{"id":110,"date":"2021-10-14T09:50:32","date_gmt":"2021-10-14T09:50:32","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/sinodo\/?p=110"},"modified":"2021-10-14T09:50:32","modified_gmt":"2021-10-14T09:50:32","slug":"discurso-do-santo-padre-francisco-aos-fieis-da-diocese-de-roma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/sinodo\/2021\/10\/14\/discurso-do-santo-padre-francisco-aos-fieis-da-diocese-de-roma\/","title":{"rendered":"DISCURSO DO SANTO PADRE FRANCISCO AOS FI\u00c9IS DA DIOCESE DE ROMA"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-gestor-de-incorporacoes wp-block-embed-gestor-de-incorporacoes wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"18 September 2021, Meeting Diocese of Rome, Pope Francis\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/riogr2FvSV4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Sala Paulo VI &#8211; S\u00e1bado, 18 de setembro de 2021<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Caros irm\u00e3os e irm\u00e3s, bom dia!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como sabeis \u2013 n\u00e3o \u00e9 uma novidade! \u2013, est\u00e1 prestes a come\u00e7ar um processo sinodal, um caminho em que toda a Igreja est\u00e1 empenhada \u00e0 volta do tema \u201cPara uma Igreja sinodal: comunh\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o, miss\u00e3o\u201d: tr\u00eas pilares. Est\u00e3o previstas tr\u00eas fases, que ter\u00e3o lugar entre outubro de 2021 e outubro de 2023. Este itiner\u00e1rio foi concebido como um <em>dinamismo de escuta rec\u00edproca<\/em> \u2013 quero sublinhar isto: um dinamismo deescuta rec\u00edproca \u2013, conduzido a todos os n\u00edveis da Igreja, envolvendo todo o povo de Deus. O Cardeal Vig\u00e1rio e os Bispos Auxiliares devem escutar-se uns aos outros; os sacerdotes devem escutar-se uns aos outros; os religiosos devem escutar-se uns aos outros; os leigos devem escutar-se uns aos outros. E, depois, escutar-se todos uns aos outros. Escutar-se uns aos outros; falar uns com os outros e ouvir-se uns aos outros. N\u00e3o se trata de recolher opini\u00f5es, n\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um inqu\u00e9rito! Trata-se de escutar o Esp\u00edrito Santo, como encontramos no livro do <em>Apocalipse<\/em>: \u201c<em>Quem tem ouvidos oi\u00e7a o que o Esp\u00edrito diz \u00e0s Igrejas<\/em>\u201d (2,7). Ter ouvidos, ouvir, \u00e9 o primeiro empenho. Trata-se de escutar a voz de Deus, perceber a sua presen\u00e7a, intercetar a sua passagem e o seu sopro de vida. Aconteceu com o profeta Elias: ele descobriu que Deus \u00e9 sempre um Deus de surpresas, at\u00e9 no modo como passa e se faz ouvir:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Uma forte rajada de vento fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor n\u00e3o estava no vento. Depois do vento, sentiu-se um terramoto, mas o Senhor n\u00e3o estava no terramoto. Depois do terramoto, acendeu-se um fogo, mas o Senhor n\u00e3o estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa. Quando a ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou \u00e0 entrada da gruta<\/em>\u00bb (<em>1Rs<\/em> 19, 11-13).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que Deus nos fala. E \u00e9 devido a esta \u201cligeira brisa\u201d \u2013 que os exegetas tamb\u00e9m traduzem como \u201cuma fina voz de sil\u00eancio\u201d e outros como \u201cum fio de sil\u00eancio sonoro\u201d \u2013 que devemos p\u00f4r os nossos ouvidos alerta, para escutar esta brisa de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira etapa do processo (outubro 2021 \u2013 abril 2022) diz respeito a cada uma das Igrejas diocesanas. E \u00e9 por isso que estou aqui, como vosso bispo, a partilhar, porque \u00e9 muito importante que a Diocese de Roma se empenhe convictamente neste caminho. Era uma m\u00e1 figura, se a diocese do Papa n\u00e3o se empenhasse nisto. N\u00e3o seria? M\u00e1 figura do Papa e vossa tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema da sinodalidade n\u00e3o \u00e9 um cap\u00edtulo de um tratado de eclesiologia; muito menos, uma moda, um slogan ou um novo termo para usar ou instrumentalizar nas nossas reuni\u00f5es. N\u00e3o! A sinodalidade exprime a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua miss\u00e3o. E, portanto, falamos da <em>Igreja sinodal<\/em>, mas evitando pensar que se trata de um t\u00edtulo entre outros, uma forma de a conceber, mas que prev\u00ea alternativas. N\u00e3o digo isto com base numa opini\u00e3o teol\u00f3gica, nem sequer como um