{"id":1429,"date":"2022-11-09T09:51:33","date_gmt":"2022-11-09T09:51:33","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/v3\/?p=1429"},"modified":"2022-11-09T10:12:41","modified_gmt":"2022-11-09T10:12:41","slug":"dia-mundial-do-pobre-12-de-novembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/v3\/2022\/11\/09\/dia-mundial-do-pobre-12-de-novembro\/","title":{"rendered":"Dia Mundial do Pobre | 12 de novembro"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align:center\"><strong><em>\u201cJesus Cristo fez-se pobre por v\u00f3s\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito da comemora\u00e7\u00e3o do&nbsp;<strong>VI Dia Mundial do Pobre<\/strong>, o Secretariado Diocesano da Pastoral S\u00f3cio Caritativa promove um encontro de reflex\u00e3o com o tema da Mensagem do Papa Francisco para o dia, \u201cJesus Cristo fez-se pobre por v\u00f3s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O evento decorrer\u00e1 no dia 12 de novembro \u00e0s 14:30 no audit\u00f3rio do Semin\u00e1rio de Santa Joana, e conta com a participa\u00e7\u00e3o do Dr. Juan Ambr\u00f3sio, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><em><strong>MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO<br>PARA O VI DIA MUNDIAL DOS POBRES<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\">(XXXIII Domingo do Tempo Comum \u2013 13 de novembro de 2022)<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jesus Cristo fez-Se pobre por v\u00f3s&nbsp;<\/em>(cf.&nbsp;<em>2 Cor<\/em>&nbsp;8, 9)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>1. \u00abJesus Cristo (\u2026) fez-Se pobre por v\u00f3s\u00bb (<em>2 Cor<\/em>&nbsp;8, 9). Com estas palavras, o ap\u00f3stolo Paulo dirige-se aos crist\u00e3os de Corinto para fundamentar o seu compromisso de solidariedade para com os irm\u00e3os necessitados. O&nbsp;<em>Dia Mundial dos Pobres<\/em>&nbsp;torna este ano como uma sadia provoca\u00e7\u00e3o para nos ajudar a refletir sobre o nosso estilo de vida e as in\u00fameras pobrezas da hora atual.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns meses, o mundo estava a sair da tempestade da pandemia, mostrando sinais de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que se esperava voltasse a trazer al\u00edvio a milh\u00f5es de pessoas empobrecidas pela perda do emprego. Abria-se uma nesga de c\u00e9u sereno que, sem esquecer a tristeza pela perda dos pr\u00f3prios entes queridos, prometia ser poss\u00edvel tornar finalmente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es interpessoais diretas, encontrar-se sem embargos nem restri\u00e7\u00f5es. Mas eis que uma nova cat\u00e1strofe assomou ao horizonte, destinada a impor ao mundo um cen\u00e1rio diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia veio juntar-se \u00e0s guerras regionais que, nestes anos, t\u00eam produzido morte e destrui\u00e7\u00e3o. Aqui, por\u00e9m, o quadro apresenta-se mais complexo devido \u00e0 interven\u00e7\u00e3o direta duma \u00absuperpot\u00eancia\u00bb, que pretende impor a sua vontade contra o princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. Vemos repetir-se cenas de tr\u00e1gica mem\u00f3ria e, mais uma vez, as amea\u00e7as rec\u00edprocas de alguns poderosos abafam a voz da humanidade que implora paz.