Queridos moços e moças:

Sou filha de Reis. Nem por isso fui mais feliz do que a maior parte de vós. Minha Mãe morreu quando eu não tinha ainda quatro anos. Sei o que é a dor e a saudade de não ter mãe.

Antes de morrer, minha Mãe deu-me um irmãozinho. Chamava-se João. Éramos amigos, – é certo – mas de temperamento muito semelhante. Minha preceptora, D. Beatriz de Meneses, dizia que éramos os dois muito teimosos. Quando é que a teimosia deixa de ser teimosia para ser apenas constância e firmeza de carácter?

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Já não conheci D. Pedro, meu avô materno. Morreu em Alfarrobeira. Aquele recontro – que devia ter sido um encontro – entre meu pai e meu avô, amargou para sempre a vida de meu pai, que era seu sobrinho. Dizem que a partir de então se tornou diferente. Eu vivi no rescaldo essa contenda. Vi aquilo de que os homens são capazes quando, em vez de se amarem, se odeiam. Passei a conhecer melhor os homens e as mulheres, as coisas grandes e belas, mas também as coisas mesquinhas de que são capazes. Isso me ajudou a amadurecer mais depressa. Não há nada como o sofrimento e a responsabilidade para fazer amadurecer as pessoas.

Nem todos aqueles que me rodeavam no paço da Rainha, onde vivia confiada à vigilância e ao carinho da fidalga e virtuosa D. Beatriz, eram modelos de vida santa e honesta. As damas da corte de uma princesa não são todas como os anjos da corte celestial. Há as pessoas que passam a vida a ver-se ao espelho, a espreitar por detrás das cortinas o namorao que não chega ou tarda em chegar, as que tecem intrigas umas com as outras, exactamente como as meninas que vós próprios conheceis.

Fez-me Deus a mercê de, muito cedo, me dar conta de que a vida tem um sentido. Quando li no Sagrado Evangelho a palavra de Jesus: « O Reino dos céus é semelhante a uma pérola de elevao preço que um homem encontrou. Depois de a ter encontrao, foi, vendeu tudo quanto tinha e comprou aquela pérola», – quando li estas palavras, pensei que elas eram ditas para mim. Pouco a pouco uma certeza se foi firmando em meu coração: eu quero alcançar esta pérola.

Só o tempo me foi revelando o que estava escrito por detrás desta parábola.

Havia no paço um oratório. Um oratório que era meu, onde eu podia recolher-me sem a presença de aias ou de outras testemunhas. Aí, nesse recolhimento, eu passava horas a pensar. Pensava no amor que Deus nos tem. Amor tão grande que mandou o Seu Filho único ao mundo para nos salvar. Comecei então, a ler os Sagrados Evangelhos, do princípio ao fim. Dizem eles que, além dos Apóstolos, havia também mulheres que seguiam Jesus de perto. Entrou em mim o desejo de ser do grupo dessas mulheres.

Patrim10_132BA ter de decidir-me por esta imitação de Cristo, eu desejava que fosse de uma maneira radical. Teimosa como era, não estava no meu feitio deter-me a meio caminho.

Ficai sabendo que as filhas dos reis têm menos liberdade do que as filhas dos aldeãos. Para ir ao Paço do Rossio, era preciso movimentar meio mundo. Impensável sair sozinha. Como eu, às vezes, tenho inveja de vós! Apetecia-me descer à Ribeira, passar a tarde com uma velhinha, arrumar-lhe a casa, penteá-la, ler-lhe uma passagem da Bíblia. Mas coisas dessas não me eram permitidas. É terrível ser-se filha de rei. Acreditai-me: é uma espécie de escravatura doirada.

Quem me dera ser livre, para não passar as noites numa boite ou tomar parte nesses concursos snob – snob, sim, pois não têm nobreza alguma – de «misses» que vocês (ou alguém por vocês, pobres raparigas!) agora inventaram, mas para realizar um belo ieal de dedicação pelos outros, como fizeram parentes minhas (D. Isabel de Portugal, por exemplo) ou tantas que passaram a vida a fazer o bem e só no Coração de Deus deixaram escrito o seu nome!

Um dia decidi-me. Não esqueçais que sou mulher: tenho a astúcia das filhas de Eva. Meu pai regressava de Arzila, da guerra contra os mouros. Regressava vitorioso. Vesti o meu vestido de veludo verde. O verde é a cor da esperança. Adornei-me com as minhas jóias. Diziam que ia bonita. Quando meu pai desceu em terra, dirigi-me a ele para o saudar. Era a mim que competia fazê-lo, dada a minha condição. Pus em jogo todos os recursos humanísticos que os meus mestres me haviam ensinado.

Recordo-me e que o meu discurso terminada assim: Quando os antigos imperadores regressavam vitoriosos de alguma campanha bélica, para mostrar a sua gratidão aos deuses, ofereciam-lhes o melhor que tinham, dando para o seu serviço a filha mais prendada. Vossa Majestade – que é cristão – não será menos generoso para com o Deus verdadeiro do que os pagãos o eram para com os seus ídolos. Peço-lhe que me permita fazer a profissão e vida religiosa onde Deus for servido chamar-me.

Senti que uma nuvem de tristeza perpassou pelo semblante de meu pai. Meu irmão e os outros nobres que o acompanhavam não esconderam a sua reprovação, olhando uns para os outros e vozeando. Fiz de conta que não percebi. O que interessava era que meu pai dissesse que sim. E meu pai disse que sim.

Não sabeis, queridos moços e moças, quantas barreiras foi preciso vencer para seguir a minha estrela. Até os representantes do povo fizeram sua a questão: que eu não tinha direito de dispor de mim mesma, que havia razões de Estado que se sobrepunham à minha própria vontade. …

Consegui sair (sempre debaixo de escolta!), para o convento cisterciense de Odivelas, nos arrabaldes de Lisboa. Pois mesmo ali vieram, acompanhados de testemunhas e notários, os procuradores do povo, tentando impedir, primeiro com promessas e depois com ameaças, que eu seguisse o meu caminho.

Mas estava decidido. Havia uma força interior que me impelia. Não era o mundo que eu estestava. Longe disso. Era o amor de Jesus Cristo que me chamava a segui-lO, onde mais e eprto O pudesse imitar e servir.

De Odivelas consegui chegar a Coimbra. Não imaginais o que foi essa viagem no pino do Verão de 1472. A minha comitiva, da qual fazia parte o meu próprio pai, insistia em que eu ficasse em Coimbra, no mosteiro onde tinha vivido a Rainha Santa, D. Isabel de Portugal. Era um convento grande – diziam – à beira de uma bela cidade. Não me faltariam ali visitas, conforto e amizade. Mas eu não tinha saído de casa para isso.

Igreja de Santo António dos Portugueses, Roma. Capela-mor, pormenor do lado da Epístola. Óleo s/ tela. Michelangelo Cerruti - c. 1722

Igreja de Santo António dos Portugueses, Roma. Capela-mor, pormenor do lado da Epístola. Óleo s/ tela. Michelangelo Cerruti – c. 1722

O meu desejo e a minha meta era o mosteiro de Jesus de Aveiro – não o mosteiro engrandecido que vós agora conheceis, mas a casa pobre e humilde fundade por D. Brites Leitoa, longe do bulício do mundo. Eu estava informada de que em Aveiro, a minha pequena Lisboa, podia encontrar a humildade e a pobreza.

Houve relutância à minha volta. Senti-me combater sozinha. Foi preciso impor-me. Mas vale a pena ser teimosa, quero dizer, ser constante e ter firmeza. Só quando a firmeza se alia com a verdade é que a teimosia é virtude. Foi em Aveiro que realizei o meu sonho…

Infanta Joana

[Homilia proferida por D. Manuel de Almeida Trindade, Bispo de AVeiro, em 12 de Maio de 1979]

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