Apresentação do Livro de Santa Joana
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Aveiro
Senhores Vereadores
Senhora Directora da Biblioteca Municipal
Monsenhor Vigário Geral
Caros Diocesanos e Bons Amigos
1.Contexto Jubilar
A diocese de Aveiro, criada em 1774 e posteriormente extinta em 1882, foi restaurada no século seguinte, por Bula do Papa Pio XI publicada a 24 de Agosto de 1938 e executada a 11 de Dezembro do mesmo ano. Entramos já no Jubileu dos setenta e cinco anos da restauração da nossa diocese.
Estamos desenvolver neste contexto celebrativo a Missão Jubilar que se quer evangelizadora e aberta ao mundo e à cultura do nosso tempo.
A história de Aveiro e a vida da diocese têm um vínculo natural com Santa Joana Princesa, padroeira da cidade e da diocese. A publicação de uma nova edição de «A PRINCESA SANTA JOANA E A SUA ÉPOCA (1452-1490)» vem reafirmar a importância e o interesse que o conhecimento da sua vida nos oferece.
Trata-se de uma nova edição a que o autor, Monsenhor João Gonçalves Gaspar, Vigário Geral da Diocese, quis dar forma actualizada, graças ao seu persistente trabalho de investigação sobre a vida e a acção da Princesa Santa Joana.
Aveiro, cidade e diocese, deve a Monsenhor João Gaspar este gosto natural e este esforço empreendedor de incansável investigador sobre tudo quanto à sua história diz respeito e sobremaneira sobre tudo quanto à Princesa Santa Joana se refere. Muito do espontâneo e inicial afecto dos aveirenses por Santa Joana foi sendo progressivamente esclarecido e transformado em religiosa devoção, graças ao aprofundado conhecimento da sua vida e acção que, desde há muito, o autor nos seus diferentes livros nos tem facultado.
É no contexto da Missão Jubilar e em ambiente de acrisolada devoção a Santa Joana por parte de todos nós aveirenses que agora se apresenta publicamente esta nova edição deste Livro.
Esta edição, trazida a público pelo autor em hora jubilar no meio de acrescidos trabalhos e exigentes responsabilidades, é mais um testemunho exemplar de dedicação a Aveiro e de homenagem a Santa Joana e vem aumentar a dívida de gratidão da cidade e da diocese pela valiosa obra humana, intervenção cultural e acção pastoral que diariamente Monsenhor João Gaspar por todos nós reparte. Bem-haja Monsenhor.
- De Aveiro e dos Aveirenses
Uma primeira edição deste livro data de 1981 a que se seguiu outra, sete anos depois, dado que rapidamente se tinha esgotado a anterior. Uma e outra foram publicadas a expensas da Câmara Municipal de Aveiro. A mesma atitude quis ter a actual Câmara, selando com o mesmo gesto, agora renovado, uma decisão assumida nas anteriores edições. Quero, em nome pessoal e da diocese, agradecer e realçar o significado desta atitude.
Ao lermos a história e sobretudo ao adentrarmo-nos mais no íntimo da alma humana, social, cultural e religiosa de Aveiro sentimos a presença e a acção da Princesa Santa Joana em tantos momentos marcantes do percurso vivido e em tantos estados de alma que dão à vida das pessoas e à história da cidade outra beleza e maior sentido.
Da Princesa Santa Joana todos destacamos a nobreza do berço real e o valor da sua renúncia às glórias e aos desígnios que a Côrte reservava para ela.
Admiramos igualmente a imensa gratidão dos aveirenses pela escolha que uma jovem, filha do Rei de Portugal, nascida em Lisboa, fizera por Aveiro. Aqui encontrou a jovem Princesa o carinho manifestado pelas gentes de Aveiro, reconhecidas pelas bênçãos que nela encontraram, pela caridade que com todos partilhou, pelo testemunho de santidade que para sempre nos deixou.
Não estranhamos, por isso, que os aveirenses a tenham recebido logo desde início com desvelo, a tenham sentido sempre como uma bênção de Deus e a tenham proclamado, de imediato após a morte, como santa.
O Mosteiro de Jesus, onde viveu, rezou, trabalhou e repartiu bens e dons acolheu, logo após a morte, o seu corpo, ali sepultado, e guarda-o agora, em mausoléu, para respeito de todos e veneração dos crentes.
É desta perfeita sintonia e contínua identificação da Princesa Santa Joana com Aveiro que nasce, em permanência, uma forma muito bela e única de olharmos, reconhecermos e venerarmos a santidade dos que nos servem de modelo de vida e são agora nossos intercessores junto de Deus.
- Um livro escrito a olhar o futuro
Este novo livro sobre Santa Joana não é apenas uma bela e fascinante memória de acontecimentos distantes ou um atractivo relato de factos passados mas, bem mais, ele é espelho de vida onde a santidade se reflecte e se encontra. E é de santidade que afinal mais precisamos, nestes tempos de demorada e persistente crise económica e social em que vivemos.
Só um modo diferente de viver, alavancado nos valores humanos e sociais que os santos, os sábios e os servidores abnegados do bem comum nos legaram, pode abrir horizontes de justiça e de felicidade ao futuro e indicar ao mundo e à Igreja caminhos de vida e rumos de missão!
Por entre belos sonhos e atraentes esperanças, no meio de procuras e de ansiedades em que tantos vivem, cumpre-nos propor ao nosso tempo referências que iluminem o futuro e exemplos que nos relancem para novas metas a alcançar e consistentes projectos de vida a conseguir.
Sabemos que a fé é exigente e que a santidade não é tarefa fácil. Mas sabemos, também, que a fé ilumina o sentido da vida, abre campo e tempo à esperança cristã e mobiliza os crentes para agir com caridade ao serviço dos mais pobres e na construção de um mundo melhor.
