«A Santa Princesa de Aveiro», por Padre Moreira das Neves
A Santa Princesa de Aveiro
Filha de Dom Afonso V e da Rainha Dona Isabel, a Infanta Joana nasceu em Lisboa em 6 de Fevereiro de 1452. Infortúnios da vida começaram cedo: a pequena princesa tinha apenas 3 anos quando ficou órfã de mãe, pelo que a sua educação veio a ser assegurada por uma das damas da corte, Dona Brites de Meneses.
Mais tarde, ela e o seu irmão, o futuro Rei Dom João II, receberam formação humanística com uma tia, a Princesa Dona Filipa.
Desde muito cedo, Dona Joana teve fama de senhora extremamente piedosa e detentora de muito tino. Aliás, tinha apenas 19 anos quando foi chamada a desempenhar funções de regente do Reino, embora sob a tutela protectora do Duque de Bragança, Dom Afonso. O motivo de tão alta distinção prendeu-se com o facto de seu pai e seu irmão, o príncipe herdeiro, terem demandado as terras africanas para levarem a cabo a conquista da marroquina praça de Arzila. Na volta bem sucedida dos irmãos africanos, a princesa alcança de seu pai a permissão para por em prática o sonho que acalentava: a vida religiosa.
Aveiro foi a localidade escolhida e o humilde Mosteiro de Jesus o local onde Dona Joana recolheu em clausura. Durante 4 anos viveu como hóspede do mosteiro, até que, em 25 de Janeiro de 1475 tomou hábito.
Contudo, por razões de saúde e, também, por razões de estado a princesa desistiu da profissão solene, permanecendo, porém no Convento com o hábito, mas sem obrigações de votos públicos. Fazendo assim vida comunitária por simples devoção, tal não impediu que em 1471 emiti-se um voto particular de castidade perpétua.
Durante todos estes episódios não faltaram a Dona Joana propostas de casamento com vários príncipes, todas elas recusadas, em prol da sua religiosidade.
Prova da estima que por ela tinha seu irmão Dom João II confia-lhe, em 1481 a educação de um seu bastardo, o pequeno Dom Jorge, que caso inédito, e por privilégio singular em Portugal, se realizou dentro da clausura do Convento. Mais tarde, reconhecidamente, o jovem dedicou à tia várias composições clássicas, exaltando-lhe as virtudes e o bom gosto.
Durante toda esta vida de recolhimento, Dom Afonso V outorgou-lhe uma tença para sustento das suas necessidades. Renda acrescida, mais tarde, por Dom João II – e para educação de Dom Jorge –, por vários senhorios e rendas, entre eles o da vila de Aveiro.
Mas, o correr dos anos não perdoa e, depois de uma vida edificante em obras de beneficência, Dona Joana morre as 38 anos (1490), suportando com a maior resignação religiosa os sofrimentos decorrentes da doença que contraiu.
Túmulo da Princesa Santa Joana
No coro – santuário do Mosteiro de Jesus, envolvido por uma decoração parietal de talha, azulejos e mármores, sob tecto policromo, encontra-se este túmulo, trabalho português ao gosto italiano, belíssimo exemplar de mármores embutidos policromos. A arca tumular, sustentada por anjos-crianças e assente num bloco central, onde de cada lado está esculpida uma fénix a renascer, ostenta nas faces decoração de símbolos entre motivos vegetalistas.
Advento da morte iniciou oculto
Longe de tudo acabar com a morte de Dona Joana, bem pelo contrário, teve início um culto popular em volta do local onde foi sepultada, junto aos degraus do coro baixo do Convento de Jesus. E o culto teve tal expansão que, no dia 4 de Abril de 1693, o Papa Inocêncio XIII sancionou-o canonicamente pela emissão de uma bula. Mais tarde, foi aprovada a missa e o ofício litúrgico para Portugal e toda a Ordem Dominicana.
Já em 1749, foi tentado o processo de canonização da Infanta Dona Joana, aprovado pelo Papa Bento XIV, a 17 de Março de 1756, que, no entanto, por motivos desconhecidos, não chegou a ser formalizado. Santa Princesa é o nome pelo qual ficou conhecida popularmente a Infanta Dona Joana, constituída, pela Santa Sé, em padroeira da diocese de Aveiro.
A lenda da morte da Princesa
Naquele mês de Maio, os jardins e o pomar do Mosteiro de Jesus, em Aveiro, estavam floridos e verdejantes como nunca se vira.
Muitas plantas tinham sido dispostas e regadas carinhosamente pelas mãos da Princesa Santa Joana, que nesse Mosteiro vivia.
O melhor recreio da filha de Dom Afonso V era deixar a sua cela e passear com as outras freiras à sombra daquelas árvores e no meio daquelas flores.
Chegara, porém, o fim da Santa Princesa. Todos os sinos das igrejas dobravam a finados, e no Mosteiro ia um choro alto, porque ela deixara de viver.
Preparam-lhe o túmulo no coro da igreja e organizam o cortejo funerário desde a cela, passando pelos jardins, para que a vissem pela última vez as plantas que ela estimara tanto.
Deu-se então um caso maravilhoso! À passagem do enterro, começaram a murchar todas as ervas e a desfolhar-se as flores. As folhas e os frutos novos secaram nas árvores e foram caindo tristemente sobre o caixão.
Ninguém pôde conter as lágrimas, ao ver que a própria natureza tomava parte no sentimento que, pela morte da Santa, encheu a Corte e o Reino de Portugal.