{"id":96,"date":"2015-01-20T15:51:40","date_gmt":"2015-01-20T15:51:40","guid":{"rendered":"https:\/\/princesajoanadeportugal.wordpress.com\/?p=96"},"modified":"2015-01-20T15:51:40","modified_gmt":"2015-01-20T15:51:40","slug":"o-ideal-de-uma-princesa-breve-biografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/2015\/01\/20\/o-ideal-de-uma-princesa-breve-biografia\/","title":{"rendered":"O IDEAL DE UMA PRINCESA | Breve Biografia"},"content":{"rendered":"<p>Autor: <em><strong>Mons. Jo\u00e3o Gaspar<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>SANTA JOANA PRINCESA, TORNADA AVEIRENSE EM SUA LIVRE ESCOLHA E DEVO\u00c7\u00c3O, N\u00c3O ESQUECER\u00c1 QUEM A RECORDA<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foi temeridade da minha par\u00acte; anui num sentido de aut\u00eantico servi\u00e7o e de sincera devo\u00e7\u00e3o. Servi\u00ac\u00e7o \u00e0 comunidade dos crist\u00e3os avei\u00acrenses que, aqui e hoje, lembram e veneram a celeste Padroeira; de\u00acvo\u00e7\u00e3o humilde e fraterna para com aquela que eu, desde h\u00e1 muito, considero como singular irm\u00e3 e espe\u00accial amiga e protetora.<br \/>\nN\u00e3o vou fazer uma biografia; em tra\u00e7os r\u00e1pidos e desarticulados, apenas focarei o grande ideal que norteou a vida da Princesa \u2014 vida que, apesar de breve, ainda para n\u00f3s continua a refulgir em luz de santidade e de amor a Deus e ao pr\u00f3ximo.<br \/>\nComo refere a cronista do Mosteiro de Jesus, contempor\u00e2nea de Santa Joana, com quem viveu no convento e a cuja morte assistiu, crescia nesta excelente Infanta e singular Princesa um grande fervor e um divino amor ao Reino e \u00e0 Gl\u00f3ria eterna; porque o seu feitio e forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o se coadunassem com o Reino terreno de que tinha todo o prazer e abastan\u00e7a, de riquezas e deleites segundo convinha a seu real estado e de el-rei seu pai, desde novita mais lhe apetecia dedicar-se \u00e0 reflex\u00e3o espiritual. Evitava toda a ociosidade em ver ouvir e contar coisas, v\u00e3s e sup\u00e9rfluas e ainda no pa\u00e7o; em Lisboa ocupava na ora\u00e7\u00e3o certas horas do dia encerrada no orat\u00f3rio particular onde ningu\u00e9m entrava. Ali mergulhada na sua consci\u00eancia, qual santu\u00e1rio em que se encontrava consigo e com Deus, admirava e contemplava espiritualmente as maravilhas do Amor Eterno e, quanto mais admirava e melhor contemplava, mais livre se sentia, porque a liberdade de Deus era a sua liberdade.<br \/>\nD. Afonso V, seu pai, ficara vi\u00fa\u00acvo em idade mo\u00e7a e apenas com os dois filhos, a quem dedicava um amor sem igual \u2014 ela e o Pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o; por isso, ia ele muitas ve-zes ao pa\u00e7o de D. Joana. As suas distrac\u00e7\u00f5es eram com a filha, co\u00acmo antes foram com a rainha D. Isabel. E, nessas alegres festas e frequentes ser\u00f5es, D. Joana apare\u00accia elegante nas formas esbeltas e delicadas e nas linhas esguias e pro\u00acporcionadas do corpo. De quando em quando, dava a m\u00e3o ao irm\u00e3o\u00aczito, ao pai, ao tio D. Fernando ou a outros familiares \u2014 e fazia-o com gra\u00e7a e formosura, dan\u00e7ando \u00e0 ca\u00acd\u00eancia r\u00edtmica de sons musicais. Ao toque de suaves instrumentos de corda, as dan\u00e7as n\u00e3o iriam, al\u00e9m de alguns passos lentos, que o par dava frente a frente, segurando-se mutuamente por uma das m\u00e3os, com mesuras e cumprimentos.