3. “QUE PROCURAIS?”. FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS E CRITÉRIOS DE AÇÃO PASTORAL
“No dia seguinte, João estava de novo ali, com dois dos seus discípulos, e, fixando o olhar em Jesus, que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus». Os seus dois discípulos ouviram-no dizer isto e seguiram Jesus. Jesus voltou-se e, ao ver que eles o seguiam, perguntou-lhes: «Que procurais?» Eles responderam-lhe: «Rabi – que, traduzido, significa “Mestre” –, onde moras?» Disse-lhes Ele: «Vinde e vereis!» Foram então; viram onde morava e permaneceram com Ele naquele dia. Era por volta das quatro horas da tarde.” Jo 1, 35-39
3.1. Fundamentos
O concílio Vaticano II deixou-nos como herança eclesiológica a visão da Igreja como Povo de Deus, povo peregrino da história e de todas as geografias.
O Documento Final da Assembleia Sinodal recorda-nos e sublinha elementos fundamentais desta eclesiologia. Diz-nos que “do Batismo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo brota a identidade do Povo de Deus. Ele realiza-se como chamamento à santidade e envio em missão para convidar todos os povos a acolher o dom da salvação” (DF 15).
A Confirmação, que torna presente a graça do Pentecostes na vida do Batizado e da comunidade, é um dom de grande valor para renovar o prodígio de uma Igreja movida pelo fogo da missão, que tem a coragem de sair pelos caminhos do mundo, e a capacidade de se fazer compreender por todos os povos e por todas as culturas. Todos os crentes são chamados a contribuir para este impulso, acolhendo os carismas que o Espírito distribui com abundância a cada um, e comprometendo-se a pô-los ao serviço do Reino com humildade e iniciativa criativa. (DF 25)
A celebração da Eucaristia, especialmente ao domingo, é a primeira e fundamental forma com a qual o santo Povo de Deus se reúne e se encontra. Na celebração eucarística é tanto significada como realizada a unidade da Igreja[1].
O Espírito Santo suscita constantemente no Povo de Deus uma grande variedade de carismas e ministérios. “Também na edificação do Corpo de Cristo existe diversidade de membros e de funções. É um mesmo Espírito que distribui os seus vários dons segundo a sua riqueza e as necessidades dos ministérios para utilidade da Igreja”[2].
Todo o Povo de Deus é sujeito do anúncio do Evangelho. Nele, cada Batizado é convocado para ser corresponsável e protagonista da missão, porque todos somos discípulos missionários[3] .
O Papa Francisco recordava, já em 2015, que o caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio. Sinodalidade significa andar juntos por uma mesma estrada, momento de encontro, de diálogo, de assembleia, com a finalidade de criar sintonia em torno de decisões a serem tomadas.
Sinodalidade e missão estão intimamente ligadas: a missão ilumina a sinodalidade e a sinodalidade impele à missão[4]. Essa é uma relação que deve ser acolhida, debatida, estudada e implementada. Exige adesão pessoal de coração e discernimento comunitário. Como recorda o senhor Bispo na missa Crismal de 2025, “discernir não é defender a própria maneira de pensar, a própria iniciativa e a própria independência, mas renunciar ao saber que procede do mundo, para encontrar o saber que procede de Deus. Isto passa por aprender a reconhecer a ‘voz de Deus’ dentro de nós”.
Assim se constrói a comunhão, que tem na celebração da Eucaristia a sua fonte e o seu ponto culminante, ou seja, a união com Deus Trindade e a unidade entre as pessoas humanas que se realiza em Cristo através do Espírito Santo[5].
Deste modo, a sinodalidade “indica o modo específico de viver e agir da Igreja, Povo de Deus, que manifesta e realiza concretamente o seu ser comunhão no ‘caminhar juntos’, na reunião em assembleia e na participação ativa de todos os seus membros na sua missão evangelizadora”[6].
Esta vivência eclesial, conforme nos recorda o Sínodo, foi já sendo amadurecida por práticas experimentadas de vida sinodal e de discernimento comunitário, aprendendo a harmonizar os dons individuais e a missão comum, cujo testemunho são para nós as Ordens e Congregações, Sociedades de Vida Apostólica, Institutos Seculares, bem como Movimentos, Associações e Obras. Estas têm um contributo especial a dar para o crescimento da sinodalidade na Igreja e na nossa Diocese: “Hoje, muitas comunidades de vida consagrada são um laboratório de interculturalidade que constitui uma profecia para a Igreja e para o mundo. Ao mesmo tempo, a sinodalidade convida – e por vezes desafia – os Pastores das Igrejas locais, bem como os responsáveis da vida consagrada e das Agregações eclesiais, a reforçar as relações para dar vida a um intercâmbio de dons ao serviço da missão comum”[7].
A opção pela criação e implementação das “Comunidades Pastorais”, como resposta às urgências e desafios do tempo presente, às solicitações e propostas do Povo Santo e Fiel de Deus, assenta nestes pressupostos teológicos. Eles são o farol, o alerta permanente, para não se cair na tentação de pensar e realizar uma mera reorganização administrativa, sem chama, sem parresia, sem ardor evangelizador, que deixa uma marca neste mundo[8].
