Sex. Mar 27th, 2026
Metamorfoses | Mudanças interiores que transformam a realidade

Miguel Oliveira Panão*

 

O universo começa com uma incomensurável quantidade de energia e com as mais simples e fundamentais partículas. Ao evoluir, transformando-se através da novidade emergente das relações. Assim, as partículas fundamentais tornam-se átomos → moléculas → macro-moléculas → compostos orgânicos → células → organismos → comunidades, e neste aumento da complexidade, em nós, seres humanos, manifesta-se a consciência. É esta a Lei da Complexidade-Consciência proposta pelo paleontólogo e jesuíta Pierre Teilhard de Chardin que assinala uma das metamorfoses mais surpreendentes deste universo: de algo complexo ao ser consciente.

Se a evolução continua, um incremento de complexidade na consciência creio implicar uma relação entre consciências. De facto, cada consciência humana é única. E mesmo que o grau de semelhança entre dois gémeos se aproximasse de 100%, a consciência de cada um deles seria completamente diferente. Porém, a consciência tem sido um problema para neurocientistas e filósofos porque todos nós, eles inclusive, sabemos que a temos, mas a razão de a termos permanece aberta, a conhecer e a compreender. A Lei da Complexidade-Consciência de Teilhard sugere que o próprio conceito de complexidade possa iluminar um pouco sobre este mistério metamórfico. O que é, então, a complexidade?

Quando “algo” é muito complicado, depende de muitos factores, e cuja compreensão começa a ficar fora da nossa capacidade de apreensão, dizemos que esse “algo” é complexo. Porém, complicado é diferente de complexo. O que é complicado, como a própria origem da palavra indica, é um emaranhado de coisas que se entrelaçam de tal maneira que se torna quase impossível desemaranhar ou separar. O que é complexo emerge de coisas mais simples que conseguimos identificar, mas cuja relação implica uma abertura a diferentes possibilidades, a um controlo da escolha dessas diferentes possibilidades, de tal modo que do controlo e das várias possibilidades surge algo organizado. Ora, separar os elementos de algo organizado pode significar a falência da estrutura e, talvez por esse motivo as pessoas associem complicado a complexo. Porém, o que é organizado possui um padrão perceptível e, por vezes, a complexidade dá-nos a impressão de beleza, ao contrário do complicado que aparenta desordenado. Poderá a consciência emergir apenas da organização inerente às coisas complexas. Precede a matéria à consciência, de tal modo que o ser precisa primeiro de algo complexo antes de poder ser consciente?

Max Planck, o físico teórico na génese de avanços fundamentais na teoria quântica dizia — «Eu considero a consciência como fundamental, e a matéria um derivado da consciência. Não podemos ir para além da consciência. Tudo o que estamos a dizer, tudo o que consideramos existente, requer uma consciência.» — Eu partilho desta impressão de que a consciência é uma realidade mais fundamental do que a matéria. Não é a matéria que nos permite compreender as coisas, mas a consciência. Caso contrário, não seria possível avançar no conhecimento com o que chamamos de experiências-de-pensamento, através das quais exploramos lógicas que antes seriam inimagináveis, prescindindo de qualquer matéria. A teoria quântica, por exemplo, é uma destas lógicas.

Curiosamente, as pessoas têm uma aversão natural às coisas complexas por serem mais difíceis de compreender. Gostam de ideias simples, explicações simples, porque essas, sim, são compreensíveis. É notável quando um cientista consegue explicar-nos realidades complexas de modo simples, fazendo-nos sentir mais inteligentes, quando a experiência real que fazemos seria mais a de sermos mais conscientes. O que nos aconteceria se tivéssemos mais paciência connosco próprios e nos esforçássemos por não ser não aversos às coisas complexas? Que benefício nos traria essa escolha?

Se o mundo crescente em complexidade levou ao despertar da consciência, todo aquele que trabalha a sua mente para aprender a lidar com as coisas complexas, deveria sentir que passado algum tempo experimenta um incremento da sua consciência. Por exemplo, preparar uma refeição sem seguir uma receita, apenas com os ingredientes disponíveis em casa, pode parecer uma tarefa banal, mas contém em si uma pequena experiência de algo complexo que nos torna mais conscientes.

Ao lidar com escolhas incertas, combinações inesperadas e decisões sucessivas, a mente é convidada a sair do automatismo e a exercer juízo crítico, imaginação e atenção plena. Ao observar o próprio processo — as hesitações, os impulsos, os erros e as adaptações — cada pessoa entra em contacto com o modo como pensa, reage e aprende. Este exemplo simples de preparar uma refeição sem receita, repetida com cada vez mais profunda consciência, torna-se um espelho da própria mente em acção e pode, com o tempo, cultivar uma maior lucidez e presença. Assim, mesmo um gesto quotidiano como cozinhar pode tornar-se num exercício subtil de expansão da consciência através do confronto livre e voluntário com a pequena complexidade do mundo.


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Imagem de Michaela 💗 por Pixabay