<br \/>\nA filha do \u00abAfricano\u00bb sabia cul\u00activar em si a alegria s\u00e3, para a par\u00actilhar com os demais; \u00e9 esta uma forma admir\u00e1vel de caridade. Pode\u00acria sofrer interiormente; mas sen-tia-se em paz e procurava ser su\u00acperior a tudo o que a perturbasse, porque tinha a certeza de que Deus, presente na sua consci\u00eancia, era a sua imensa alegria.<br \/>\nA Princesa, que ia nos 15 ou 16 anos mas parecia de mais idade n\u00e3o s\u00f3 pela estatura como principalmen\u00acte pela gravidade senhoril, pela pru\u00acd\u00eancia e pelo saber, continuava a aborrecer muito de quanto via e ouvia, para concluir ser ef\u00e9mera a vaidade deste mundo e imensa a gl\u00f3ria do outro. Por isso, fora das ocasi\u00f5es em que o Rei e o Pr\u00edncipe vinham ter com ela, D. Joana acabou por n\u00e3o permitir que, em sua casa, se fizessem jogos e represen\u00acta\u00e7\u00f5es de farsas; era uma maneira de se libertar das banalidades da vida. E n\u00e3o s\u00f3; com sabedoria e prud\u00eancia, orientava e governava as suas damas e donzelas. O \u2018Espelho de Cristina\u2019, livro que sua m\u00e3e mandara traduzir, servir-lhe-ia de ro\u00acteiro favorito. Tinha raz\u00e3o D. Afon\u00acso V para se rever na filha; desva\u00acnecido com os elogios que dela se faziam, decidira efetivamente entregar-lhe as joias e os adornos que haviam pertencido \u00e0 rainha D. Isabel e conceder-lhe ampla autoridade no governo do pa\u00e7o de S. Crist\u00f3v\u00e3o.<br \/>\nNa esperan\u00e7a de que, por sua filha, o Reino fosse mais exaltado, prosperasse pacificamente e vivesse em conc\u00f3rdia com as outras na\u00e7\u00f5es, o monarca expunha-lhe frequentemente projetos de casamento, por\u00acque reis e pr\u00edncipes a demandavam para si e para os seus reinos. As alian\u00e7as com Portugal eram dispu\u00actadas, numa \u00e9poca em que o nosso Pa\u00eds adquirira prest\u00edgio e fama; des\u00acde o tempo de D. Jo\u00e3o I que a gesta mar\u00edtima e africana atra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o dos outros povos. Que ad\u00acmira, pois, que as princesas de Portugal fossem preferidas? Como es\u00actamos longe desse tempo \u2014 e ainda bem! \u2014 Em que os pais e os fami\u00acliares planeavam os casamentos, desde o nascimento das crian\u00e7as, e em que se realizavam os esponsais na mais tenra inf\u00e2ncia!&#8230;<br \/>\nDelicadamente D. Joana retor\u00acquia ao pai sentir desgosto em ou\u00acvir falar desse assunto, pois o que sobre tudo pretendia era servir e oferecer-se ao Rei e Senhor que, mais do que ningu\u00e9m, desejava e amava. Na Princesa, o amor con\u00acsagrava-se a um ideal superior, bem vivo, que era Cristo \u2014 esse Cristo que, nascendo da Virgem Maria, se tornou verdadeiramente um de n\u00f3s, semelhante a n\u00f3s em tudo, exceto no pecado. E, quando algu\u00e9m se en\u00actusiasma por este ideal, \u00e9-lhe de\u00accerto exigido, por \u00edntima autode-termina\u00e7\u00e3o, o afastamento de mui\u00actas coisas, mesmo leg\u00edtimas, mas nunca a ren\u00fancia ao amor, o qual ser\u00e1 ainda mais puro em dedica\u00e7\u00e3o total. As p\u00e1ginas secretas da vida de muitos homens e de muitas mu\u00aclheres, que nesta linha sublimaram o amor, s\u00e3o o que h\u00e1 de mais reful\u00acgente na sua hist\u00f3ria particular; te\u00acmos em D. Joana um magn\u00edfico exemplo.