Dom. Fev 1st, 2026
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Catholique et français –

(pp. 15-47)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

 

– 6. «Católico e francês». Plano do capítulo.O primeiro dos três capítulos que constituem o núcleo desta Brève apologie tem por título «católico e francês» e corresponde a uma conferência de rentrée da Académie catholique de France pronunciada no Collège des Bernardins, notável instituição eclesial francesa. O capítulo tem por objecto a presença católica no espaço público e, de modo especial, o que a Igreja pode prestar à República contemporânea. O texto segue lógica triádica: da (i) descrição da situação da Igreja, transita para o (ii) diagnóstico da condição da comunidade política, culminando (iii) na identificação do que aquela, a Igreja, pode a esta, à comunidade política, prestar.

 

– 7. O reconhecimento lúcido de uma presença.No princípio de tudo, importa precisar qual a condição actual do catolicismo (p. 15). De modo decerto surpreendente, Marion traça um retrato muito positivo:

«Podemos então sustentar, contra a vulgata da imprensa e dos especialistas, que globalmente, para os católicos, tudo corre muito bem. Hoje, com efeito, não temos a reconhecer senão um só papa (perfeitamente respeitável e respeitado), não confessamos senão um só Credo (e pouco a pouco entendemo-lo no mesmo sentido), os nossos bispos (de qualidade tão variável como a nossa) são bem nomeados por Roma e, oficialmente pelo menos, poucos cismas declarados nos dividem. Ao que acresce que fruímos quase inteiramente de paz civil, com um nível conveniente de liberdade religiosa, temperada por algumas oportunidades de martírio (o que nos pode assustar, mas que não nos deverá perturbar, bem pelo contrário).

Certo, resta um ponto muito negativo, em França pelo menos (e na Europa ocidental): a baixa regular do número de padres, confirmada pela de baptizados e de praticantes. (…)» (pp. 16-17)

O retrato é provocatoriamente optimista (parecendo subestimar a relevância da notável redução da prática sacramental e o valor de certas formas de um «cristianismo cultural» que, apesar de tudo, fermentava prática social: a atrevida biopolítica contemporânea mostra bem os efeitos dessa oclusão). Mas é inegável o acerto do reconhecimento dos aspectos positivos que são indicados, bem como a não valorização em excesso de dimensões de «perda» muitas vezes destacadas.

Com efeito, há condições de que a Igreja contemporânea beneficia que são praticamente inéditas do ponto de vista histórico. Marion aponta para o fundamental: a unidade fundamental de fé, sem se suscitarem cisões determinantes de ortodoxia (há, sim, a respeito da orthopraxis), e sob uma estrutura eclesial amplamente reconhecida; e a separação formal e material do poder político, oferecendo à Igreja uma singularíssima posição no mundo contemporâneo, simultaneamente a instituição mais enraizada localmente e mais abrangente em termos globais. Acrescente-se, embora Marion não se lhe refira, a uma notável restauração das relações entre o cristianismo e o judaísmo, talvez inédita neste arco temporal bimilenário, reaprendendo aquele primeiro a pensar este último como uma dimensão central da sua identidade.

Por outro lado, é acertada também a não valorização em excesso dos aparentes sintomas de crise (p. 17). Primeiro, por o discurso triunfalista a respeito de formas históricas da Igreja ignorar, em boa medida, os duros conflitos ou dificuldades por ela enfrentados nos referidos períodos (p. 17). Ora, do ponto de vista da exposição aos poderes de cada momento, como o mostra, desde logo, a conturbada vida da primeira geração eclesial, a condição da Igreja nunca foi fácil. Depois, por grande parte das pertenças perdidas serem meramente nominais (p. 17). Finalmente, por grande parte das razões da pretendida crise terem índole sociológica, e não alcance exclusivamente eclesial: a forte urbanização (com êxodo rural) ao longo do último meio século, com forte recomposição de formas de vida, expõe a vivência da fé cristã a um ambiente que ainda não se encontrava perfeitamente preparado para a sua expressão (p. 18).

Como seja, à data de hoje a Igreja mantém-se como a mais relevante das instituições sociais (p. 18), e isto apesar dos múltiplos discursos a respeito de uma sua irremível «crise». Como o explicar?

(Continua.)


Imagem de JEROME CLARYSSE por Pixabay