pensamento pessoal, mas estou a seguir o livro que podemos considerar como o primeiro e mais importante \u201cmanual\u201d de eclesiologia, que \u00e9 o livro dos <em>Atos dos Ap\u00f3stolos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A palavra \u201cs\u00ednodo\u201d cont\u00e9m tudo o que \u00e9 \u00fatil para compreender: \u201ccaminhar juntos\u201d. O livro de <em>Atos<\/em> \u00e9 a hist\u00f3ria de um caminho que parte de Jerusal\u00e9m e, atrav\u00e9s da Samaria e da Judeia, continua nas regi\u00f5es da S\u00edria e da \u00c1sia Menor e depois na Gr\u00e9cia e termina em Roma. Este percurso conta a hist\u00f3ria em que a Palavra de Deus e as pessoas que dirigem a sua aten\u00e7\u00e3o e a sua f\u00e9 para essa Palavra caminham juntas. A Palavra de Deus caminha connosco. Todos s\u00e3o protagonistas, ningu\u00e9m pode ser considerado um simples figurante. \u00c9 preciso compreender bem isto: todos s\u00e3o protagonistas. O protagonista j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o Papa, o Cardeal Vig\u00e1rio, os Bispos Auxiliares; n\u00e3o: somos todos protagonistas, e ningu\u00e9m pode ser considerado um simples figurante. Nessa altura, os minist\u00e9rios ainda eram considerados servi\u00e7os aut\u00eanticos. E a autoridade nascia da escuta da voz de Deus e do povo \u2013 nunca os separarem \u2013 o que mantinha \u201cem baixo\u201d aqueles que a recebiam. O \u201cbaixo\u201d da vida, ao qual era preciso prestar o servi\u00e7o da caridade e da f\u00e9. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa dos lugares geogr\u00e1ficos que atravessa que essa hist\u00f3ria est\u00e1 em movimento. Ela exprime uma cont\u00ednua<em> inquietude interior<\/em> \u2013 \u00e9 uma palavra-chave, a <em>inquietude interior<\/em>. Se um crist\u00e3o n\u00e3o sente esta <em>inquietude interior<\/em>, se n\u00e3o a vive, falta-lhe alguma coisa; e esta <em>inquietude interior<\/em> nasce da f\u00e9 de cada um e convida-nos a ponderar o que o que \u00e9 melhor fazer, o que se deve manter ou mudar. Esta hist\u00f3ria ensina-nos que ficar parados n\u00e3o pode ser uma boa condi\u00e7\u00e3o para a Igreja (cf. <em>Evangelii gaudium<\/em>, 23). E o movimento \u00e9 uma consequ\u00eancia da docilidade ao Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 o realizador desta hist\u00f3ria em que todos s\u00e3o protagonistas inquietos, nunca parados.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro e Paulo n\u00e3o s\u00e3o apenas duas pessoas, cada um com o seu car\u00e1ter; s\u00e3o vis\u00f5es inseridas em horizontes maiores do que eles, capazes de se repensarem em rela\u00e7\u00e3o com o que vai acontecendo, testemunhas de um impulso que os coloca em crise \u2013 mais uma express\u00e3o para recordar sempre: colocar em crise \u2013, que os leva a ter ousadia, a questionar, a reconsiderar, a cometer erros e a aprender com eles e, sobretudo, a ter esperan\u00e7a apesar das dificuldades. S\u00e3o disc\u00edpulos do Esp\u00edrito Santo, que os faz descobrir a geografia da salva\u00e7\u00e3o divina, abrindo portas e janelas, derrubando paredes, quebrando correntes, libertando fronteiras. Ent\u00e3o pode ser necess\u00e1rio partir, mudar de dire\u00e7\u00e3o, ultrapassar as convic\u00e7\u00f5es que nos ret\u00eam e nos impedem de nos deslocarmos e de caminharmos juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos ver o Esp\u00edrito a levar Pedro \u00e0 casa de Corn\u00e9lio, o centuri\u00e3o pag\u00e3o, apesar das suas hesita\u00e7\u00f5es. Lembrem-se: Pedro teve uma vis\u00e3o que o perturbava, em que lhe era pedido que comesse coisas consideradas impuras e ele, apesar da certeza de que o que Deus purifica deixa de ser considerado impuro, ficou perplexo. Estava a tentar compreender e chegaram os homens enviados por Corn\u00e9lio. Tamb\u00e9m ele tinha recebido uma vis\u00e3o e uma mensagem. Era um oficial romano, piedoso, que simpatizava com o juda\u00edsmo, mas n\u00e3o ainda suficientemente para ser totalmente judeu ou crist\u00e3o: nenhuma \u201calf\u00e2ndega\u201d religiosa o teria deixado passar. Ele era pag\u00e3o e, no entanto, fora-lhe revelado que as suas ora\u00e7\u00f5es tinham chegado a Deus e que deveria enviar algu\u00e9m para dizer a Pedro para vir a sua casa. Neste suspense, por um lado, Pedro com as suas d\u00favidas e, por outro, Corn\u00e9lio \u00e0 espera naquela zona sombria, \u00e9 o Esp\u00edrito que dissolve a resist\u00eancia de Pedro e abre uma nova p\u00e1gina da miss\u00e3o. \u00c9 assim que o Esp\u00edrito se move. O encontro