Sex. Mar 27th, 2026
Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

Sexta via para Deus

 

O filósofo romeno Emil Cioran, agnóstico, pessimista e cético, tinha alguma esperança em Bach e na sua música. “A música de Bach é o único argumento que prova que a criação do universo não pode ser vista como um grande erro”, escreveu o niilista radicado em França. Lembrei-me de Cioran e da sexta via para Deus (São Tomás de Aquino tinha cinco vias; Bach é a sexta) ao ler a entrevista do músico Mário Laginha no Expresso do último fim de semana. “Como não acredito em Deus, Bach para mim simboliza a eternidade”, disse.

Um dia, conta o músico lisboeta, ao ouvir as “Variações de Goldberg”, comentou a Pedro Burmester, que as interpretava ao piano: “Não acredito em Deus, mas se ele existe, pôs aqui mão”. Ao ouvir música de Bach, Mário Laginha interroga-se sobre “como é possível tanta inspiração, tanto talento”. “Se a ideia de Deus é a de algo que está acima de nós, Bach está acima de nós”. A ideia cristã de Deus não é só “algo” que está acima. Está também abaixo. Antes e depois. E fora e dentro. Mas fica a ideia da excecionalidade de Bach.


Johann Sebastian Bach | Elias Gottlob Haussmann [1695–1774]