<br \/>\nConcretizando no dia-a-dia aque\u00acle desejo e aquele amor, a filha do \u00abAfricano\u00bb repetia e alongava os tempos de ora\u00e7\u00e3o e dava-se ocul\u00actamente a disciplinas. Aprendeu mesmo a rezar o of\u00edcio divino das horas can\u00f3nicas, industriada por Frei \u00c1lvaro Gon\u00e7alves, seu capel\u00e3o, homem de muita prud\u00eancia e de grande espiritualidade. E tanto se deixava inflamar pelo amor a Deus que, desde os anos mo\u00e7os, derrama\u00acva l\u00e1grimas e suspirava ao ler e meditar a paix\u00e3o de Cristo, como se presente o visse chagado e padecer. Merecia-lhe especial ternura o pas\u00acso em que o Senhor, descido da cruz, foi posto no rega\u00e7o de sua M\u00e3e.<br \/>\nApoderada de tais sentimentos, a Princesa escolheu para seu emblema \u2014 como que a demonstrar o que profundamente vivia \u2014 a coroa de espinhos, que fez bordar nos repos\u00acteiros, pintar nas portas e gravar nas joias.<br \/>\nEm Santa Joana, o amor era verdadeiramente doa\u00e7\u00e3o, \u00edntima uni\u00e3o, fus\u00e3o total; por isso, ela par\u00actilhava dos sofrimentos de Cristo&#8230; e t\u00e3o voluntariamente que mal ava-liamos o requinte do mesmo amor. Informa a bi\u00f3grafa que, todos os dias; desde a mocidade, sempre des\u00actinou uma hora para, de rosto por terra e com l\u00e1grimas nos olhos, es\u00actar sozinha a reviver as dores de Cristo e a repetir as suas angustio\u00acsas palavras. Apaixonada por Ele, confessava-se e comungava ami\u00fade. Era efetivamente em Cristo que a Princesa descobria Aquele que lhe trazia a liberdade baseada na ver\u00acdade. Ela pr\u00f3pria estava a dar um admir\u00e1vel testemunho disto mesmo porque, gra\u00e7as a Deus e em Cristo, alcan\u00e7ava a verdadeira liberdade e a manifestava com firmeza volun\u00actariosa.<br \/>\nEncontra-se nesta linha a peni\u00act\u00eancia que fazia no meio das facili\u00acdades do pa\u00e7o, t\u00e3o secretamente que ningu\u00e9m suspeitava; e tudo amoro\u00acsamente realizava, oferecendo-o ao Senhor pela conversa\u00e7\u00e3o dos peca\u00acdores.<br \/>\nNas suas reflex\u00f5es, \u00e0 sombra do mist\u00e9rio da Cruz, como a Princesa deveria pensar tantas vezes na ins\u00actabilidade das grandezas e na in\u00acconst\u00e2ncia dos afetos humanos! Recordaria o triste destino do seu tio-av\u00f4, o Infante D. Fernando, que ca\u00edra do conforto da vida palacia\u00acna na imund\u00edcie de uma masmorra onde, coberto de parasitas e de cha\u00acgas, limpava as cavalari\u00e7as do rei de Fez. Pensaria em sua av\u00f3 paterna, a rainha D. Leonor, obrigada a dei\u00acxai o Pa\u00eds onde fora soberana, pa\u00acra se acolher sob a caridade dos seus, em Castela, sem marido e sem filhos. Lembraria a av\u00f3 materna, a duquesa de Coimbra, que, encerra\u00acda no pa\u00e7o, chorava a morte violen\u00acta do marido e o ex\u00edlio dos filhos. A Princesa compararia tudo isto e saberia avaliar o sofrimento da pr\u00f3\u00acpria m\u00e3e. Como eram ilus\u00f3rias as grandezas mundanas e enganadora a felicidade humana!&#8230; Como tudo, de repente, se desvanecia!&#8230; Em si\u00acl\u00eancio, refletia&#8230; e o seu esp\u00edrito buscava certezas em Deus \u2014 o Amor que ela amava e a Vida que ela vivia.<br \/>\nAfei\u00e7oando-se singularmente a duas senhoras do pa\u00e7o \u2014 uma, tal\u00acvez M\u00edcia de Siqueira, muito devota e recolhida, zelosa do bem e dada a todas as virtudes, e a outra, Bri\u00actes Alvares, sua camareira, de gran\u00acde entender e discri\u00e7\u00e3o e em tudo muito avisada \u2014 come\u00e7ou a desco\u00acbrir-lhes os \u00edntimos desejos do seu cora\u00e7\u00e3o e a consult\u00e1-las em segredo, sob condi\u00e7\u00e3o de guardarem sigilo sobre o assunto de tais conversas. Tamb\u00e9m a um criado, que tinha si\u00acdo da rainha, homem de idade que com ela ficara e vivia, prudente e reservado, e que seu pai lhe dera como principal tesoureiro de toda a sua fazenda e j\u00f3ias, ela o tomou e fez seu tesoureiro nas coisas es\u00acpirituais.