Sex. Jan 30th, 2026
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Mateus

O Evangelho de São Mateus é o mais lido no presente ano litúrgico, Ano A. Ainda no contexto do Domingo da Palavra, que este ano foi a 25 de janeiro, deixamos aqui algumas ideias para entender melhor o evangelista do ano. Primeira parte.

Pensava-se que era o primeiro dos evangelhos

O Evangelho de Mateus é o maior em extensão, com mais de 18 mil palavras em grego. Até ao século XIX, pensava-se que era o mais antigo, o primeiro dos evangelhos. Por esta razão, aparece em primeiro lugar no Novo Testamento. Ao mesmo tempo, pensava-se que Marcos, contendo principalmente as ações de Jesus, era uma espécie de resumo de Mateus – por isso se valorizava mais Mateus, o evangelho mais lido na liturgia até à reforma litúrgica do Vaticano II. Hoje sabe-se que, na sua forma final, Marcos é mais antigo que Mateus. E Mateus reproduz no seu evangelho cerca de 600 dos 661 versículos de Marcos. Mateus usa ainda uma outra fonte, a chamada fonte Q (de Quelle, que, em alemão, quer dizer precisamente “fonte”). Trata-se de um escrito contendo principalmente palavras de Jesus, que tanto Mateus como Lucas teriam conhecido (o que explica as semelhanças entre os dois evangelhos), mas que nunca se encontrou.

Escritos que refletem Jesus e as primeiras comunidades cristãs

Na sua forma final, o Evangelho de Mateus é posterior ao ano 70 (porque tem passagens que refletem a destruição de Jerusalém, pelos romanos, no ano 70) e anterior ao ano 80. Passam-se, pelo menos, 40 anos após a morte e ressurreição de Jesus. É ingénuo pensar que os evangelhos são uma reprodução de factos, ainda que por vezes seja. Na realidade, o texto que temos hoje é o resultado de um processo de cinco fases: 1) Ressurreição de Jesus e anúncio oral do kerigma (ou seja, o anúncio básico entre contemporâneos: Jesus fez o bem, foi crucificado e ressuscitou segundo as Escrituras); 2) transmissão oral das palavras de Jesus entre os primeiros cristãos, que ainda estavam dentro do judaísmo. Neste período, até à década de 50, começam a juntar-se como unidades independentes as parábolas, os milagres, as controvérsias, os relatos da paixão; 3) até ao ano 60, começam a surgir os primeiros escritos do que antes era simplesmente oral; os discípulos e apóstolos vão morrendo, há que passar a escrito o que testemunharam; 4) nas décadas de 50 e 70, os cristãos estão em conflito com os judeus e estão a espalhar-se pelo mundo pagão. As narrativas de Jesus são interpretadas teologicamente nos novos contextos e é necessário ter algo – um escrito – que diga “quem é Jesus”, “o que significa segui-lo”; 5) entre o ano 65 e o ano 100, os relatos dispersos são organizados por teólogos e editores, a que chamados evangelistas, que selecionam tradições, organizam materiais, adaptam à sua comunidade e dão unidade literária ao conjunto, refletindo teologia própria e situação comunitária específica. No caso de Mateus, parece claro que os destinatários são cristãos provenientes do judaísmo, na própria Palestina.

 

Quem foi Mateus?

O Evangelho de Mateus não diz quem é o autor. Aliás, nenhum dos evangelhos refere o seu autor. Apenas o quarto evangelho refere que foi o “discípulo amado” que o escreveu (que depois a tradição o identifica erroneamente com o apóstolo João). Mas deixa algumas pistas para que se diga que é Mateus o autor (que, como foi explicado, é mais o redator do que propriamente autor). Uma das pistas é o relato da vocação de Mateus (9,9). Este evangelho refere que o cobrador de impostos é Mateus. Ou outros (Mc 2,14 e Lc 5,27) dizem que é Levi. Ora, será a mesma pessoa, só que Mateus usa o nome da nova vida. Ser chamado pelo Senhor muda tudo. E por isso, quando enumera os apóstolos, é o único que diz “Mateus, o publicano”. Sendo publicano ou cobrador de impostos, perceberia muito de finanças. E este evangelho é o que mais lida com números e dinheiro – mais um elemento (ou coincidência), para dizer que foi escrito pelo cobrador de impostos. “Mateus”, abreviação grega de “Matatias” (hebraico “Matatyahu”) quer dizer “Dom de Deus”, em latim seria “Teodoro”.