entre os dois sela uma das mais belas frases do cristianismo. Corn\u00e9lio tinha ido ao seu encontro, tinha-se atirado aos seus p\u00e9s, mas Pedro levantou-o e disse: \u201c<em>Levanta-te, eu tamb\u00e9m sou um homem<\/em>\u201d (<em>At<\/em> 10,26). Todos dizemos isto: \u201c<em>Eu sou homem; eu sou mulher; somos humanos<\/em>\u201d. Todos dever\u00edamos dizer isto, mesmo os Bispos, todos n\u00f3s: \u201c<em>Levanta-te: eu tamb\u00e9m sou um homem<\/em>\u201d. E o texto sublinha que conversou com ele de maneira familiar (cf. v. 27). O cristianismo deve ser sempre humano, humanizante, conciliando diferen\u00e7as e dist\u00e2ncias e transformando-as em familiaridade, em proximidade. Um dos males da Igreja, ou melhor, uma pervers\u00e3o, \u00e9 este clericalismo que separa o padre, o bispo do povo. O bispo e o padre separado do povo \u00e9 um oficial, n\u00e3o \u00e9 um pastor. S\u00e3o Paulo VI gostava muito de citar a m\u00e1xima de Ter\u00eancio: \u201c<em>Sou um Homem, nada do que \u00e9 humano me \u00e9 estranho<\/em>\u201d. O encontro entre Pedro e Corn\u00e9lio resolveu um problema, favoreceu a decis\u00e3o de eles se sentirem livres para pregarem diretamente aos pag\u00e3os, com a convic\u00e7\u00e3o \u2013 s\u00e3o palavras de Pedro \u2013 de \u201c<em>que Deus n\u00e3o faz ace\u00e7\u00e3o de pessoas<\/em>\u201d (<em>At<\/em> 10:34). Em nome de Deus, n\u00e3o se pode discriminar. E a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 um pecado mesmo entre n\u00f3s: \u201c<em>n\u00f3s somos os puros, n\u00f3s somos os eleitos, n\u00f3s somos deste movimento que sabe tudo, n\u00f3s somos&#8230;<\/em>\u201d. N\u00e3o! N\u00f3s somos Igreja, todos juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Vede, n\u00e3o podemos compreender a \u201ccatolicidade\u201d sem nos referirmos a este campo amplo e hospitaleiro, que nunca delimita as fronteiras. Ser Igreja \u00e9 um caminho para entrar nesta amplitude de Deus. Depois, voltando aos <em>Atos dos Ap\u00f3stolos<\/em>, h\u00e1 os problemas que surgem na organiza\u00e7\u00e3o do crescente n\u00famero de crist\u00e3os, e especialmente para prover \u00e0s necessidades dos pobres. Alguns apontam para o facto de n\u00e3o se estar a cuidar das vi\u00favas. O modo com que h\u00e1 de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o \u00e9 reunir a assembleia dos disc\u00edpulos e tomar juntos a decis\u00e3o de designar aqueles sete homens que ficariam empenhados a tempo inteiro com a <em>diaconia<\/em>, com o servi\u00e7o das mesas (<em>At<\/em> 6,1-7). E assim, com o discernimento, com as necessidades, com a realidade da vida e a for\u00e7a do Esp\u00edrito, a Igreja avan\u00e7a, caminha em conjunto, \u00e9 sinodal. Mas est\u00e1 sempre presente o Esp\u00edrito como grande protagonista da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 tamb\u00e9m o confronto entre diferentes vis\u00f5es e expectativas. N\u00e3o devemos ter medo de que isto aconte\u00e7a ainda hoje. Quem dera que se pudesse discutir assim! S\u00e3o sinais de docilidade e de abertura ao Esp\u00edrito. Tamb\u00e9m se pode levantar confrontos que atingem amplitudes dram\u00e1ticas, como aconteceu com o problema da circuncis\u00e3o dos pag\u00e3os, at\u00e9 \u00e0 delibera\u00e7\u00e3o daquele que chamamos o Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m, o primeiro Conc\u00edlio. Como acontece ainda hoje, h\u00e1 um modo r\u00edgido de olhar para as circunst\u00e2ncias, que mortifica a <em>makrothym\u00eda<\/em> de Deus, ou seja, aquela paci\u00eancia do olhar que se alimenta de vis\u00f5es profundas, vis\u00f5es amplas, vis\u00f5es de horizontes alargados: Deus v\u00ea longe, Deus n\u00e3o tem pressa. A rigidez \u00e9 outra pervers\u00e3o que \u00e9 um pecado contra a paci\u00eancia de Deus, \u00e9 um pecado contra esta soberania de Deus. Isto acontece tamb\u00e9m hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha acontecido naquele tempo: alguns, convertidos do juda\u00edsmo, consideravam, na sua autorreferencialidade, que n\u00e3o podia haver salva\u00e7\u00e3o sem se submeterem \u00e0 Lei de Mois\u00e9s. Deste modo, contestava-se Paulo, que proclamava a salva\u00e7\u00e3o diretamente em nome de Jesus. Opor-se \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o teria comprometido o acolhimento dos pag\u00e3os que, entretanto, se iam convertendo. Paulo e Barnab\u00e9 foram enviados a Jerusal\u00e9m pelos Ap\u00f3stolos e pelos anci\u00e3os. N\u00e3o foi f\u00e1cil: diante deste problema, as posi\u00e7\u00f5es pareciam