<br \/>\nEm certa ocasi\u00e3o, D. Joana man\u00acdou a este criado que procurasse e adquirisse secretamente uma quan\u00actidade de \u00e1spera estamenha e a con\u00acfiasse a uma daquelas mulheres. A estas ordenara a Princesa que, sem perda de tempo, fizessem umas ca\u00acmisas com aquela grosseira e tortu\u00acrante l\u00e3, para as usar, como peni\u00act\u00eancia, por baixo dos amplos e ri\u00accos vestidos, lavrados a ouro e seda; sendo elas bem cingidas ao corpo e de mangas curtas, ningu\u00e9m as per\u00acceberia. Al\u00e9m disso, jovem elegante, embelezada com belos colares e firmais de muita pedraria, atormen\u00actava-se voluntariamente com mor\u00acdentes cil\u00edcios, que levava com sa\u00accrif\u00edcio e amor.<br \/>\nEra assim um dos aspetos da ascese crist\u00e3 desses recuados tem\u00acpos. N\u00e3o se pretende sequer fazer um ju\u00edzo sobre tal modo de proce\u00acder; at\u00e9 seria erro se hoje, com a forma\u00e7\u00e3o e as coordenadas da nos\u00acsa \u00e9poca, se julgassem costumes dos s\u00e9culos passados. Cada gera\u00e7\u00e3o tem a sua mentalidade e os seus h\u00e1bitos pr\u00f3prios, e estes s\u00e3o a manifesta\u00e7\u00e3o concreta, mais ou menos perfeita, das consci\u00eancias e da vida de f\u00e9 em Deus e de rela\u00e7\u00e3o dos povos e das pessoas. Atualmente a pr\u00e1tica ser\u00e1 outra; oxal\u00e1 ela testemunhe veri\u00acdicamente o mesmo cristianismo em\u00acpolgante e sincero, O que Santa Joana fazia, porque repetido por diversas formas, significava efetiva\u00acmente a manifesta\u00e7\u00e3o do \u00edntimo de uma pessoa, possu\u00edda de um grande ideal, que desejava sofrer com Cristo.<br \/>\nDecerto.., possu\u00edda de um gran\u00acde ideal!&#8230; Mas n\u00e3o havia maneira de, em definitivo, o concretizar&#8230; Crescia na vida, continuando firme na vontade de se realizar no claus\u00actro&#8230; Por\u00e9m, n\u00e3o via abrir-se-lhe o caminho&#8230; Rapariga que em Deus punha a sua esperan\u00e7a \u2014 e esta esperan\u00e7a n\u00e3o a iludia, antes a enco\u00acrajava \u2014 rogava-Lhe, com ora\u00e7\u00f5es, jejuns e vig\u00edlias, que lhe concedesse a gra\u00e7a da consecu\u00e7\u00e3o de um t\u00e3o almejado fim. Ele chegaria.., mas quando?&#8230; O seu orat\u00f3rio particu\u00aclar, onde sempre tinha acesa uma pequena lamparina, era testemunha de tantas horas, diurnas e noturnas, sem ningu\u00e9m dar por isso. Mais ainda. Mandou que debaixo da sua c\u00e2mara, onde havia uns sobrados, se fizesse uma pequena porta e uma escada de al\u00e7ap\u00e3o para um deles e ai se pusesse uma cama pobre e simples, dizendo ser para a secret\u00e1ria, porque n\u00e3o queria que perce\u00acbessem ser para ela; esta cama era muito dura, e por len\u00e7\u00f3is tinha umas \u00e1speras cobertas de l\u00e3. A cro\u00acnista, que tal relata com min\u00facia, acrescenta: \u2014 \u00abO Senhor Deus to-do-poderoso sabe e \u00e9 testemunha que tudo isto, que aqui \u00e9 escrito e dito desta Senhora, sua serva, \u00e9 ver\u00acdadeiramente dito\u00bb.<br \/>\nDessa forma, todos julgavam que a filha do monarca repousava no aconchego dos seus aposentos e que descansava numa cama g\u00f3tica com bom colch\u00e3o e bons cobertores, com uma colcha enriquecida por fios de ouro e com um dossel e seus cortinados a condizer. Por\u00e9m, n\u00e3o acontecia assim: as horas do sono passava-as num humilde comparti\u00acmento inferior, de paredes nuas, e sobre uma dura cama.