Santa Joana, modelo de santidade – homilia

A santidade, que significa gastar a vida ao serviço dos outros, tendo como modelo a Jesus Cristo, é um convite de Deus que irrompe na vida de cada pessoa, nos une a Deus e aos irmãos e nos estimula a ter sentimentos próprios de Deus. A santidade é “andar na presença de outro”, é uma relação, é uma vida com Deus, uma amizade, tal como afirmava a Santa Joana: «Trabalhai muito, estimais sobre todas as coisas por andar com a consciência sempre limpa, sempre percebidas e como quem tem o fim desta carreira tão incerta».
A vida de Santa Joana Princesa reporta-nos para algo de parecido com a procura da pérola pela qual vale a pena vender tudo quanto se possui para adquirir ou ao tesouro escondido pelo qual vale a pensa lutar para o encontrar.
A segunda leitura de S. Paulo aos filipenses diz-nos que o conhecimento de Cristo é o bem supremo a que todos devemos aspirar, e tudo o mais é lixo em comparação com ganhar a Cristo e n’Ele nos encontrarmos.
Ao longo da vida, a santidade vai-se fazendo com familiaridade e intimidade com Deus, que nos abre à relação aos outros. Na viagem da nossa vida há oportunidades, há obstáctulos, há momentos tristes e alegres, mas em todos se vai forjando a amizade com Deus. Por isso, a santidade é uma obra de artesanato paciente: a arte de aprender a amar e de aprender a ser amados por Deus.
O convite à santidade tem de moldar toda a existência cristã: «Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação» (1Tes 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, as, como refere o Catecismo da Igreja Católica, «os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade» (CCE 2013).
A santidade, à qual todos somos chamados, interpela a vida cristã, porque ela é um reflexo da beleza de Deus no mundo. Pela fé, «o homem entrega-se total e livremente a Deus» (DV 5) e, por ela, o crente procura conhecer e fazer a vontade de Deus, revestir-se do seu amor. Unida à virtude teologal da fé está a virtude cardeal da fortaleza – a que levará Santa Joana a responder ao irmão, o rei D. João II, quando lhe pede que abandone a vida religiosa, que «fossem todos muito certos que isto que, com a graça e a ajuda divinal, começado tinha, por nenhuma coisa sem embargo o não havia de deixar».
O Memorial da Infanta Joana, conservado aqui ao lado no Mosteiro de Jesus, resume, no momento da sua morte, toda a sua vida de santidade: «Amando mais seguir a Cristo pobre e humilde, perseverou até ao seu santo falecimento, ajudando a ele muito misericordiosamente pôr fim todas as obras meritórias com todo fervor e amor de Deus». A sua vida foi uma corrida de fundo para alcançar a Cristo, uma vez que já tinha sido alcançado por Jesus.
O Papa Francisco afirmava que «para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tantato a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra» (GetEx 14).
A Princesa Santa Joana, meditando na paixão de Cristo, via nela a máxima expressão do amor de Deus por nós. A misericórdia é o «caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado» (Misericirdiae Vultus 2). No leito de morte, Santa Joana afirma isto mesmo: «Eu conheço que nunca em mim houve obras senão de muitas culpas e dignas de penas e tormentos; porém, Senhor, a Ti peço que ponhas a tua morte e paixão entre o teu julgamento e a minha alma».
A presença de D. Joana em Aveiro marcou profundamente a história da pobre e humilde vila de então, e do Mosteiro de Jesus, onde habitou. A sua morte, que cortaria tão prematuramente uma vida, «honesta e mui virtuosa», foi um duro golpe que traumatizou todos quantos se sabiam amparados pela proteção da irmã de el-rei D. João II. Contudo, permaneceu o seu exemplo edificante de abnegação, de fé e de amor, numa existência silenciosa e simples a projetar-se em luz sobre a sociedade do tempo e que ainda hoje, após centenas de anos, nos faz recolher implorando a sua intercessão. Quase parece continuar a ouvir-se da sua boda os conselhos que a enferma repetia nas últimas horas, como eco das palavras do apóstolo S. Paulo: «Procurai conhecer plenamente a vontade de Deus com toda a sabedoria e inteligência espiritual, para viverdes de maneia digna do Senhor e agradar-lhe inteiramente, realizando toda a espécie de boas obras e progredindo no conhecimento de Deus. Vivei com alegria; trabalhar pela vossa perfeição; animai-vos uns aos outros; tende os mesmos sentimentos; vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco» (cf. Col 1,9b-10; 2Cor 12,11-13).
A confiança em Deus é um sinal claro da vivência da fé numa entrega total à vontade de Deus. A dimensão eclesial da fé manifesta-se no ministério da Igreja, isto é, no mistério do Deus incarnado, que permite ter fé na mesma Igreja, porque só pela fé temos acesso ao mistério, isto é, a Igreja deve ser entendida a partir da iniciativa de Deus – Deus toma a iniciativa de salvar a humanidade e, por isso, o mistério da Igreja é um dom e um chamamento. Foi isto que nos ensinou Santa Joana à Igreja e a todos nós aveirenses. O documento final do Sínodo de 2024 – Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão – afirmou que “a sinodalidade é o caminhar juntos dos cristãos com Cristo e para o Reino de Deus, em união com toda a humanidade; orientada para a missão, implica o encontro em assembleia dos diversos níveis da vida eclesial, a escuta recíproca, o diálogo, o discernimento comunitário, a formação de consensos como expressão da presença de Cristo no Espírito e a tomada de uma decisão em corresponsabilidade diferenciada.
Após a morte da Princesa, as irmãs dominicanas sepultaram o corpo da defunta no coro de baixo do mosteiro e, imediatamente, após a sua morte que, referindo-se aos santos, é o nascimento para o céu, começou em Aveiro a veneração do nome e da memória de Infanta santa Joana; tal veneração estender-se-ia por todo o nosso País e ultrapassaria mesmo as fronteiras nacionais.
Hoje pedimos à nossa Padroeira que a visão do autor do livro do Apocalipse se realize na nossa cidade e na nossa Diocese: que haja um novo céu e uma nova terra, onde não exista dor e sofrimento e onde todos possamos colaborar em “renovar todas as coisas”.
Amen.
Aveiro, 12 de maio de 2026