inconcili\u00e1veis, discutiu-se longamente. Era uma quest\u00e3o de reconhecer a liberdade da a\u00e7\u00e3o de Deus, e que n\u00e3o havia obst\u00e1culos que O pudessem impedir de chegar ao cora\u00e7\u00e3o das pessoas, independentemente da sua condi\u00e7\u00e3o de proveni\u00eancia, moral ou religiosa. O que desbloqueou a situa\u00e7\u00e3o foi a ades\u00e3o \u00e0 evid\u00eancia de que \u201cDeus, que conhece cora\u00e7\u00f5es\u201d, o <em>cardignosta<\/em>,conhece os cora\u00e7\u00f5es, Ele pr\u00f3prio apoiava a causa a favor da possibilidade de os gentios serem admitidos \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, \u201c<em>ao conceder-lhes o Esp\u00edrito Santo como a n\u00f3s<\/em>\u201d (<em>At<\/em> 15,8), concedendo assim o Esp\u00edrito Santo tamb\u00e9m aos pag\u00e3os, como a n\u00f3s. Deste modo, prevaleceu o respeito por todas as sensibilidades, moderando os excessos; a experi\u00eancia de Pedro com Corn\u00e9lio foi preciosa: assim, no documento final, encontramos o testemunho do protagonismo do Esp\u00edrito neste caminho de decis\u00f5es e da sabedoria que \u00e9 sempre capaz de inspirar: \u201c<em>Pareceu-nos bem, ao Esp\u00edrito Santo e a n\u00f3s, n\u00e3o vos impor qualquer outra obriga\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d, al\u00e9m do indispens\u00e1vel (<em>At<\/em> 15:28). \u201cN\u00f3s\u201d: Neste S\u00ednodo, vamos pelo caminho de poder dizer \u201cpareceu-nos bem, ao Esp\u00edrito Santo <em>e a n\u00f3s<\/em>&#8220;, porque estareis em di\u00e1logo cont\u00ednuo uns com os outros sob a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. N\u00e3o se esque\u00e7am desta f\u00f3rmula: \u201c<em>Pareceu-nos bem, ao Esp\u00edrito Santo e a n\u00f3s, n\u00e3o vos impor qualquer outra obriga\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d: pareceu-nos bem, ao Esp\u00edrito Santo <em>e a n\u00f3s<\/em>. \u00c9 assim que deveis tentar expressar-vos neste percurso sinodal, neste caminho sinodal. Se o Esp\u00edrito n\u00e3o estiver presente, ser\u00e1 um parlamento diocesano, mas n\u00e3o um S\u00ednodo. N\u00e3o estamos a fazer um parlamento diocesano; n\u00e3o estamos a fazer um estudo sobre isto ou aquilo. N\u00e3o! Estamos a fazer um caminho de nos escutarmos uns aos outros e de escutarmos o Esp\u00edrito Santo, de discutir e tamb\u00e9m de discutir com o Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 uma maneira de rezar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Esp\u00edrito Santo e n\u00f3s\u201d. Al\u00e9m disso, h\u00e1 sempre a tenta\u00e7\u00e3o de fazer tudo sozinhos, dando express\u00e3o a uma <em>eclesiologia substitutiva<\/em> \u2013 h\u00e1 tantas eclesiologias substitutivas \u2013 como se, depois de ter subido ao C\u00e9u, o Senhor tivesse deixado um vazio por preencher, e n\u00f3s \u00e9 que o preenchemos. N\u00e3o! O Senhor deixou-nos o Esp\u00edrito! Mas as palavras de Jesus s\u00e3o claras: \u201c<em>Eu pedirei ao Pai, que vos dar\u00e1 outro Par\u00e1clito, para estar sempre convosco. [&#8230;] N\u00e3o vos deixarei \u00f3rf\u00e3os<\/em>\u201d (<em>Jo<\/em> 14,16.18). Para o cumprimento desta promessa, a Igreja \u00e9 um sacramento, como se afirma na <em>Lumen Gentium<\/em>, n. 1: \u201c<em>A Igreja, em Cristo, \u00e9 como que o sacramento, ou seja, o sinal e o instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano<\/em>\u201d. Nesta frase, que recolhe o testemunho do Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m, est\u00e1 o desmentido de quem insiste em tomar o lugar de Deus, com a pretens\u00e3o de modelar a Igreja com base nas suas convic\u00e7\u00f5es culturais e hist\u00f3ricas, for\u00e7ando-a a ter fronteiras armadas, alf\u00e2ndegas culpabilizantes, a espiritualidades que blasfemam contra a gratuidade da a\u00e7\u00e3o envolvente de Deus. Quando a Igreja, pelas suas palavras e a\u00e7\u00f5es, \u00e9 testemunha do amor incondicional de Deus, da sua amplitude hospitaleira, ela exprime verdadeiramente a sua pr\u00f3pria catolicidade. E \u00e9 <em>impelida<\/em>, interiormente e exteriormente, a atravessar os espa\u00e7os e os tempos. O impulso e a capacidade v\u00eam do Esp\u00edrito: \u201c<em>Recebereis a for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, que descer\u00e1 sobre v\u00f3s, e sereis minhas testemunhas em Jerusal\u00e9m e em toda a Judeia e na Samaria e at\u00e9 aos confins da terra<\/em>\u201d (<em>At<\/em> 1,8). Receber o poder do Esp\u00edrito Santo para sermos testemunhas: este \u00e9 o caminho da Igreja e n\u00f3s