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Quantos pobres gera a insensatez da guerra! Para onde quer que voltemos o olhar, constata-se como os mais atingidos pela viol\u00eancia sejam as pessoas indefesas e fr\u00e1geis. Deporta\u00e7\u00e3o de milhares de pessoas, sobretudo meninos e meninas, para os desenraizar e impor-lhes outra identidade. Voltam a ser atuais as palavras do Salmista perante a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e o ex\u00edlio dos judeus: \u00abJunto aos rios da Babil\u00f3nia nos sentamos a chorar, \/ recordando-nos de Si\u00e3o. \/ Nos salgueiros das suas margens \/ penduramos as nossas harpas. \/ Os que nos levaram para ali cativos \/ pediam-nos um c\u00e2ntico; \/ e os nossos opressores, uma can\u00e7\u00e3o de alegria \/ (\u2026). Como poder\u00edamos n\u00f3s cantar um c\u00e2ntico do Senhor, \/ estando numa terra estranha?\u00bb (<em>Sal<\/em>&nbsp;137, 1-4).<\/p>\n\n\n\n<p>Milh\u00f5es de mulheres, crian\u00e7as e idosos veem-se constrangidos a desafiar o perigo das bombas para p\u00f4r a vida a salvo, procurando abrigo como refugiados em pa\u00edses vizinhos. Entretanto, aqueles que permanecem nas zonas de conflito t\u00eam de conviver diariamente com o medo e a car\u00eancia de comida, \u00e1gua, cuidados m\u00e9dicos e sobretudo com a falta de afeto familiar. Nestes momentos, a raz\u00e3o fica obscurecida e quem sofre as consequ\u00eancias \u00e9 uma multid\u00e3o de gente simples, que vem juntar-se ao n\u00famero j\u00e1 elevado de pobres. Como dar uma resposta adequada que leve al\u00edvio e paz a tantas pessoas, deixadas \u00e0 merc\u00ea da incerteza e da precariedade?<\/p>\n\n\n\n<p>3. Neste contexto t\u00e3o desfavor\u00e1vel, situa-se o&nbsp;<em>VI Dia Mundial dos Pobres<\/em>, com o convite \u2013 tomado do ap\u00f3stolo Paulo \u2013 a manter o olhar fixo em Jesus, que, \u00absendo rico, Se fez pobre por v\u00f3s, para vos enriquecer com a sua pobreza\u00bb (<em>2 Cor<\/em>&nbsp;8, 9). Na sua visita a Jerusal\u00e9m, Paulo encontrara Pedro, Tiago e Jo\u00e3o, que lhe tinham pedido para n\u00e3o esquecer os pobres. De facto, a comunidade de Jerusal\u00e9m debatia-se com s\u00e9rias dificuldades devido \u00e0 carestia que assolara o pa\u00eds. O Ap\u00f3stolo preocupou-se imediatamente em organizar uma grande coleta a favor daqueles pobres. Os crist\u00e3os de Corinto mostraram-se muito sens\u00edveis e dispon\u00edveis. Por indica\u00e7\u00e3o de Paulo, em cada primeiro dia da semana recolhiam quanto haviam conseguido poupar e todos foram muito generosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se o tempo tivesse parado naquele momento, tamb\u00e9m n\u00f3s, cada domingo, durante a celebra\u00e7\u00e3o da Santa Missa, cumprimos o mesmo gesto, colocando em comum as nossas ofertas para que a comunidade possa prover \u00e0s necessidades dos mais pobres. \u00c9 um sinal que os crist\u00e3os sempre cumpriram com alegria e sentido de responsabilidade, para que a nenhum irm\u00e3o e irm\u00e3 faltasse o necess\u00e1rio. J\u00e1 o testemunhava no s\u00e9culo II S\u00e3o Justino que, ao descrever ao imperador Antonino Pio a celebra\u00e7\u00e3o dominical dos crist\u00e3os, escrevia: \u00abNo dia do Sol, como \u00e9 chamado, re\u00fanem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades quer dos campos, e leem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os coment\u00e1rios dos Ap\u00f3stolos ora os escritos dos Profetas. (\u2026) Seguidamente, a cada um dos presentes se distribui e faz participante dos dons sobre os quais foi pronunciada a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, e dos mesmos se