Porque se diz que o Evangelho de Mateus foi escrito para cristãos da Palestina?

Há em Mateus, diversos sinais de que se dirige a pessoas de cultura judaica. Os cristãos vindos do judaísmo, entre outras coisas, estavam familiarizados com os escritos bíblicos (para eles, a Bíblia era ainda apenas o nosso Antigo Testamento), tinham como grandes referências Moisés e o Rei David, evitavam dizer o nome de Deus em vão, como estipulava o segundo mandamento… Fazendo o seu evangelho neste ambiente, Mateus é o que usa mais o Antigo Testamento. Usa-os cerca de 130 vezes de maneira indireta, cita-o explicitamente 43 vezes e escreve onze vezes: “Isto aconteceu para cumprir o que diz o Senhor pelo profeta…” Por outro lado, prefere a expressão “Reino dos Céus” a “Reino de Deus”. Significam o mesmo, mas a primeira evita o nome divino, como era próprio de ambientes culturais judaicos. Frederico Lourenço contesta que se assim fosse, este evangelho não seria tão crítico para com os judeus, nomeadamente os fariseus. Mas tal criticismo pode ser entendido precisamente como reação de cristãos saídos do judaísmo às perseguições pelos judeus (como fez Paulo antes da conversão), muito comuns depois do “concílio” judaico de Jâmnia.

Até há pouco tempo, seguindo uma ideia de Papias (ano 125), dizia-se que Mateus tinha escrito o seu evangelho em hebraico (a língua escrita, culta, na Palestina) ou mesmo em aramaico (a língua falada pelo povo – e por Jesus). Os exegetas abandonaram tal ideia porque o grego de Mateus não tem sinais de ser tradução.

Porque se diz que o Evangelho de Mateus é o “evangelho eclesial”?

Por duas razões. Primeiro, é o único que utiliza a palavra “Igreja” (em duas situações, quando Jesus diz “Tu é Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja”, Mt 16,18, e quando se apela ao papel da comunidade na correção fraterna, Mt 18,17. Depois, é claramente o evangelho que revela uma comunidade cristã consciente de ter sido fundada por Jesus de Nazaré e de viver na e da sua presença como ressuscitado. Ou seja, é o “evangelho do Emanuel”, de “Deus connosco”.

Porquê “evangelho do Emanuel?”

“Emanuel” quer dizer “Deus connosco” e é a palavra-chave para entender Mateus. Ou melhor é a palavra que dá sentido a todo o evangelho porque aparece no princípio, no fim e o meio, explícita ou implicitamente. De facto, no princípio do evangelho lemos que “a virgem conceberá e dará à luz um filho e hão de chamá-lo Emanuel” (1,23). No último versículo (28,20), Jesus diz “E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”. Algo como “serei Emanuel até ao fim dos tempos”. E sensivelmente no meio, em 18,20, Jesus diz: “Pois onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles”. Ou seja, “sou Emanuel”.

Em Mateus, Jesus é o “novo David” e “novo Moisés”?

Todos os evangelhos querem, simplesmente, dizer que é Jesus, mostrar a sua mensagem e mostrar como O podemos seguir. Para Mateus, David e Moisés são boas entradas para Jesus. Não é exclusivo deste evangelho, mas é muito próprio deste evangelho, até porque os seus destinatários compreenderiam mais o significado e legado de David, o rei e líder, e Moisés, a autoridade, o legislador. Para ficarmos apenas por duas passagens, podemos ver a genealogia de Jesus logo no início do evangelho. Jesus nasce na sequência de três períodos de 14 gerações. Ora, 14 é o número de David (porque a soma do valor das consoantes DVD dá 14, 4+6+4). Na simbologia de Mateus, a mensagem é clara: Jesus é três vezes David. Levará à plena realização aquilo que em David não foi alcançado.

Podemos ver Jesus como o novo Moisés no episódio das Bem-Aventuranças. Se Moisés tinha subido ao monte para dar ao povo os Dez Mandamentos, Jesus também sobe ao monte, senta-se (para ensinar como um mestre) e dá os mandamentos do novo reino, as Bem-Aventuranças. Mas Mateus vai mais longe no paralelismo. Se Moisés era tido como o autor da Torá, ou seja, os cinco livros do Pentateuco, Jesus não fica atrás e também nos dá cinco “livros-discursos”. Mas isso fica para a próxima semana.


Foto: Vocação de Mateus [1599-1600] Caravaggio, atualmente na Capela Contarelli em São Luís dos Franceses, em Roma. [Foto de Luís Silva]