seremos Igreja se formos por este caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Igreja sinodal significa Igreja sacramento desta promessa \u2013 ou seja, que o Esp\u00edrito estar\u00e1 connosco \u2013 que se manifesta cultivando a intimidade com o Esp\u00edrito e com o mundo que h\u00e1 de vir. Haver\u00e1 sempre discuss\u00f5es, gra\u00e7as a Deus, mas as solu\u00e7\u00f5es devem ser procuradas dando a palavra a Deus e \u00e0s suas vozes no meio de n\u00f3s; rezando e abrindo os olhos para tudo o que nos rodeia; praticando uma vida fiel ao Evangelho; questionando a Revela\u00e7\u00e3o de acordo com uma <em>hermen\u00eautica peregrina<\/em> que sabe <em>preservar<\/em> o caminho iniciado nos <em>Atos dos Ap\u00f3stolos<\/em>. E isto \u00e9 importante: o modo de compreender, de interpretar. Uma <em>hermen\u00eautica peregrina<\/em>, ou seja, que est\u00e1 a caminho. O caminho que come\u00e7ou depois do Conc\u00edlio? N\u00e3o! Come\u00e7ou com os primeiros Ap\u00f3stolos, e continua. Quando a Igreja para, deixa de ser Igreja para ser uma bela associa\u00e7\u00e3o piedosa, porque engaiola o Esp\u00edrito Santo. Uma <em>hermen\u00eautica peregrina<\/em> que sabe preservar o caminho iniciado nos <em>Atos dos Ap\u00f3stolos<\/em>. Caso contr\u00e1rio, estar\u00edamos a humilhar o Esp\u00edrito Santo. Gustav Mahler \u2013 j\u00e1 o disse noutras ocasi\u00f5es \u2013 defendia que a fidelidade \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste em adorar as cinzas, mas em conservar o fogo. Pergunto-vos: Antes de iniciar este caminho sinodal, estais mais inclinados a qu\u00ea? A conservar as cinzas da Igreja, ou seja, da vossa associa\u00e7\u00e3o, do vosso grupo? Ou a conservar o fogo? Estais mais inclinados para adorar as vossas coisas, que vos fecham \u2013 eu sou de Pedro, eu sou de Paulo; eu dou desta associa\u00e7\u00e3o, v\u00f3s sois daqueloutra; eu sou padre, eu sou bispo \u2013 ou sentis-vos chamados a conservar o <em>fogo<\/em> do Esp\u00edrito? Gustav Mahler foi um grande compositor, mas \u00e9 tamb\u00e9m um mestre da sabedoria com esta reflex\u00e3o. A <em>Dei Verbum<\/em> (n. 8), citando a <em>Carta aos Hebreus<\/em>, afirma: \u201c<em>Deus, que outrora falou<\/em> (cf. <em>Heb<\/em> 1,1),<em> dialoga sem interrup\u00e7\u00e3o com a esposa do seu amado Filho<\/em>\u201d. H\u00e1 uma f\u00f3rmula de S\u00e3o Vicente de L\u00e9rins que \u00e9 muito feliz. Comparando o ser humano em crescimento e a Tradi\u00e7\u00e3o transmitida de uma gera\u00e7\u00e3o \u00e0 outra, ele afirma que n\u00e3o se pode conservar o \u201cdep\u00f3sito da f\u00e9\u201d sem o fazer progredir: \u201c<em>consolidando-se com os anos, desenvolvendo-se com o tempo, aprofundando-se com a idade<\/em>\u201d (<em>Commonitorium primum<\/em>, 23,9: \u201c<em>ut annis consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate<\/em>\u201d). Este \u00e9 o estilo do nosso caminho: as realidades, se n\u00e3o caminham, s\u00e3o como as \u00e1guas. As realidades teol\u00f3gicas s\u00e3o como a \u00e1gua: se a \u00e1gua n\u00e3o corre e ficar estagnada, \u00e9 a primeira a entrar em putrefa\u00e7\u00e3o. Uma Igreja estagnada come\u00e7a a apodrecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Vede como a nossa Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma massa fermentada, uma realidade em fermento na qual podemos reconhecer o crescimento, e na farinha amassada uma comunh\u00e3o que se realiza em movimento: caminhar em conjunto realiza a verdadeira comunh\u00e3o. \u00c9 mais uma vez o livro dos <em>Atos dos Ap\u00f3stolos<\/em> a ajudar-nos, mostrando-nos que a comunh\u00e3o n\u00e3o suprime as diferen\u00e7as. \u00c9 a surpresa do Pentecostes, quando l\u00ednguas diferentes n\u00e3o s\u00e3o obst\u00e1culos: embora fossem estranhos uns aos outros, gra\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, \u201c<em>ouve cada um de n\u00f3s falar na sua pr\u00f3pria l\u00edngua materna<\/em>\u201d (<em>At<\/em> 2,8). Sentir-se em casa; diferentes, mas solid\u00e1rios no caminho. Desculpai-me por ser t\u00e3o longo, mas o S\u00ednodo \u00e9 um assunto s\u00e9rio e \u00e9 por isso que tomei a liberdade de falar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao processo sinodal, a fase diocesana \u00e9 muito importante, porque realiza a ausculta\u00e7\u00e3o da totalidade dos batizados, o sujeito do <em>sensus fidei<\/em> infal\u00edvel <em>in credendo<\/em>. H\u00e1 muitas resist\u00eancias para superar a imagem de uma Igreja rigidamente dividida entre chefes e subordinados, entre os que ensinam e os que t\u00eam de aprender, esquecendo que Deus gosta de inverter as posi\u00e7\u00f5es: \u201c<em>Derrubou os poderosos dos seus tronos, exaltou os humildes<\/em>\u201d (<em>Lc<\/em> 1,52), disse Maria. Caminhar juntos descobre que a sua linha \u00e9 mais a horizontalidade que a verticalidade. A Igreja sinodal restaura o horizonte a partir do qual nasce o sol Cristo: erguer monumentos hier\u00e1rquicos significa cobri-lo. Os pastores caminham com o povo: n\u00f3s, pastores, caminhamos com o povo, umas vezes \u00e0 frente, outras no meio e outras atr\u00e1s. O bom pastor deve caminhar assim: \u00e0 frente para guiar, no meio para encorajar e n\u00e3o esquecer o cheiro do rebanho, atr\u00e1s porque o povo tamb\u00e9m tem \u201cfaro\u201d. Tem faro para encontrar novos caminhos ou para reencontrar o caminho que tinha perdido. Quero sublinhar isto, tamb\u00e9m aos bispos e padres da diocese. No seu caminho sinodal, eles que se perguntem: \u201cEu sou capaz de caminhar, de me mover, \u00e0 frente, no meio e atr\u00e1s? Ou s\u00f3 estou na c\u00e1tedra, com mitra e b\u00e1culo?\u201d. Pastores misturados, mas pastores, n\u00e3o rebanho: o rebanho sabe que somos pastores, o rebanho sabe a diferen\u00e7a. Na frente para mostrar o caminho, no meio para ouvir o que o povo est\u00e1 a sentir e atr\u00e1s para ajudar aqueles que ficam um pouco para tr\u00e1s e para deixar que o povo veja um pouco com o seu faro onde est\u00e3o as melhores ervas.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>sensus fidei<\/em> garante que <em>todos<\/em> est\u00e3o qualificados com a dignidade da fun\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica de Jesus Cristo (cf. <em>Lumen Gentium<\/em>, 34-35), de modo a poderem discernir quais s\u00e3o os caminhos do Evangelho no presente. \u00c9 o \u201cfaro\u201d das ovelhas. Mas estejamos atentos que, na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, todos somos ovelhas em rela\u00e7\u00e3o ao Pastor que \u00e9 o Senhor. A imagem ajuda-nos a compreender as duas dimens\u00f5es que contribuem para este \u201cfaro\u201d. Uma pessoal e outra comunit\u00e1ria: somos ovelhas e fazemos parte do rebanho que, neste caso, representa a Igreja. Estamos a ler no Brevi\u00e1rio, no Of\u00edcio de Leitura, o \u201c<em>De pastoribus<\/em>\u201d de [Santo] Agostinho; e ele diz-nos a\u00ed: \u201c<em>Convosco<\/em> sou uma ovelha, <em>para<\/em> v\u00f3s sou um pastor\u201d. <em>Estes dois aspetos, pessoal e eclesial, s\u00e3o insepar\u00e1veis:<\/em> n\u00e3o pode haver <em>sensus fidei<\/em> sem participa\u00e7\u00e3o na vida da Igreja, que n\u00e3o \u00e9 somente o ativismo cat\u00f3lico, deve haver sobretudo aquele \u201csentimento\u201d que \u00e9 alimentado pelos \u201c<em>sentimentos de Cristo<\/em>\u201d (<em>Fl<\/em> 2,5).<\/p>\n\n\n\n<p>O exerc\u00edcio do <em>sensus fidei<\/em> n\u00e3o pode ficar reduzido \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o e ao confronto de opini\u00f5es que possamos ter sobre este ou aquele tema, sobre um aspeto particular da doutrina ou sobre uma regra de disciplina. N\u00e3o! Isso s\u00e3o instrumentos, verbaliza\u00e7\u00f5es, express\u00f5es dogm\u00e1ticas ou disciplinares. Mas n\u00e3o deve prevalecer a ideia de distinguir maiorias e minorias: isso \u00e9 o que faz um parlamento. Quantas vezes os \u201cdescartados\u201d se tornaram \u201cpedras angulares\u201d (cf. <em>Sl<\/em> 118,22; <em>Mt<\/em> 21,42), os \u201cque estavam longe\u201d passaram a \u201cestar perto\u201d (<em>Ef<\/em> 2,13). Os marginalizados, os pobres, os que n\u00e3o t\u00eam esperan\u00e7a foram eleitos como sacramento de Cristo (cf. <em>Mt<\/em> 25,31-46). A Igreja \u00e9 assim. E quando alguns grupos se quiseram destacar demasiado, esses grupos acabaram sempre mal, at\u00e9 mesmo na nega\u00e7\u00e3o da Salva\u00e7\u00e3o, em heresias. Pensemos naquelas heresias que tinham a pretens\u00e3o de governar a Igreja, como o pelagianismo e, depois, o jansenismo. Todas as heresias acabaram mal. O gnosticismo e o pelagianismo s\u00e3o tenta\u00e7\u00f5es constantes da Igreja. Estamos t\u00e3o preocupados, e com raz\u00e3o, que tudo deve honrar as celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, e isso \u00e9 bom \u2013 ainda que, muitas vezes, acabemos por nos confortar apenas a n\u00f3s pr\u00f3prios \u2013 mas S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo adverte-nos: \u201c<em>Queres honrar o corpo de Cristo? N\u00e3o permitas que seja objeto de desprezo nos seus membros, isto \u00e9, nos pobres, que n\u00e3o t\u00eam roupa para se cobrir. N\u00e3o o honres aqui na igreja com tecidos de seda, se, depois, fora n\u00e3o cuidas dele, quando sofre de frio e nudez. Aquele que disse: \u2018Isto \u00e9 o meu corpo\u2019, confirmando este facto por palavras, disse tamb\u00e9m: \u2018Vistes-me com fome e n\u00e3o me destes de comer\u2019, e \u2018Todas as vezes que n\u00e3o fizestes isto a um destes pequeninos, n\u00e3o o fizestes a mim\u2019<\/em>\u201d. (<em>Homilias sobre o Evangelho de Mateus<\/em>, 50,3). \u201cMas, padre, o que est\u00e1s a dizer? Os pobres, os mendigos, os jovens toxicodependentes, todos estes que a sociedade descarta, fazem parte do S\u00ednodo?\u201d. Sim, meu caro, sim, minha cara: n\u00e3o sou eu que o digo, \u00e9 o Senhor que o diz: eles fazem parte da Igreja. A ponto de, se n\u00e3o os chamares \u2013 veremos como \u2013 ou se n\u00e3o fores ter com eles para passar algum tempo com eles, para <em>ouvir<\/em> n\u00e3o o que eles dizem, mas o que ouvem, at\u00e9 os insultos que te dirigem, n\u00e3o est\u00e1s a fazer bem o S\u00ednodo. O S\u00ednodo vai at\u00e9 aos limites, engloba todos. O S\u00ednodo \u00e9 tamb\u00e9m dar espa\u00e7o ao di\u00e1logo sobre as nossas mis\u00e9rias, as mis\u00e9rias que eu, como vosso bispo, tenho, as mis\u00e9rias que t\u00eam os bispos auxiliares, as mis\u00e9rias que t\u00eam os sacerdotes e os leigos e os que pertencem \u00e0s associa\u00e7\u00f5es; tomar toda esta mis\u00e9ria! Mas se n\u00e3o incluirmos os miser\u00e1veis \u2013 entre aspas \u2013 da sociedade, os descartados, nunca seremos capazes de nos encarregar das nossas mis\u00e9rias. E isto \u00e9 importante: que no di\u00e1logo possam emergir as nossas pr\u00f3prias mis\u00e9rias, sem justifica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tenhais medo!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso sentir que fazemos parte de um grande povo destinat\u00e1rio das promessas divinas, abertas a um futuro que espera que cada um possa participar no banquete preparado por Deus para todos os povos (cf. <em>Is<\/em> 25,6). E aqui gostaria de salientar que mesmo sobre o conceito de \u201cPovo de Deus\u201d pode haver hermen\u00eauticas r\u00edgidas e antag\u00f3nicas, ficando presos \u00e0 ideia de uma exclusividade, de um privil\u00e9gio, como aconteceu com a interpreta\u00e7\u00e3o do conceito de \u201celei\u00e7\u00e3o\u201d que os profetas corrigiram, indicando como devia ser corretamente entendido. N\u00e3o se trata de um privil\u00e9gio \u2013 ser Povo de Deus \u2013 mas de um dom que algu\u00e9m recebe\u2026 Para si pr\u00f3prio? N\u00e3o! Para todos. O dom \u00e9 para dar: esta \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o. \u00c9 um dom que algu\u00e9m recebe para todos, que n\u00f3s recebemos para os outros, \u00e9 um dom que tamb\u00e9m \u00e9 uma responsabilidade. A responsabilidade de testemunhar com a\u00e7\u00f5es e n\u00e3o apenas com palavras as maravilhas de Deus, que, se forem conhecidas, ajudam as pessoas a descobrir a sua exist\u00eancia e a acolher a sua salva\u00e7\u00e3o. A elei\u00e7\u00e3o \u00e9 um dom. E a quest\u00e3o \u00e9: o meu ser crist\u00e3o, a minha confiss\u00e3o crist\u00e3, como \u00e9 que o ofere\u00e7o, como \u00e9 que o dou? A vontade salv\u00edfica universal de Deus oferece-se \u00e0 hist\u00f3ria, a toda a humanidade atrav\u00e9s da encarna\u00e7\u00e3o do seu Filho, para que todos, atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o da Igreja, possam tornar-se seus filhos e irm\u00e3os e irm\u00e3s entre si. \u00c9 deste modo que se realiza a reconcilia\u00e7\u00e3o universal entre Deus e a humanidade, aquela unidade de todo o g\u00e9nero humano, da qual a Igreja \u00e9 sinal e instrumento (cf. <em>Lumen Gentium<\/em>, 1). J\u00e1 antes do Conc\u00edlio Vaticano II tinha amadurecido a reflex\u00e3o, elaborada com base num estudo cuidadoso dos Padres, que o Povo de Deus est\u00e1 inclinado para a realiza\u00e7\u00e3o do Reino, para a unidade do g\u00e9nero humano criado e amado por Deus. E a Igreja tal como a conhecemos e experimentamos, na sucess\u00e3o apost\u00f3lica, esta Igreja<em> deve sentir que est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com esta elei\u00e7\u00e3o universal<\/em> e, por isso mesmo, deve cumprir a sua miss\u00e3o. Foi com este esp\u00edrito que escrevi a <em>Fratelli tutti<\/em>. A Igreja, como dizia S\u00e3o Paulo VI, \u00e9 mestra de humanidade, que hoje tem o objetivo de tornar-se uma escola de fraternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque \u00e9 que vos digo estas coisas? Porque no caminho sinodal, a escuta deve ter em conta o <em>sensus fidei<\/em>, mas n\u00e3o deve ignorar todos aqueles \u201cpressentimentos\u201d encarnados onde n\u00e3o os esperar\u00edamos: pode haver um \u201cfaro sem cidadania\u201d, mas n\u00e3o \u00e9 menos eficaz. O Esp\u00edrito Santo, na sua liberdade, n\u00e3o conhece confins, nem sequer se deixa limitar pelas perten\u00e7as. Se a par\u00f3quia \u00e9 a casa de todos no bairro, n\u00e3o um clube exclusivo, aten\u00e7\u00e3o: deixai as portas e janelas abertas, n\u00e3o vos limiteis a considerar apenas aqueles que frequentam ou pensam como v\u00f3s \u2013 que ser\u00e3o 3, 4 ou 5%, n\u00e3o mais. Deixai entrar toda a gente\u2026 Deixai-vos ir ao encontro e deixai que vos interroguem, que as suas perguntas sejam as vossas perguntas, deixai caminhar juntos: o Esp\u00edrito conduzir-vos-\u00e1, confiai no Esp\u00edrito. N\u00e3o tenhais medo de entrar em di\u00e1logo e deixai-vos inquietar pelo di\u00e1logo: \u00e9 o di\u00e1logo da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fiqueis desencantados, <em>preparai-vos para as surpresas<\/em>. H\u00e1 um epis\u00f3dio no livro de <em>N\u00fameros<\/em> (cap. 22) que fala de uma burra que se tornar\u00e1 profetisa de Deus. Os hebreus est\u00e3o a concluir a longa viagem que os levar\u00e1 \u00e0 terra prometida. A sua passagem assusta o rei Balac de Moab, que confia nos poderes do mago Bala\u00e3o para parar o povo, na esperan\u00e7a de evitar uma guerra. O mago, um crente \u00e0 sua maneira, pergunta a Deus o que fazer. Deus diz-lhe para n\u00e3o alinhar com o rei, que, no entanto, insiste, e por isso ele cede, monta em cima de uma burra para cumprir a ordem que recebeu. Mas a burra muda de dire\u00e7\u00e3o porque v\u00ea um anjo com uma espada desembainhada ali parado para representar a oposi\u00e7\u00e3o de Deus. Bala\u00e3o puxa-a, bate-lhe, sem conseguir fazer que volte ao caminho. At\u00e9 que a burra come\u00e7a a falar, iniciando um di\u00e1logo que abrir\u00e1 os olhos do mago, transformando a sua miss\u00e3o de maldi\u00e7\u00e3o e morte numa miss\u00e3o de b\u00ean\u00e7\u00e3o e vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta hist\u00f3ria ensina-nos a ter confian\u00e7a que o Esp\u00edrito far\u00e1 sempre ouvir a sua voz. Mesmo uma burra pode tornar-se a voz de Deus, abrir-nos os olhos e converter as nossas dire\u00e7\u00f5es erradas. Se uma burra \u00e9 capaz de o fazer, quanto mais um batizado, uma batizada, um padre, um bispo, um papa. Basta que nos confiemos ao Esp\u00edrito Santo que usa todas as criaturas para nos falar: s\u00f3 nos pede que limpemos os ouvidos para ouvirmos bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Vim aqui para vos encorajar a levar a s\u00e9rio este processo sinodal e para vos dizer que o Esp\u00edrito Santo precisa de v\u00f3s. E isto \u00e9 verdade: o Esp\u00edrito Santo precisa de n\u00f3s. Ouvi-o escutando-vos uns aos outros. N\u00e3o deixeis ningu\u00e9m de fora ou para tr\u00e1s. Ser\u00e1 bom para a Diocese de Roma e para toda a Igreja, que n\u00e3o se refor\u00e7a apenas reformando das estruturas \u2013 isto \u00e9 um grande engano! \u2013, dando instru\u00e7\u00f5es, propondo retiros e confer\u00eancias ou \u00e0 for\u00e7a de diretivas e programas \u2013 isto \u00e9 bom, mas como parte de algo mais \u2013 mas se redescobrir que \u00e9 um povo que quer caminhar em conjunto, entre n\u00f3s e com a humanidade. Um povo, o de Roma, que cont\u00e9m a variedade de todos os povos e de todas as condi\u00e7\u00f5es: que riqueza extraordin\u00e1ria, na sua complexidade! Mas \u00e9 preciso sair dos 3-4% que representam os mais pr\u00f3ximos e ir mais longe para escutar os outros, que por vezes vos h\u00e3o de insultar, vos h\u00e3o de expulsar, mas \u00e9 necess\u00e1rio ouvir o que eles pensam, sem querer impor as nossas coisas: deixar que o Esp\u00edrito nos fale.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste tempo de pandemia, o Senhor impele a miss\u00e3o de uma Igreja para que seja sacramento do cuidado. O mundo elevou o seu grito, manifestou a sua vulnerabilidade: o mundo precisa de cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p>Coragem! Em frente! Obrigado!<\/p>\n\n\n\n<p><em>Francisco<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sala Paulo VI &#8211; S\u00e1bado, 18 de setembro de 2021 Caros irm\u00e3os e irm\u00e3s, bom dia! 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