envia aos ausentes por meio dos di\u00e1conos. Os que possuem bens em abund\u00e2ncia d\u00e3o livremente o que lhes parece bem, e o que se recolhe p\u00f5e-se \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o daquele que preside. Este socorre os \u00f3rf\u00e3os e vi\u00favas e os que, por motivo de doen\u00e7a ou qualquer outra raz\u00e3o, se encontram em necessidade, assim como os encarcerados e h\u00f3spedes que chegam de viagem; numa palavra, ele toma sobre si o encargo de todos os necessitados\u00bb (<em>Primeira Apologia<\/em>, LXVII, 1-6).<\/p>\n\n\n\n<p>4. Voltando \u00e0 comunidade de Corinto, sucedeu que, depois do entusiasmo inicial, come\u00e7ou a esmorecer o empenho, e a iniciativa proposta pelo Ap\u00f3stolo perdeu impulso. Este \u00e9 o motivo que leva Paulo a escrever com grande paix\u00e3o, relan\u00e7ando a coleta, \u00abpara que, como fostes prontos no querer, tamb\u00e9m o sejais no executar, conforme as vossas possibilidades\u00bb (<em>2 Cor<\/em>&nbsp;8, 11).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, penso na disponibilidade que, nos \u00faltimos anos, moveu popula\u00e7\u00f5es inteiras para abrir as portas a fim de acolher milh\u00f5es de refugiados das guerras no M\u00e9dio Oriente, na \u00c1frica Central e, agora, na Ucr\u00e2nia. As fam\u00edlias abriram as suas casas para deixar entrar outras fam\u00edlias, e as comunidades acolheram generosamente muitas mulheres e crian\u00e7as para lhes proporcionar a devida dignidade. Mas quanto mais se alonga o conflito, tanto mais se agravam as suas consequ\u00eancias. Os povos que acolhem t\u00eam cada vez mais dificuldade em dar continuidade \u00e0 ajuda; as fam\u00edlias e as comunidades come\u00e7am a sentir o peso duma situa\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da emerg\u00eancia. Este \u00e9 o momento de n\u00e3o ceder, mas de renovar a motiva\u00e7\u00e3o inicial. O que come\u00e7amos precisa de ser levado a cabo com a mesma responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>5. Com efeito, a solidariedade \u00e9 precisamente partilhar o pouco que temos com quantos nada t\u00eam, para que ningu\u00e9m sofra. Quanto mais cresce o sentido de comunidade e comunh\u00e3o como estilo de vida, tanto mais se desenvolve a solidariedade. Ali\u00e1s, deve-se considerar que h\u00e1 pa\u00edses onde, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, se verificou um significativo crescimento do bem-estar de muitas fam\u00edlias, que alcan\u00e7aram um estado de vida seguro. Trata-se dum resultado positivo da iniciativa privada e de leis que sustentaram o crescimento econ\u00f3mico, aliado a um incentivo concreto \u00e0s pol\u00edticas familiares e \u00e0 responsabilidade social. Possa este patrim\u00f3nio de seguran\u00e7a e estabilidade alcan\u00e7ado ser agora partilhado com quantos foram obrigados a deixar as suas casas e o seu pa\u00eds para se salvarem e sobreviverem. Como membros da sociedade civil, mantenhamos vivo o apelo aos valores da liberdade, responsabilidade, fraternidade e solidariedade; e, como crist\u00e3os, encontremos sempre na caridade, na f\u00e9 e na esperan\u00e7a o fundamento do nosso ser e da nossa atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>6. \u00c9 interessante notar que o Ap\u00f3stolo n\u00e3o quer obrigar os crist\u00e3os, for\u00e7ando-os a uma obra de caridade; de facto, escreve: \u00abN\u00e3o o digo como quem manda\u00bb. O que ele pretende \u00e9 \u00abp\u00f4r \u00e0 prova a sinceridade do amor\u00bb demonstrado pelos Cor\u00edntios na aten\u00e7\u00e3o e solicitude pelos pobres (cf.