Só Deus basta! Dizem os santos. Hoje encontramos sinais desta certeza de fé no olhar límpido de crianças, nas decisões lúcidas e generosas de tantos jovens, no amor assumido de inúmeras famílias, na heroicidade serena vivida em tantas situações de dor ou de entrega ao serviço dos mais frágeis, na vida consagrada e feliz de tanta gente dada por inteiro e para sempre a Deus, à Igreja e ao Mundo.
Todos conhecemos exemplos vizinhos no tempo e próximos na normalidade de um viver igual ao nosso, em que homens e mulheres de todas as idades e condições nos dizem, pelo silêncio activo da contemplação e nos revelam pela vida, trabalho e dedicação voluntária e gratuita aos mais pobres e frágeis, as razões sólidas da fé que tornam a vida de cada um de nós mais feliz e mais santa e a humanidade mais justa e mais solidária.
As bem-aventuranças do Evangelho, propostas por Jesus aos discípulos como sentido necessário de felicidade, constituíram para Santa Joana o seu programa de vida e de missão, moldando o seu coração pelos critérios evangélicos da simplicidade e da pobreza, da pureza e da misericórdia, da bondade e da compaixão, da justiça e da paz.
É destas bem-aventuranças que a Princesa Santa Joana continua a falar-nos a partir do seu túmulo visitado e venerado por tanta gente e da sua estátua levantada no coração da cidade.
Santa Joana partiu ao encontro de Deus no dia 12 de Maio de 1490, para daí multiplicar graças e bênçãos sobre esta terra que escolheu para viver e sobre as gentes que amou e serviu.
Os santos são para o mundo fermento que leveda, sal que dá sabor, luz que brilha e fazem-nos ver mais longe, subir mais alto, construir em alicerce sólido, vencer cansaços e medos, desafiar o humanamente impossível.
Escrever um livro biográfico sobre Santa Joana Princesa, no contexto da cultura contemporânea, é retirar do escaninho do tempo um verdadeiro tesouro que importa conhecer e descobrir para posteriormente adquirir, mesmo que para isso nos obriguemos a renúncias exigentes e a opções difíceis.
- Um livro é um farol e um roteiro
Peço às famílias e aos jovens aveirenses que sejam eles os primeiros e mais assíduos leitores deste livro, para que no exemplo do viver da Princesa Santa Joana possam encontrar um roteiro onde se desenhem caminhos de bênção e de felicidade e rumos de vocação e de serviço a Deus e às causas do bem.
Escolher o lugar onde mais e melhor se encontra Deus e descobrir o farol que nos traz a luz divina foi sempre desejo da Princesa Santa Joana, concretizado na nossa terra e tornado cada vez mais actual nos nossos dias.
Não faltam a Aveiro pessoas com belos e grandes testemunhos de vida que se destacaram, ao longo do tempo, nos vários campos da vida e da acção, do saber e da técnica, da arte e da ciência, da causa comum e do serviço público, da liberdade e da justiça, do desenvolvimento económico e do progresso social.
No percurso e na memória da história, Aveiro soube inscrever na alma das suas gentes valores que fazem da nossa terra um campo aberto e um chão sagrado, percorridos pelo serpenteado da ria e envolvidos pela moldura do mar, cheios de beleza e de luz, da água e de maresia, de encanto e de liberdade, de trabalho e de fé.
A Princesa Santa Joana trouxe a esta querida cidade de Aveiro, que amamos e servimos, um jeito único e um paradigma inigualável de vida e de missão, que moldou para sempre o coração de todos os aveirenses e que inspirou definitivamente o nosso lema diocesano: «Amar a Deus é servir».
Saber «amar a Deus e servir os irmãos» é bela herança do evangelho que a Princesa Santa Joana nos legou e nobre património cultural que nos transmitiu. E, assim, a nossa Santa Padroeira é para todos nós uma presença viva e um testemunho actual de fé, de vocação e de missão.
- Tornar presente o Natal
Surge a apresentação deste Livro em tempo de Natal. Fomos convidados pela Missão 11 deste mês a vivermos este tempo como dia prolongado da Palavra para descobrirmos a beleza do Dom que é Deus feito Palavra. Também o Livro que agora se apresenta, que ao seu Autor se deve e que a todos nós se destina, é palavra que nos fala de Deus através da vida e do testemunho de Santa Joana.
Este Livro faz assim mais presente e mais belo o Natal entre nós.
Na impossibilidade de ser eu a ler pessoalmente o que escrevi, para estar com o meu tio-padrinho de baptismo, neste mesmo momento e a esta mesma hora da celebração da Eucaristia na sua partida ao encontro de Deus e acompanhar a minha família na saudade, na gratidão e na esperança cristã, agradeço ao Padre João Alves, Reitor do nosso Seminário de Santa Joana, a delicadeza fraterna e a disponibilidade manifestada desde logo ao pedido feito para me substituir neste acto e para me representar nesta missão.
Quero agradecer a Monsenhor João Gonçalves Gaspar o mérito desta obra e a dedicação que nela se manifesta à cidade, à diocese de Aveiro e aos seus bispos com quem, desde a primeira hora, sempre colaborou com inexcedível afecto e permanente dedicação.
Nesta antevéspera do seu aniversário natalício saúdo-o, Monsenhor, como seu irmão dedicado e agradecido, por todo o bem que diariamente de si recebo em amizade, exemplo e colaboração.
A todas as pessoas presentes desejo um Santo Natal, abençoado e feliz.
Aveiro 22 de dezembrode 2012
António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro