Ter. Fev 10th, 2026
Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

300 anos do primeiro tradutor católico da Bíblia

António Jorge Pires Ferreira

O ano chega ao fim e, tanto quanto me apercebi, passou ao lado, em termos nacionais, uma efeméride muito significativa para a cultura e a fé cristã. Completa-se em 2025 o terceiro centenário do nascimento do Padre António Pereira de Figueiredo. Nasceu em Mação (distrito de Santarém), no dia 14 de fevereiro de 1725. E quem foi António Pereira de Figueiredo? Há vários motivos para o recordar, alguns polémicos, mas quero aqui lembrar que foi o tradutor da Bíblia para português. Até aparecer a tradução dos Capuchinhos, em meados do século XX, foi a sua tradução que imperou em Portugal. Durante mais de dois séculos, embora se lesse pouco a Bíblia em Portugal, lia-se na voz de António Pereira de Figueiredo (APF). E muitos hoje continuam a usar a Bíblia de APF, quer evangélicos, em toda a lusofonia, quer católicos, principalmente no Brasil. Se tivéssemos de fazer um Top6 de quem mais influenciou a língua portuguesa, teríamos de incluir APF a par de Camões, Padre António Vieira, Eça ou Camilo. Sobra um lugar – para um outro tradutor da Bíblia.

APF foi recordado na sua terra natal, com uma exposição na Câmara Municipal de Mação, que refere que é “o maior erudito do século XVIII”, “grande vulto da cultura portuguesa”, “fez a primeira tradução integral da Bíblia para a língua portuguesa”. Também o lembrou um artigo no Expresso. Mas este não refere a questão da Bíblia. Fica pelas partes polémicas. E quais são? Basicamente, três. APF era padre oratoriano (por um período tornou-se regular, diríamos hoje diocesano, mas no final da vida regressa aos oratorianos), foi grande apoiante das reformas pombalinas, logo, combateu os Jesuítas. Politicamente, era um regalista, ou seja, apoiava o poder do rei contra o da Santa Sé. Desejava mesmo uma igreja católica nacional, à maneira das igrejas nacionais como a anglicana. E esteve ainda ligado à censura de livros, primeiro na Real Mesa Censória, que foi extinta em 1787, e depois na Real Mesa da Comissão Geral do Exame e Censura dos Livros.

Mas o que nos interessa é o empreendimento da tradução da Bíblia em português. Não foi a primeira. Foi a primeira integral em Portugal. Ou, como diz o biblista Frei Herculano Alves: a primeira Bíblia católica “legalmente traduzida para português”.

Traduzindo a partir da Vulgata (tradução latina de São Jerónimo), AFP levou 18 anos completar a tarefa. O Novo Testamento foi publicado em seis volumes entre 1778 e 1781 e o “Testamento Velho” foi publicado em 17 volumes entre 1782 e 1790. 23 volumes no total, portanto. Em 1819, já depois da morte de APF (1797), foi publicada uma versão em sete volumes. E, quatro anos depois, uma edição em volume único.

 

Bíblias em português antes da de Figueiredo

Antes de APF houve outra tradução da Bíblia para português. Mas não foi publicada em Portugal, nem era católica. João Ferreira Annes d’Almeida (1628-1691) traduziu e publicou o Novo Testamento em Amesterdão (Países Baixos) e parte do Antigo Testamento (morreu antes de completar a tradução) em Tranquebar (Índia) e Batávia (ou seja, Jacarta, Indonésia). Ele era ministro da Igreja Reformada (calvinista) e andou pelo Extremo Oriente. Como da sua Bíblia foram publicados mais de 100 milhões de exemplares, é ele que falta no grupo dos seis que mais influenciaram a língua portuguesa.

E, ainda antes disso, outras traduções parciais terá havido. O catálogo de livros de D. Duarte (1433-1438; avô de Santa Joana) refere na secção “de lingoage”, que era como então se referia a língua portuguesa, títulos como “Evangelhos”, “Atos dos Apóstolos”, “Génesy” e “Livro de Salomom”. E refere ainda uma “Blivia”, que deixou muitos investigadores intrigados. Mais traduções parciais e resumos em português, nos séculos XIV e XV, são referidos no Mosteiro de Alcobaça e na Biblioteca do Bispo de Lamego.

Por último, no século XVI, um grupo de mulheres traduziu a Bíblia para português. Veio na crónica de Henrique Raposo do sábado passado. Já tanto li sobre traduções da Bíblia e nunca tinha dado com este facto. Porquê? Henrique Raposo explica no texto que reproduzimos parcialmente nesta página.