<em>&nbsp;2 Cor<\/em>&nbsp;8, 8). Na base do pedido de Paulo, est\u00e1 certamente a necessidade de ajuda concreta, mas a sua inten\u00e7\u00e3o vai mais longe. Convida a realizar a coleta, para que seja sinal do amor testemunhado pelo pr\u00f3prio Jesus. Enfim, a generosidade para com os pobres encontra a sua motiva\u00e7\u00e3o mais forte na op\u00e7\u00e3o do Filho de Deus que quis fazer-Se pobre.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, o Ap\u00f3stolo n\u00e3o hesita em afirmar que esta op\u00e7\u00e3o de Cristo, este seu \u00abdespojamento\u00bb, \u00e9 uma \u00abgra\u00e7a\u00bb \u2013 ali\u00e1s, \u00e9 \u00aba gra\u00e7a de Nosso Senhor Jesus Cristo\u00bb (<em>2 Cor<\/em>&nbsp;8, 9) \u2013 e s\u00f3 acolhendo-a \u00e9 que podemos dar express\u00e3o concreta e coerente \u00e0 nossa f\u00e9. O ensinamento de todo o Novo Testamento revela a prop\u00f3sito uma especial unanimidade, como se verifica nesta passagem da Carta do ap\u00f3stolo Tiago sobre a Palavra que foi semeada nos crentes: \u00abTendes de a p\u00f4r em pr\u00e1tica e n\u00e3o apena ouvi-la, enganando-vos a v\u00f3s mesmos. Porque, quem se contenta com ouvir a palavra, sem a p\u00f4r em pr\u00e1tica, assemelha-se a algu\u00e9m que contempla a sua fisionomia num espelho; mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era. Aquele, por\u00e9m, que medita com aten\u00e7\u00e3o a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera \u2013 n\u00e3o com quem a ouve e logo se esquece, mas como quem a cumpre \u2013 esse encontrar\u00e1 a felicidade ao p\u00f4-la em pr\u00e1tica\u00bb (1, 22-25).<\/p>\n\n\n\n<p>7. No caso dos pobres, n\u00e3o servem ret\u00f3ricas, mas arrega\u00e7ar as mangas e p\u00f4r em pr\u00e1tica a f\u00e9 atrav\u00e9s dum envolvimento direto, que n\u00e3o pode ser delegado a ningu\u00e9m. \u00c0s vezes, por\u00e9m, pode sobrevir uma forma de relaxamento que leva a assumir comportamentos incoerentes, como no caso da indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos pobres. Al\u00e9m disso acontece que alguns crist\u00e3os, devido a um apego excessivo ao dinheiro, fiquem empantanados num mau uso dos bens e do patrim\u00f3nio. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que manifestam uma f\u00e9 fr\u00e1gil e uma esperan\u00e7a fraca e m\u00edope.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que o problema n\u00e3o est\u00e1 no dinheiro em si, pois faz parte da vida di\u00e1ria das pessoas e das rela\u00e7\u00f5es sociais. Devemos refletir, sim, sobre o valor que o dinheiro tem para n\u00f3s: n\u00e3o pode tornar-se um absoluto, como se fosse o objetivo principal. Um tal apego impede de ver, com realismo, a vida de todos os dias e ofusca o olhar, impedindo de reconhecer as necessidades dos outros. Nada de mais nocivo poderia acontecer a um crist\u00e3o e a uma comunidade do que ser ofuscados pelo \u00eddolo da riqueza, que acaba por acorrentar a uma vis\u00e3o ef\u00e9mera e falhada da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto n\u00e3o se trata de ter um comportamento assistencialista com os pobres, como muitas vezes acontece; naturalmente \u00e9 necess\u00e1rio empenhar-se para que a ningu\u00e9m falte o necess\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 o ativismo que salva, mas a aten\u00e7\u00e3o sincera e