<br \/>\nTodavia, n\u00e3o se pense que San\u00acta Joana apenas vivia a espirituali\u00acdade crist\u00e3 numa constante mortifi\u00acca\u00e7\u00e3o corporal e em momentos de ora\u00e7\u00e3o recolhida e secreta. De for\u00acma nenhuma. A f\u00e9, que celebra as maravilhas do Criador e Pai, ali\u00acmentando-se da Palavra de Deus, necessariamente conduz, pelo dina\u00acmismo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, \u00e0 pr\u00e1tica do amor. N\u00e3o podendo exercer a caridade diretamente por n\u00e3o lho permitirem as circunst\u00e2ncias e a mentalidade do tempo, mas expri\u00acmindo naturalmente a autenticidade da f\u00e9, ordenava que se cumprissem as obras de miseric\u00f3rdia, se vestis\u00acsem os pobres, se visitassem os pre-sos e os doentes e se ajudassem os desamparados, os peregrinos e os estrangeiros. Todos os dias, pro\u00accurava informar-se junto do criado, atr\u00e1s referido \u2014 a quem confiava os segredos da sua vida e a quem en\u00accarregara da caridade \u2014 a quantos e a quais pessoas distribu\u00edra as es\u00acmolas.<br \/>\nPorque o crist\u00e3o se mostra nas obras que faz, estas a\u00e7\u00f5es da Prin\u00accesa eram a melhor express\u00e3o do seu ser e do seu pensar. Amava so\u00acbretudo a Deus, que era o primeiro a am\u00e1-la, e procurava cultivar em todas as circunst\u00e2ncias a vida es\u00accondida com Cristo em Deus; mas era precisamente desta viv\u00eancia que dimanava e nela se estimulava o amor do pr\u00f3ximo.<br \/>\nBelo modelo de quem serve a Deus, n\u00e3o esquecendo os irm\u00e3os ou antes, de quem ama a Deus presente nos pobres e desprotegi\u00acdos!&#8230; Como grande obra de cari\u00acdade tamb\u00e9m se pode considerar as atitudes firmes que a Princesa toma\u00acva para o bom governo do pa\u00e7o. So\u00acbre todas as coisas trabalhava pela paz e conc\u00f3rdia, n\u00e3o consentindo no pa\u00e7o e mandando castigar asperamente todas as palavras de inj\u00fa\u00acrias e malqueren\u00e7as. Anotando o facto, a cronista assim conclui: \u2014 Grande gra\u00e7a e virtude tinha o Se\u00acnhor Deus posto nas palavras desta Senhora, que os inimigos e malque\u00acrentes vinham \u00e0 conc\u00f3rdia e \u00e0 boa paz.<br \/>\nA semana santa constitu\u00eda para D. Joana como que um resumo concentrado do programa do seu viver. Em todos os dias guardava recolhido sil\u00eancio; desde quarta-fei\u00acra n\u00e3o falava mesmo nada e passava o tempo em ora\u00e7\u00e3o e jejum; na quinta e sexta-feira, s\u00f3 se alimen\u00actava a p\u00e3o e \u00e1gua; na quinta-feira santa, \u00e0 noite, seguindo o mandato e o exemplo de Cristo, ordenava ao secret\u00e1rio que, sem lhes dizer para onde vinham, lhe trouxesse doze mulheres, as mais estrangeiras, po\u00acbres e miser\u00e1veis, a quem ela, na c\u00e2mara secreta, de joelhos e por si mesma, lavava os p\u00e9s e as m\u00e3os, os limpava e os beijava; por fim, ves\u00actia-as a todas largamente e dava-lhes dinheiro para alimenta\u00e7\u00e3o e cal\u00e7a\u00acdo. As mulheres, t\u00e3o carinhosamen\u00acte tratadas, eram levadas sem sabe\u00acrem quem tinha sido a benfeitora.<\/p>\n<p>N\u00e3o era de admirar que, possu\u00edda profundamente por um t\u00e3o sublime e empolgante ideal, recebido da mi\u00acseric\u00f3rdia de Deus, a jovem Prin\u00accesa seguisse o rumo da consagra\u00ac\u00e7\u00e3o religiosa na Ordem de S. Do\u00acmingos. N\u00e3o era de admirar e era de prever. E foi aqui, neste Mos\u00acteiro de Jesus, que ela viveu desde 1472 at\u00e9 \u00e0 morte, ocorrida \u00e0s duas horas da madrugada de 12 de Maio de 1490. Evoquemos os \u00faltimos mo\u00acmentos, vividos na sala do lavor, no primeiro andar desta casa.