
Discernimento, Misericórdia (Igreja de portas abertas), sinodalidade
Iniciamos, com esta Assembleia diocesana, a abertura do novo ano pastoral, embora ele já tenha sido iniciado e a vida pastoral já esteja a decorrer com normalidade.
A tarefa de evangelizar constitui a missão essencial da Igreja: ela existe para evangelizar. Num tempo que é novo, marcado por uma cultura diferente, plural, multifacetado e pluricultural, só mudando e adequando os modelos organizativos e os processos de ação pastoral, podemos transmitir o que não muda.
A primeira condição para acolher Jesus e a sua missão, a missão da Igreja, é a conversão. Falar de conversão significa mudança de rumo, mas, mais do que mudar, significa crescer no conhecimento do Senhor, na escuta da Palavra de Deus e na capacidade que esta tem para nos transformar, sendo a comunhão também um dos elementos fundamentais da conversão pastoral.
Nesta caminhada que estamos todos a fazer, quero convosco propor três palavras que são, no meu modo de entender, o mais importante: o discernimento, a misericórdia e a sinodalidade.
O discernimento é a forma de conhecermos a vontade de Deus para a Igreja que está em Aveiro. O processo de discernir exige oração, reflexão e escuta.
“Discernimento” deriva do verbo latino “discernere”, composto por “cernere” (ver claro, distinguir) e precedido de “dis” (entre): por isso, discernir significa “ver claro entre”, observar com muita atenção, escolher separando. O discernimento é uma operação, um processo de conhecimento, que se realiza através de uma observação vigilante e uma experimentação atenta, com o fim de nos orientar na nossa vida, sempre marcada pelos limites e pelo não conhecimento. Como tal, o discernimento é uma operação que compete a cada homem e a cada mulher para viver com consciência, para ser responsável, para exercitar a sua consciência. No cristão, radicando-se nesta dimensão puramente humana, o discernimento manifesta-se como sinergia entre o próprio espírito e o Espírito Santo, o Sopro da vida interior e espiritual e da vida comunitária cristã: «O Espírito dá testemunho ao nosso espírito» (Rm 8,16). O discernimento cristão não se pode reduzir a um método e a uma técnica de introspeção, de maior conhecimento de nós mesmos, mas é um itinerário que requer a intervenção de um dom do Espírito, de uma ação da graça. Escutar o Espírito, escutar a voz de Deus que fala no coração humano, na criação e nos acontecimentos da história, requer reconhecer antes de tudo esta voz entre muitas vozes, na consciência de que a voz de Deus não se impõe, não comanda, mas sugere e propõe, inclusive com um subtil silêncio (cf. 1Re 19,12).
A misericórdia é o nome de Deus e isto exige que vejamos a Igreja como lugar para todos, um hospital de campanha, uma Igreja de portas abertas onde todos cabem. Um dia perguntaram ao Papa Francisco se ele queria levar a cabo a reforma da Igreja e ele respondeu que o que “pretendia era colocar Cristo no centro da Igreja e que seria ele a reformá-la”. Hoje, aqui reunidos, podemos afirmar, com o Papa Leão XIV, que o “Senhor ressuscitado se põe ao lado de cada um de nós, precisamente enquanto percorremos os nossos caminhos – do trabalho e do compromisso, mas também do sofrimento e da solidão – e, com delicadeza infinita, pede-nos que deixemos aquecer o coração. Não se impõe com clamor, não pretende ser reconhecido imediatamente. Com paciência, espera o momento em que os nossos olhos se abrirão para vislumbrar o seu rosto amigo, capaz de transformar a desilusão em espera confiante, a tristeza em gratidão, a resignação em esperança” (Audiência Geral, 8-7-2025).
A sinodalidade é o caminhar juntos dos cristãos com Cristo e para o Reino de Deus, em união com toda a humanidade; orientada para a missão, implica o encontro em assembleia nos diversos níveis da vida eclesial, a escuta recíproca, o diálogo, o discernimento comunitário, a formação de consensos como expressão da presença de Cristo no Espírito e a tomada de uma decisão em corresponsabilidade diferenciada. Nesta linha, compreendemos melhor o que significa que a sinodalidade é dimensão constitutiva da Igreja” (DF 28).
A nossa diocese de Aveiro tem como propósito, no plano pastoral para o triénio (2024-2027), criar e implementar as comunidades pastorais como resposta às urgências e desafios do tempo presente, às solicitações e propostas do povo santo e fiel de Deus.
O calendário que nos propomos percorrer leva-nos à constituição e escuta de grupos de leigos, consagrados, diáconos e sacerdotes em todas as comunidades cristãs, a fazermos sínteses daquilo que o Espírito diz à Igreja que está em Aveiro, para no primeiro trimestre do próximo ano pastoral (outubro-dezembro) realizarmos uma Assembleia sinodal com representantes de toda a Diocese, a fim de implementarmos, progressivamente, as comunidades pastorais, “na compreensão renovada de que caminhar juntos é o estilo de vida e da missão da Igreja” (Leão XIV).
Pedimos a ajuda da Maria, a mulher da escuta e do discernimento e de Santa Joana Princesa, nossa padroeira para este caminho que estamos a percorrer.
Aveiro, 11 de outubro de 2025.
+ António Manuel Moiteiro Ramos