Qua. Mar 25th, 2026
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Catholique et français –

(pp. 15-47)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

 

– 12. Dois exemplos. A divisa da República. Pode então o primeiro capítulo avançar para a sua parte conclusiva. Destina-se ela a ilustrar a tipologia de serviço que os cristãos podem oferecer às sociedades contemporâneas. Justamente a oportunidade de, à hora de hoje, tal serviço assumir especial relevo, mostra a presença de um kairótico moment catholique. É a propósito de dois símbolos maiores da República, a sua divisa e o regime da laïcité, que Marion procura mostrar de que modo os católicos podem contribuir para a vivificação daquele regime.

Comecemos pela divisa da República: liberté, egalité, fraternité. A tese sustentada por Marion: ainda que se pretenda que aquela divisa seja própria de uma ordem política secular, apenas pode ser plenamente vivida e experimentada na medida em que seja nutrida por uma prática cristã.

Transcrevem-se, de seguida, algumas das mais belas páginas deste livro:

«Consideremos a divisa da República, “liberdade, igualdade, fraternidade”. É possível conceber que a República possa assegurar à sociedade francesa a liberdade; sem dúvida com limites, aqueles que são impostos pela garantia da segurança e da ordem pública, e também aqueles que o autoritarismo espontâneo do Estado impõe; sem dúvida também que se tratará sempre mais de liberdades do que da liberdade, e que as liberdades tão desmultiplicadas como formais, e até eventualmente contraditórias entre elas. Mas admitamos que a República possa cumprir ao menos parcialmente a primeira parte da divisa.

Podemos admitir também que a República possa promover na sociedade francesa a igualdade, ainda que não sem evidentes dificuldades. Se se trata da igualdade economicamente real, tal promoção, além de, sem dúvida, produzir inevitavelmente um empobrecimento económico global, não poderá operar senão pela coacção, até ao ponto de arriscar contradizer a instauração da liberdade. Se não se trata de igualdade formal, parecerá antes uma igualdade abstracta, mesmo ilusória, exasperando o sentimento de desigualdade. Mas admitamos ainda que a República consegue, mesmo que tangencialmente, a impor uma certa igualdade na sociedade francesa.

Resta a fraternidade. Como é que o Estado, mesmo e sobretudo sob a figura da República, que não reconhece o menor dos deuses (nem, claro, o seu representante terrestre, o rei), pode pretender garanti-la? Para nos tornarmos irmãos, é necessário provir de um pai, de um pai comum que precede universalmente a cada filho. A vontade comum, porque resulta da maioria, não o pode garantir. A vontade geral, se alguma vez se pudesse produzir, deveria, ela, preceder a reunião da comunidade nacional, e impor-se como que do exterior; ora, este milagre político não se realiza nunca ou quase nunca, na melhor das hipóteses por curtos momentos históricos. A pátria não pode, na melhor das hipóteses, aparecer senão como uma matria, por vezes uma simples madrasta, mas sempre, segundo a expressão do direito romano, uma mãe certa que admite pais incertos. Como podemos nós ter a força de considerar sem excepção todos os nossos concidadãos (sem mesmo mencionar todos os homens imigrados de outras nações) como nossos irmãos, se nenhum pai radicalmente comum no-lo permite? Como podemos nós não ceder à proscrição dos nossos inimigos interiores, reais ou supostos, editar uma lei de suspeitos, em suma, purificar o corpo social dos seus traidores confessos ou potenciais? Além do mais, não exercemos nós o Terror desde que promulgámos a fraternidade? Não a concebemos desde logo para excluir os falsos irmãos? Para que uma fraternidade incoactiva mas verdadeira se nos torne praticável, é preciso não menos do que uma paternidade radical, incondicionada e imprescritível, “diante do Pai, a partir do qual toda a paternidade nos céus e sobre a terra tira o seu nome” (Efésios 3, 14-15). O único Pai concebível que pode assegurar uma fraternidade justa e real, porque assegura a união na comunidade, encontra-se nos céus: é somente assim que pode vir sobre a terra. Isto evidentemente que a República não pode incluir, nem na sua divisa, nem na sua constituição. Mas os católicos podem, eles próprios, testemunhar esta paternidade numa sociedade de órfãos.»

É a vivência católica que, pois, testemunha e é sinal de transparência do sentido de fraternidade pretendido politicamente pela República – fazendo-o sem coacção, mas na liberdade fraterna daqueles que se reconhecem como iguais. Mesmo que esta se conserve sob um regime de laïcité. Passemos agora a esta segunda característica.

(Continua.)


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