
Converter-se em portas abertas para os outros
Eucaristia de encerramento do Jubileu 2025 – Homilia
- A família de Jesus
Encerramos, com esta Eucaristia, o Jubileu da Esperança, convocado pelo saudoso Papa Francisco e iniciado o ano passado na festa da Sagrada Família. A sua conclusão será pelo Papa Leão XIV, a quem queremos manifestar a nossa comunhão como princípio e fundamento visível da unidade de fé e da comunhão na caridade
A festa da Sagrada Família foi instituída pelo Papa Leão XIII, em 1893, para promover a santidade e os valores da vida familiar perante os desafios do mundo moderno, e o Papa Bento XV estendeu-a a toda a Igreja em 1921. Contemplemos a família de Nazaré e a partir dela saibamos olhar e contemplar as famílias de hoje. Como referia o Papa Bento XVI, a Sagrada Família é única e irrepetível, mas, ao mesmo tempo, ela é “modelo de vida” para todas as famílias, mesmo para aquelas que se encontram em dificuldade. O Papa Francisco, olhando para esta realidade que afeta hoje a tantas famílias, diz-nos que “na família cada pessoa é valiosa porque é diferente das outras, cada pessoa é única. Mas as diferenças também podem causar conflitos e feridas dolorosas. E o melhor remédio para curar a dor de uma família ferida é o perdão”.
A leitura de S. Paulo aos Colossenses apresenta-nos um “código ético e familiar” porque nos fala do comportamento dos cristãos entre si, em comunidade. O que se pede à comunidade cristã – misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência – são valores que devem ser vividos por todos os cristãos, por todas as famílias e, de um modo particular, pelas famílias que vivem o seu amor à luz do amor de Deus.
O tempo de Nazaré, que aparece a primeira vez em S. Lucas na Anunciação do anjo e no evangelho de hoje, é um tempo de silêncio onde Jesus cresce como homem, onde a sua personalidade é moldada pelas tradições do seu povo e onde amadurece o projeto do Reino de Deus, pelo qual vai dar a sua vida. Nazaré, hoje como ontem, é um chamamento a escutar a voz de Deus e a responder-lhe como responderam Maria e José, e o ensinaram a Jesus. Eles falaram-lhe de Deus e ensinaram-no a ler as Escrituras. Jesus, o Messias, anunciado pelos profetas, teve uma família como nós.
José e Maria, a sagrada família, mostram, com a sua simplicidade, que somente no cuidado ao irmão, na atenção, no serviço, se pode encontrar a verdadeira felicidade. Este é o motivo pelo qual os pobres são os destinatários privilegiados do nascimento de Jesus. Os poderosos, os que tinham casa não deram conta do Natal. O choro do Menino não chegou ao calor e ao bem-estar das casas aquecidas e das mesas cheias de iguarias. Apenas deram conta do nascimento do Menino os que passavam a noite a guardar os rebanhos, à intempérie, porque partilhavam as mesmas condições que o Menino Jesus.
No Jubileu das famílias e dos avós, o Papa disse-nos que as famílias são um canto silencioso de esperança, capaz de difundir a luz de Cristo através das suas vidas, porque o “mundo de hoje precisa da aliança conjugal para conhecer e acolher o amor de Deus e superar, com a sua força que une e reconcilia, as forças que desagregam as relações e as sociedades”.
2. A graça do Jubileu
Encerramos hoje o Jubileu dedicado à Esperança, no qual fomos convidados a beber a esperança na graça de Deus, e a descobri-la nos sinais dos tempos que o Senhor nos oferece. Quando chegou a plenitude dos tempos, veio também a plenitude da divindade, sendo a paz o sinal por excelência que Deus Pai nos enviou. Como refere S. Bernardo, “não se trata de uma paz prometida, mas enviada; não adiada, mas concedida; não profetizada, mas presente. Deus Pai a enviou à terra, por assim dizer, um saco cheio da sua misericórdia. Um saco, que devia romper-se na paixão, para derramar o preço do nosso resgate que nele se continha; um saco pequeno, mas cheio. Na verdade, um menino nos foi dado (cf. Is 9,5), mas neste Menino habita toda a plenitude da divindade (Cl 2,9). Os sinais dos tempos, depositados no coração humano, carecido da presença salvífica de Deus, pedem para serem transformados em sinais de esperança.
Hoje, o que encerramos não é a graça divina, mas sim um tempo especial da Igreja; o que continua aberto é sempre o coração misericordioso de Deus. Fecham-se as portas santas em Roma, encerra o Jubileu nas diversas Catedrais e Igrejas espalhadas pelo mundo, mas a porta do nosso coração continua aberta para escutar a Palavra de Deus, para acolher o irmão que sofre e para perdoar. O Jubileu foi um dom e uma graça, e a nossa missão para o futuro é sermos portas abertas para os outros.
Quero dar graças convosco pelo Jubileu diocesano que celebrámos entre 2023 e 2024, nos 600 anos da nossa Catedral, e por este Jubileu universal que estamos a concluir. Só Deus conhece os frutos e o bem realizado na nossa Diocese, nas nossas paróquias e no coração dos nossos diocesanos. Para além dos vários jubileus dos arciprestados ou sectoriais, desejo realçar a celebração do sacramento da Reconciliação, os gestos de caridade para com os mais pobres, e a iniciativa que tivemos em ter no Santuário de Nossa Senhora de Vagos a adoração a Jesus Eucaristia todos os dias. É uma iniciativa a continuar com uma intenção que diz respeito a toda a Diocese: rezarmos pelas vocações à vida matrimonial e de consagração – sacerdotais e religiosas.
O Emanuel, o Deus connosco, não se cansa de nos esperar, porque apesar dos nossos erros, dos nossos esquecimentos, e até erros e pecados, Deus continua a esperar porque se fez homem e habitou entre nós, na nossa história humana. O seu verdadeiro poder está em que nos espera para que O acolhamos na nossa vida e na vida das nossas famílias, e na sociedade da qual fazemos parte. A esperança que Ele nos dá é a esperança que nunca desilude, porque Deus é Pai. Deus tem coração de Pai e está sempre com os seus filhos.
Que a Família de Nazaré abençoe todas as famílias e a nossa família diocesana.
Amen.
Aveiro, 28 de dezembro de 2025.
† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro