Metamorfoses | Mudanças interiores que transformam a realidade
Miguel Oliveira Panão*
Se o universo caminhasse para a morte térmica, significaria que, em todo lado, a temperatura aproximar-se-ia de um zero absoluto. Seria um mundo que caminha para as coisas fixas, as coisas estáticas. Um mundo que evoluiria para o “estaticismo”. Mas a realidade que vivemos todos os dias não é nada assim. A metamorfose que vemos acontecer pelo mundo é a que somos chamados a experimentar: do Estaticismo ao Dinamismo.
A palavra dinamismo tem as suas raízes etimológicas no grego dynamis, que significa poder ou força. Expressa a experiência de movimento. Na filosofia e ciência da Grécia Antiga, dynamis referia-se à potência inerente ou à capacidade de realizar trabalho. Com o tempo, o termo evoluiu para descrever a qualidade de estar repleto de energia, movimento e abertura a mudanças positivas. Aliás, é o movimento que nos faz experimentar o tempo que não vive de coisas estáticas, mas dinâmicas. Ao contrário do estaticismo, o dinamismo implica um estado vibrante onde a energia e canalizada para a acção, o crescimento e a transformação contínua.
Quando penso na cultura humana, em vez dessa manter a sua evolução a partir do movimento, parece que nos últimos anos temos assistido ao inverso. Não nos movemos porque estamos cada vez mais sentados ou parados, com o olhar fixo, cada vez mais tempo, em ecrãs. O movimento não é feito por nós. O movimento existe no deslizar do dedo pelos murais ou dos vídeos que contemplamos. O dinamismo não está do nosso lado, mas do lado da máquina. Um sério exame de consciência deveria levar-nos a estarmos mais atentos a esta metamorfose.
Quando ando pelas ruas e vejo as pessoas sentadas na mesa a tomar um café, uma boa parte das vezes estão diante do seu ecrã. E se estiverem em websites como o Youtube, o mais certo é que, periodicamente, assistam a anúncios que apelam a fazer exercício, mais ginástica, a mover. Por um lado, optamos pelo estaticismo ao viver do consumo digital. Por outro lado, no meio desse consumo, a máquina apela a que nos movamos. Ou seja, a experiência real que vemos acontecer à nossa volta é um paradoxo entre 1) a metamorfose do dinamismo ao estaticismo, pelo facto de passarmos mais tempo em frente a um ecrã, 2) e o apelo metamórfico proveniente da máquina, através do mesmo ecrã, a passarmos do estaticismo ao dinamismo.
O movimento é a base da evolução da vida. É verdade que existem dois tipos de movimento: o exterior e o interior. O exterior é óbvio porque o fazemos com os nossos corpos. O movimento interior é menos óbvio, mas é aquele que fazemos pelas aventuras das ideias através dos pensamentos. Creio que o estaticismo seja uma ameaça aos dois movimentos. Não só por ficarmos parados em frente de ecrãs, mas também pela realidade de que o consumo digital, essencialmente de entretenimento, nos pode levar a uma certa paragem da mente que consome sem pensar. Mas o desafio desta metamorfose tem uma nova frente: a Inteligência Artificial.
Qualquer tecnologia faz parte da nossa capacidade humana de sermos co-criadores. A tecnologia que nos coloca em movimento aumentou significativamente o nosso dinamismo, apesar de ser sempre necessário algum equilíbrio porque a vida está cheia de ritmos. Quer isso dizer que abrandar é uma forma, também, de manter vivo o dinamismo e evitar a estaticidade. A Inteligência Artificial pode ampliar a nossa capacidade de pensar, ou suprimi-la. Como posso garantir que me mantenho em devir humano, cuja tecnologia amplia o pensar?
O equilíbrio de qualquer reacção química é representada pela relação ⇌ que simboliza a permanente transformação dos reagentes em produtos e dos produtos em reagentes. O dinamismo da mente humana é feito de pensar e contemplar. Quando pensar mergulha no mundo das ideias, quando contempla vem à superfície para respirar, significando isso: sem pensar. A Inteligência Artificial não pensa, e também não contempla, somente reage a um pedido. Não sabe pedir consciente do que pede porque foi programada para responder. Pergunta por cortesia e, assim, mantém-nos ligados à máquina.
Quando deixarmos de saber o que pedir, questionar ou pensar, entrámos na estaticidade que nos fixa no ser-do-momento, em vez de continuarmos no momento-de-devir. Não somos ainda tudo o que poderíamos nos tornar. O futuro da revolução co-criativa que estamos a viver está longe do fim, mas só mantendo vivo o movimento exterior na companhia da natureza e o movimento interior na companhia de um bom livro, poderemos — parece-me — metamorfosear do estaticismo da morte para o dinamismo da vida.
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