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Das cinzas à ressurreição – Mensagem da Quaresma 2026

Das cinzas à ressurreição – Mensagem da Quaresma 2026

A Quaresma é um tempo de escuta e meditação da Palavra de Deus para que a renovação pessoal e comunitária aconteça no coração das nossas comunidades, com repercussões na vida social e eclesial.

A vocação de cada pessoa e da sociedade no seu todo deve cultivar uma ordem social baseada em valores assentes na verdade, na justiça, na responsabilidade mútua, na compaixão e no amor aos outros. Só desta maneira seremos capazes de enfrentar com honestidade e urgência as ameaças e preocupações que vão surgindo no dia-a-dia para construirmos um mundo mais justo, mais equitativo e pacífico para todas as pessoas e para toda a criação.

A liturgia quaresmal deste ano propõe a leitura dos evangelhos catecumenais – a samaritana, o cego de nascença e a ressurreição de Lázaro – que são essenciais na preparação próxima dos catecúmenos para a celebração dos sacramentos da iniciação cristã, mas também para todos os batizados renovarem o seu vínculo com Cristo e com a Igreja, a fim de todos fazermos a passagem (Páscoa) das cinzas para a ressurreição, isto é, da morte para a vida.

A Samaritana, depois de se encontrar com Jesus junto do poço de Jacob, deixa o cântaro para ir ao encontro dos seus compatriotas a anunciar-lhes o Messias. A água nova que encontrou quer dá-la a beber aos samaritanos. Os seus amigos e vizinhos também se encontrarão pessoalmente com Jesus e beberão da água nova que Ele tem para nos dar.

O cego ao ser expulso da sinagoga, sente-se livre para aceitar Jesus, que vem ao seu encontro. Jesus pergunta-lhe: “Tu crês no Filho do Homem?” A luz recebida nos seus olhos leva-o a aceitar a luz da fé, e, desta forma, estabeleceu-se uma relação interpessoal, que é fundamentalmente a fé. Os dirigentes do povo, apesar do seu sistema doutrinal, não abraçam a fé, que é sempre fruto de um encontro pessoal do homem com Deus.

Perante a morte de Lázaro, por quem a comunidade chora, representada pelas suas irmãs, Marta e Maria, Jesus, movido pelos seus sentimentos, dirige-se ao sepulcro. Apesar da pedra que está colocada à entrada, vai mostrar-se vencedor da morte. Nesta situação limite é necessária a fé; só com ela se pode vislumbrar a glória de Deus. Crer é aceitar Jesus, que se manifesta como ressurreição e vida. O morto saiu do sepulcro; as aparências são de morte: atado com as ligaduras e coberto com o lençol; mas a realidade é de vida: sai pelo seu próprio pé. Aqueles que o ataram agora têm de o desatar. Mais ainda, não devem retê-lo, mas deixá-lo caminhar; eles são comunidade de morte, e Lázaro, com a sua ressurreição, converteu-se em sinal de vida nova.

Ao percorrermos o caminho quaresmal que nos conduz à Páscoa, recordamos que Jesus «rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz» (Flp 2,8). Neste tempo de conversão, renovamos a nossa fé, obtemos a “água-viva” da esperança e recebemos com o coração aberto o amor de Deus que nos transforma em irmãos e irmãs em Cristo. Na noite de Páscoa, renovaremos as promessas do nosso Batismo, para renascermos como mulheres e homens novos por obra e graça do Espírito Santo. O itinerário da Quaresma, como aliás todo o caminho cristão, está inteiramente sob a luz da ressurreição que anima os sentimentos, atitudes e opções de quem deseja seguir a Cristo.

Propostas para a nossa caminhada quaresmal:

Palavra de Deus e oração. A vida cristã alimenta-se na fonte da Palavra de Deus, onde a oração vai beber. Proponho que nesta Quaresma haja um maior aprofundamento do evangelho de Mateus, o evangelista deste ano litúrgico. Que todos os dias se dedique um tempo concreto para a leitura sossegada da Palavra de Deus.

Silêncio. Estamos num mundo de ruídos, ligações via internet, de uso intensivo dos novos meios de comunicação social, muitas vezes sem critérios de verdade, e de tantas outras formas de nos comunicarmos que nos impedem ter uma vida tranquila e sossegada. O silêncio não é apenas ausência de ruído, mas de encontro consigo mesmo. Na oração silenciosa, a esperança é-nos dada como luz interior, e é fundamental recolher-se para rezar (cf. Mt 6, 6) e encontrar, no silêncio, o amor de Deus.

Jejum e partilha. Ao fazer a experiência duma pobreza assumida, quem jejua faz-se pobre com os pobres e acumula a riqueza do amor recebido e partilhado. Como nos diz a encíclica Fratelli Tutti, citando S. Tomás de Aquino, “o amor é um movimento que centra a minha atenção no outro, considerando-o como um só comigo mesmo” (FT 93). O compromisso com os mais pobres passa pela partilha de bens e pelo envolvimento em ações que promovam a justiça, o respeito pela criação, a equidade na distribuição da riqueza produzida e no acolhimento a todos os que nos procuram na esperança de melhores condições de vida.

4º A Renúncia quaresmal, este ano, é destinada a ajudar as populações deslocadas do Sudão e as instituições que na nossa diocese de Aveiro trabalham e apoiam as vítimas de violência doméstica.

Ponhamo-nos a caminho, pois só aquele que caminha será salvo, porque Jesus ressuscitado vem ao nosso encontro na força da palavra, na vida das comunidades e no partir do pão.

Aveiro, 18 de fevereiro de 2026 – Quarta-Feira de Cinzas.

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.

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