generosa que me permite aproximar dum pobre como de um irm\u00e3o que me estende a m\u00e3o para que acorde do torpor em que ca\u00ed. Por isso, \u00abningu\u00e9m deveria dizer que se mant\u00e9m longe dos pobres, porque as suas op\u00e7\u00f5es de vida implicam prestar mais aten\u00e7\u00e3o a outras incumb\u00eancias. Esta \u00e9 uma desculpa frequente nos ambientes acad\u00e9micos, empresariais ou profissionais, e at\u00e9 mesmo eclesiais. (\u2026) Ningu\u00e9m pode sentir-se exonerado da preocupa\u00e7\u00e3o pelos pobres e pela justi\u00e7a social\u00bb (Francisco, Exort. ap.&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#O_lugar_privilegiado_dos_pobres_no_povo_de_Deus\">Evangelii gaudium<\/a><\/em>, 201). Urge encontrar estradas novas que possam ir al\u00e9m da configura\u00e7\u00e3o daquelas pol\u00edticas sociais \u00abconcebidas como uma pol\u00edtica&nbsp;<em>para<\/em>&nbsp;os pobres, mas nunca&nbsp;<em>com<\/em>&nbsp;os pobres, nunca&nbsp;<em>dos<\/em>&nbsp;pobres e muito menos inserida num projeto que re\u00fana os povos\u00bb (Francisco, Carta enc.&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html#169\">Fratelli tutti<\/a><\/em>, 169). Em vez disso, \u00e9 preciso tender para assumir a atitude do Ap\u00f3stolo, que podia escrever aos Cor\u00edntios: \u00abN\u00e3o se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade\u00bb (<em>2 Cor<\/em>&nbsp;8, 13).<\/p>\n\n\n\n<p>8. Estamos diante dum paradoxo, que, hoje como no passado, \u00e9 dif\u00edcil de aceitar, porque embate na l\u00f3gica humana: h\u00e1 uma pobreza que nos torna ricos. Recordando a \u00abgra\u00e7a\u00bb de Jesus Cristo, Paulo quer confirmar o que o pr\u00f3prio Senhor pregou, ou seja, que a verdadeira riqueza n\u00e3o consiste em acumular \u00abtesouros na terra, onde a tra\u00e7a e a ferrugem os corroem e os ladr\u00f5es arrombam os muros, a fim de os roubar\u00bb (<em>Mt<\/em>&nbsp;6, 19), mas, antes, no amor rec\u00edproco que nos faz carregar os fardos uns dos outros, para que ningu\u00e9m seja abandonado ou exclu\u00eddo. A experi\u00eancia de fragilidade e limita\u00e7\u00e3o, que vivemos nestes \u00faltimos anos e, agora, a trag\u00e9dia duma guerra com repercuss\u00f5es globais, devem ensinar-nos decididamente uma coisa: n\u00e3o estamos no mundo para sobreviver, mas para que, a todos, seja consentida uma vida digna e feliz. A mensagem de Jesus mostra-nos o caminho e faz-nos descobrir a exist\u00eancia duma pobreza que humilha e mata, e h\u00e1 outra pobreza \u2013 a d\u2019Ele \u2013 que liberta e nos d\u00e1 serenidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A pobreza que mata \u00e9 a mis\u00e9ria, filha da injusti\u00e7a, da explora\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia e da in\u00edqua distribui\u00e7\u00e3o dos recursos. \u00c9 a pobreza desesperada, sem futuro, porque \u00e9 imposta pela cultura do descarte que n\u00e3o oferece perspetivas nem vias de sa\u00edda. \u00c9 a mis\u00e9ria que, enquanto constringe \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de extrema indig\u00eancia, afeta tamb\u00e9m a dimens\u00e3o espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, n\u00e3o \u00e9 por isso que deixa de existir ou de contar. Quando a \u00fanica lei passa a ser o c\u00e1lculo do lucro no fim do dia, ent\u00e3o deixa de haver qualquer freio na ado\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica da explora\u00e7\u00e3o das pessoas: os outros n\u00e3o passam de meios. Deixa de haver sal\u00e1rio justo, hor\u00e1rio justo de trabalho e criam-se novas formas de escravid\u00e3o, suportada por pessoas que, sem alternativa, devem aceitar este veneno de injusti\u00e7a a fim de ganhar o m\u00ednimo para comer.