Estevão;

– “Fado Dias de Souza” (“Porque andas de mal comigo”), com música de Dias de Souza, sendo a letra baseada em quadras populares;

– “Fado Maria” ou “Fado Manassés”, quadras populares com música de Reynaldo Varella;

– “Fado Solitário” (“Vento não batas à porta”), com música de Alexandre Augusto de Rezende Mendes. A primeira quadra é de Júlio Brandão e a segunda é uma quadra popular.

Os quatro discos devem ter sido gravados por volta de 1929, em Lisboa.