3.2. Definição, natureza e finalidades de uma Comunidade Pastoral
Comunidade Pastoral é uma comunidade de fiéis, centrada em Jesus Cristo, com perfil pastoral missionário em estilo sinodal, configurada como um conjunto de paróquias, que mantendo a sua identidade, é canónica e estavelmente constituída no seio da Diocese, e está chamada a formar uma comunidade viva e orgânica, com critérios pastorais comuns.
A Comunidade Pastoral será confiada a um ou mais presbíteros, em comunhão com outros ministros ordenados e leigos nomeados pelo Bispo. Um dos presbíteros será o coordenador.
Na sua missão, o presbítero coordenador em comunhão com o Bispo, procurará coordenar e dinamizar a ação pastoral da CP, promovendo a participação e corresponsabilidade, e garantindo que, em espírito sinodal, se elabore o projeto pastoral, de modo a garantir a fidelidade ao Evangelho e à missão que Cristo confia à sua Igreja.
O presbítero coordenador, à semelhança dos párocos, deverá ter capacidade de liderança, de escuta, conhecer a realidade, ter capacidade de visão, ser capaz de discernir os carismas e promovê-los, envolver e gerir conflitos e tensões, congregar, dialogar, animar, estar presente e acompanhar, isto é, assumir-se como pastor à imagem do Bom Pastor.
A criação de cada Comunidade Pastoral será instituída por meio de um decreto, que define as paróquias que a constituem.
A Comunidade Pastoral tem como finalidades: promover um renovado e autêntico impulso missionário evangelizador; dinamizar uma pastoral de conjunto integrada; discernir, projetar, programar, implementar, dinamizar, coordenar e avaliar um projeto pastoral; favorecer e promover a participação e a corresponsabilidade; favorecer e promover a formação de todos os seus membros.
3.3. Critérios de ação pastoral
Para promover, desenvolver e dinamizar uma pastoral de conjunto, integrada no serviço da Evangelização, cada Comunidade Pastoral deve ter em conta um conjunto de critérios comuns de ação pastoral.
a. Missão Evangelizadora é o horizonte de toda a caminhada. A presença da Igreja através das Comunidades Pastorais, tem como missão a Evangelização. A Igreja existe para evangelizar, para anunciar o Reino de Deus e apresentar os caminhos da sua realização. “Toda a renovação na Igreja há de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial”[9].
b. Comunhão, princípio agregador na Comunidade Pastoral. Não se trata de impor uma lógica de pensamento único, uniformismo, mas sim de um espírito de encontro e de união nas diversidades legítimas, à imagem da Santíssima Trindade. Realiza-se mediante a escuta da Palavra de Deus, a profissão da mesma fé, a celebração dos sacramentos e a vida de caridade entre todos.
c. Participação pluriministerial. A construção da comunhão para a missão é tarefa de todos e de cada um, segundo a sua vocação, carismas e ministérios, que o Espírito Santo suscita constantemente no Povo de Deus[10]. Por isso, procure-se primeiro conhecer, fortalecer e valorizar os ministérios já existentes (leitor, acólito e catequista) e, depois, discernir a necessidade de novos ministérios, atendendo às necessidades reais das comunidades (por exemplo, acolhimento/ acompanhamento, animação/ coordenação pastoral, comunicação…).
d. Valorização dos sacramentos de iniciação à vida cristã. A iniciação à vida cristã não se pode reduzir à iniciação aos sacramentos da iniciação, tendo em conta o tempo que vivemos e os processos catequéticos estabelecidos. Iniciação à vida cristã é mais que celebração desses sacramentos. Passa pela redescoberta do valor e da fonte inesgotável de graça que cada sacramento concede, passa pela sua valorização na prática de vida e passa pelos critérios de preparação e celebração dos mesmos.
e. Criatividade Pastoral, na resposta aos problemas e desafios decorrentes da relação entre os anseios das pessoas e das comunidades, com o Evangelho do Reino.
f. Formação, inicial e permanente, pessoal e em grupo, local ou diocesana, para saber olhar a realidade com os olhos do Evangelho (leitura crente da realidade), fortalecer e solidificar a fé dos fiéis, leigos e clérigos. Deve ser um imperativo a assumir por todos e que contemple as dimensões humana, espiritual, intelectual, pastoral, teológica e missionária.
g. Definição do horizonte do caminho a percorrer, considerando a realidade de cada Comunidade Pastoral, das pessoas, grupos e paróquias que a compõem; tendo em conta as orientações e opções diocesanas. O projeto pastoral é mais que a elaboração de um calendário: é olhar à realidade (que é sempre superior à ideia), traçar o caminho, avaliar e sonhar juntos o caminho.
[1] Cfr. DF 26.
[2] LG 7.
[3] Cfr. CTI 53.
[4] Cfr. DF 32.
[5] Cfr. DF 31.
[6] CTI 6.
[7] Cfr. DF 65.
[8] Cfr. GE 129.
[9] EO.
[10] Cfr. DF 66.