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio, pobreza libertadora \u00e9 aquela que se nos apresenta como uma op\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel para alijar da estiva quanto h\u00e1 de sup\u00e9rfluo e apostar no essencial. De facto, pode-se individuar facilmente o sentido de insatisfa\u00e7\u00e3o que muitos experimentam, porque sentem que lhes falta algo de importante e andam \u00e0 sua procura como extraviados sem rumo. Desejosos de encontrar o que os possa saciar, precisam de ser encaminhados para os humildes, os fr\u00e1geis, os pobres para compreenderem finalmente aquilo de que tinham verdadeiramente necessidade. Encontrar os pobres permite acabar com tantas ansiedades e medos inconsistentes, para atracar \u00e0quilo que verdadeiramente importa na vida e que ningu\u00e9m nos pode roubar: o amor verdadeiro e gratuito. Na realidade, os pobres, antes de ser objeto da nossa esmola, s\u00e3o sujeitos que ajudam a libertar-nos das armadilhas da inquieta\u00e7\u00e3o e da superficialidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Um padre e doutor da Igreja, S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, em cujos escritos se encontram fortes den\u00fancias contra o comportamento dos crist\u00e3os para com os mais pobres, escrevia: \u00abSe n\u00e3o consegues acreditar que a pobreza te fa\u00e7a tornar rico, pensa no teu Senhor e deixa de duvidar quanto a isso. Se Ele n\u00e3o tivesse sido pobre, tu n\u00e3o serias rico; trata-se de algo extraordin\u00e1rio: que da pobreza tenha derivado riqueza abundante. Aqui Paulo entende por \u201criquezas\u201d o conhecimento da piedade, a purifica\u00e7\u00e3o dos pecados, a justi\u00e7a, a santifica\u00e7\u00e3o e milhares doutras coisas boas que nos foram dadas agora e para sempre. Tudo isto, o temos gra\u00e7as \u00e0 pobreza\u00bb (<em>Homilias sobre a II Carta aos Cor\u00edntios<\/em>, 17, 1).<\/p>\n\n\n\n<p>9. O texto do Ap\u00f3stolo a que se refere este&nbsp;<em>VI Dia Mundial dos Pobres<\/em>&nbsp;apresenta o grande paradoxo da vida de f\u00e9: a pobreza de Cristo torna-nos ricos. Se Paulo p\u00f4de comunicar este ensinamento \u2013 e a Igreja difundi-lo e testemunh\u00e1-lo ao longo dos s\u00e9culos \u2013 \u00e9 porque Deus, em seu Filho Jesus, escolheu e seguiu esta estrada. Se Ele Se fez pobre por n\u00f3s, ent\u00e3o a nossa pr\u00f3pria vida ilumina-se e transforma-se, adquirindo um valor que o mundo n\u00e3o conhece nem pode dar. A riqueza de Jesus \u00e9 o seu amor, que n\u00e3o se fecha a ningu\u00e9m mas vai ao encontro de todos, sobretudo de quantos est\u00e3o marginalizados e desprovidos do necess\u00e1rio. Por amor, despojou-Se a Si mesmo e assumiu a condi\u00e7\u00e3o humana. Por amor, fez-Se servo obediente, at\u00e9 \u00e0 morte e morte de cruz (cf.&nbsp;<em>Flp<\/em>&nbsp;2, 6-8). Por amor, fez-Se \u00abp\u00e3o de vida\u00bb (<em>Jo<\/em>&nbsp;6, 35), para que a ningu\u00e9m falte o necess\u00e1rio, e possa encontrar o alimento que nutre para a vida eterna.Tamb\u00e9m em nossos dias parece dif\u00edcil, como foi ent\u00e3o para os disc\u00edpulos do Senhor, aceitar este ensinamento (cf.