
Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra
Homilia de D. António Moiteiro no Dia da Igreja Diocesana – 05 julho, no Seminário de Aveiro
1. Deus revela-se aos simples
Um dia, Jesus surpreendeu toda a gente ao dar graças a Deus pelo seu sucesso com as pessoas da Galileia e pelo seu fracasso com os doutores da lei, escribas e sacerdotes: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos ignorantes e as revelaste aos pequeninos» Nota-se que Jesus está contente. «Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado». Esta é a maneira que Deus tem para se revelar e comunicar.
A gente simples e ignorante está disposta a deixar-se ensinar por Jesus, porque o Pai está a revelar-lhes o seu amor através do seu Filho. Entendem Jesus como ninguém. Os sábios e os inteligentes não entendem nada. Têm a sua própria visão de Deus e da religião e pensam saber tudo. A sua visão fechada e o seu coração endurecido impedem-nos de se abrir à revelação do amor de Deus Pai através do seu Filho.
No texto do evangelho, Jesus faz a cada um de nós individualmente e à diocese de Aveiro, enquanto comunidade convocada para celebrar os louvores de Deus, três chamamentos que nos devem interpelar no processo que estamos a realizar das comunidades pastorais.
«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos», o mesmo é dizer que se se encontrarem vitalmente com Jesus, experimentarão um alívio imediato: «Eu hei de aliviar-vos».
«Tomai sobre vós o meu jugo… Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve». Temos de abandonar o jugo dos sábios e dos inteligentes, não porque Jesus exija menos. Exige mais, mas de outra maneira. Exige o essencial: o amor que liberta e faz viver.
«Aprendei de mim, porque sou mando e humilde de coração». Jesus não complica a vida, mas torna-a mais simples e humilde. Não oprime, ajuda a viver de maneira mais digna e humana. É um “descanso” encontrar-se com ele.
As pessoas simples do seu tempo, que viviam a defender-se da fome e dos grandes senhores, entendiam Jesus muito bem: Deus queria vê-los felizes, sem fome nem opressores. Os doentes confiavam nele e, animados pela sua fé, acreditavam no Deus da vida. As mulheres que se atreviam a sair de casa para o ouvir intuíam que Deus tinha que amar como Jesus dizia: com entranhas de mãe. O Deus que lhes anunciava era o que esperavam e do qual tinham necessidade.
2. O estilo de Igreja a construir
O Documento Final do Sínodo de 2024 afirma que é preciso tempo para chegar a escolhas que envolvam a Igreja inteira, a fim de promover relações capazes de sustentar e orientar a missão da Igreja, que levou a «comunidade apostólica de Jerusalém a selar o resultado do primeiro evento sinodal com as palavras: “O Espírito Santo e nós decidimos” (At 15,28). Invocando a sua luz, o Povo de Deus, participante da função profética de Cristo (cf. LG 12), “esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje, que são os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus” (GS 11). Tal discernimento serve-se de todos os dons de sabedoria que o Senhor distribui na Igreja e enraíza-se no sensus fidei comunicado pelo Espírito a todos os Batizados. É neste espírito que a vida da Igreja sinodal missionária deve ser entendida e reorientada» (DF 81).
O Dia da Igreja Diocesana, que nos congrega no final de mais um ano pastoral, apresenta a toda a Diocese o “Instrumentum Laboris” sobre as Comunidades Pastorais. Este documento será ocasião de estudo e reflexão, tendo em vista à sua aprovação na Assembleia Diocesana Sinodal, marcada para os dias 24 de outubro, 7 de novembro e 22 de novembro, solenidade de Cristo Rei.
Realço apenas algumas das ideias que me parecem importantes neste momento da nossa vida em Igreja.
Da leitura do contributo dos trabalhos de grupo nas assembleias arciprestais, consegue-se perceber que há um estilo de Igreja que se anseia construir e testemunhar: uma Igreja centrada em Jesus Cristo, reunida e alimentada na Eucaristia, fonte, caminho e cume da vida cristã; uma Igreja “mais aberta, alegre e próxima”, ousada e capaz de criar comunidades que fomentem a “escuta, o diálogo, o silêncio”, em ordem ao discernimento e à tomada de decisões;
Uma Igreja de “todos e para todos”, capaz de “diversificar ministérios”, para uma maior partilha de responsabilidades, apelando-se a uma “convergência em torno do sonho diocesano centrado em “Cristo ressuscitado”, “comunhão” e formação de “discípulos missionários”.
As ações pastorais a desenvolver devem privilegiar o acolhimento, renovando estruturas, de modo “a não serem sempre as mesmas pessoas”, permitindo “que pessoas diferentes fiquem motivadas a intervir e a sentir-se responsabilizadas”. A dinâmica deve ser “diferente daquela a que estamos habituados”, promovendo a escuta e o caminho sinodal. Pensar em conjunto, “ser peregrino de esperança, liderando pelo exemplo”.
Os órgãos de comunhão e missão devem privilegiar a evangelização e promover a renovação da Igreja e devem ser liderados por “alguém que oriente com espírito de missão e coração aberto”. Devem, igualmente, estar “atentos às necessidades da comunidade” e das pessoas que a constituem, não esquecendo a presença numerosa de pessoas de cultura diferente da europeia que vivem entre nós e muitas delas já participam na vida das nossas comunidades cristãs.
A opção pela criação e implementação das “Comunidades Pastorais”, como resposta às urgências e aos desafios do tempo presente, às solicitações e propostas do Povo Santo e Fiel de Deus, assenta nestes pressupostos teológicos. Eles são o farol, o alerta permanente para não se cair na tentação de pensar e realizar uma mera reorganização administrativa, sem chama, sem parresia, sem ardor evangelizador que deixe uma marca neste mundo.
Não quero terminar esta homilia sem referir os apelos do Papa Leão XIV no recente Consistório de cardeais, e que se aplicam ao momento da Igreja diocesana que estamos a viver: «Se soubermos continuar a procurar juntos a vontade do Senhor, deixando-nos orientar pelo Espírito Santo, estou certo de que a nossa comunhão se tornará cada vez mais fecunda para a missão da Igreja e para o serviço a toda a família humana; o estilo de Igreja a que somos chamados é que cada batizado, segundo a sua vocação e responsabilidade, participe na construção da civilização do amor e no serviço ao bem comum; em toda a Igreja, desejamos promover espaços onde o Povo de Deus possa ouvir-se, rezar, discernir e caminhar unido.»
Colocamos toda a vida diocesana, os cristãos e os homens e mulheres de boa vontade que habitam no espaço diocesano, no regaço de Maria e oxalá aprendamos a responder como ela, com generosidade e sem medo, aos desafios que temos pela frente. Que Santa Joana Princesa, nossa padroeira, interceda por nós junto de Deus e nos dê a força que nela se manifestou na realização da vontade de Deus.
Aveiro, 5 de julho de 2026
Dia da Igreja Diocesana
† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.