&nbsp;<em>Jo<\/em>&nbsp;6, 60); mas a palavra de Jesus \u00e9 clara. Se quisermos que a vida ven\u00e7a a morte e que a dignidade seja resgatada da injusti\u00e7a, o caminho a seguir \u00e9 o d\u2019Ele: \u00e9 seguir a pobreza de Jesus Cristo, partilhando a vida por amor, repartindo o p\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia com os irm\u00e3os e irm\u00e3s, a come\u00e7ar pelos \u00faltimos, por aqueles que carecem do necess\u00e1rio, para que se crie a igualdade, os pobres sejam libertos da mis\u00e9ria e os ricos da vaidade, ambos sem esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>10. No passado dia 15 de maio,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/events\/event.dir.html\/content\/vaticanevents\/pt\/2022\/5\/15\/canonizzazione.html\">canonizei o Irm\u00e3o Carlos de Foucauld<\/a>, um homem que, tendo nascido rico, renunciou a tudo para seguir Jesus e com Ele tornar-se pobre e irm\u00e3o de todos. A sua vida eremita, primeiro em Nazar\u00e9 e depois no deserto do Saara, feita de sil\u00eancio, ora\u00e7\u00e3o e partilha, \u00e9 um testemunho exemplar da pobreza crist\u00e3. Ajudar-nos-\u00e1 a medita\u00e7\u00e3o destas suas palavras: \u00abN\u00e3o desprezemos os pobres, os humildes, os oper\u00e1rios; s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 nossos irm\u00e3os em Deus, mas tamb\u00e9m os que mais perfeitamente imitam a Jesus na sua vida exterior. Eles apresentam-nos perfeitamente Jesus, o Oper\u00e1rio de Nazar\u00e9. S\u00e3o primog\u00e9nitos entre os eleitos, os primeiros chamados ao ber\u00e7o do Salvador. Foram a companhia habitual de Jesus, desde o seu nascimento at\u00e9 \u00e0 sua morte (\u2026). Honremo-los, honremos neles as imagens de Jesus e dos seus santos progenitores (\u2026). Tomemos para n\u00f3s [a condi\u00e7\u00e3o] que Ele tomou para Si (\u2026). Nunca deixemos de ser, em tudo, pobres, irm\u00e3os dos pobres, companheiros dos pobres; sejamos os mais pobres dos pobres, como Jesus, e como Ele amemos os pobres e rodeemo-nos deles\u00bb (&nbsp;<em>Coment\u00e1rio ao Evangelho de Lucas<\/em>, Medita\u00e7\u00e3o 263)&nbsp;[1]. Para o Irm\u00e3o Carlos, estas n\u00e3o eram apenas palavras, mas estilo concreto de vida, que o levou a partilhar com Jesus o dom da pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Oxal\u00e1 este&nbsp;<em>VI Dia Mundial dos Pobres<\/em>&nbsp;se torne uma oportunidade de gra\u00e7a, para fazermos um exame de consci\u00eancia pessoal e comunit\u00e1rio, interrogando-nos se a pobreza de Jesus Cristo \u00e9 a nossa fiel companheira de vida.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Roma, S\u00e3o Jo\u00e3o de Latr\u00e3o, na Mem\u00f3ria de Santo Ant\u00f3nio, 13 de junho de 2022.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>FRANCISCO<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>[1] Medita\u00e7\u00e3o n. 263, sobre&nbsp;<em>Lc<\/em>&nbsp;2, 8-20: C.De Foucauld,&nbsp;<em>A Bondade de Deus. Medita\u00e7\u00f5es sobre os santos Evangelhos<\/em>, I, Nouvelle Cit\u00e9 \u2013 Montrouge 1996, 214-216.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cJesus Cristo fez-se pobre por v\u00f3s\u201d No \u00e2mbito da comemora\u00e7\u00e3o do&nbsp;VI Dia Mundial do Pobre, o Secretariado Diocesano da Pastoral S\u00f3cio Caritativa promove um encontro de reflex\u00e3o com o tema da Mensagem do Papa Francisco para o dia, \u201cJesus Cristo fez-se pobre por v\u00f3s\u201d. 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