<br \/>\nA certa altura, a Princesa, ja\u00aczendo no leito de enferma, fez esfor\u00e7o por se erguer um pouco, le\u00acvantou os olhos brilhantes, olhou as religiosas em redor de si e fitou o Crucifixo, que o padre confessor empunhava diante dela. Num am\u00acbiente de luz morti\u00e7a e no meio da escurid\u00e3o da noite, era o \u00faltimo clar\u00e3o de vida, O rosto transforma\u00acra-se-lhe, colorindo-se de rosa e retomando a perfei\u00e7\u00e3o das antigas fei\u00ac\u00e7\u00f5es, a todas as presentes se afigu\u00acrava tornar a ver o que ela fora meses atr\u00e1s. Entretanto, os l\u00e1bios pareciam rezar levemente.<br \/>\nQuando Frei Jo\u00e3o Dias \u2014 o prior do vizinho convento domini\u00accano \u2014 invocou os Santos Inocen\u00actes na ladainha do Of\u00edcio da Ago\u00acnia, a Princesa deixou cair as m\u00e3os que erguia para a Cruz e fechou os olhos \u2014 aqueles formosos olhos que, por segundos, haviam recupe\u00acrado a tonalidade verde \u2014 e passou para o Al\u00e9m, com um indel\u00e9vel sor-riso a inundar-lhe a face; fora de\u00acfinitivamente encontrar-se com o Senhor, que sempre amara e por quem tanto sofrera. Contava ape\u00acnas 38 anos e quatro meses de idade.<\/p>\n<p>Aos olhos do mundo, ter\u00e1 per\u00acdido a pr\u00f3pria vida; mas, sob o pris\u00acma da f\u00e9, adquiriu aquela verdadeira vida que alcan\u00e7a as profundezas da Eternidade. \u00c9 que, como S. Paulo, a Princesa sempre considerou todas as coisas ef\u00e9meras como preju\u00edzo, perante a enorme vantagem de conhecer e de viver Jesus Cristo; por Ele aceitou todos os danos e con\u00acsiderou tudo como lixo. Mas ganhou Cristo e n\u2019Ele se encontrou.<\/p>\n<p>Vendo que D. Joana havia fale\u00accido, Frei Jo\u00e3o Dias interrompeu a ladainha; em modo de coment\u00e1rio, os padres, al\u00e7ando as m\u00e3os ao C\u00e9u, exclamaram: \u2014 Com os Santos Inocentes se foi.<\/p>\n<p>A finalizar, lembro o derradeiro pedido que a moribunda fez \u00e0 prio\u00acresa do Mosteiro: \u2014 Madre, rece\u00acberia em muita caridade e consola\u00ac\u00e7\u00e3o, se a v\u00f3s e \u00e0s irm\u00e3s aprouver, o meu corpo ser enterrado no coro de baixo e ir vestido neste santo h\u00e1bito. Sempre desejei naquele local ser a minha cova e morada, para que as minhas irm\u00e3s tenham raz\u00e3o, vendo, a se lembrarem de mim; eu o hei de ser delas e desta Casa.<\/p>\n<p>Efetivamente, o art\u00edstico t\u00famu\u00aclo marm\u00f3reo leva-nos a recordar a vida e a pessoa de Santa Joana Princesa, tornada aveirense em sua livre escolha e devo\u00e7\u00e3o; ela, por sua vez, como celeste protetora e padroeira, n\u00e3o esquecer\u00e1 quem a recorda. As\u00acsim o prometeu.<\/p>\n<p>Que este interc\u00e2mbio, em quase m\u00fatua saudade, fa\u00e7a que n\u00f3s \u2014 ainda peregrinos da Eternidade nes\u00acta terra de passagem \u2014 vivamos pa\u00acra Cristo, morto e ressuscitado por nosso amor. Oxal\u00e1 que, pela gra\u00e7a de Deus e na realiza\u00e7\u00e3o concreta da nossa voca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, sigamos aquele ideal que levou Santa Joana a servir-se das coisas caducas deste mundo para alcan\u00e7ar os bens impe\u00acrec\u00edveis da vida sem fim.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar<br \/>\nSetembro\/2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Mons. Jo\u00e3o Gaspar SANTA JOANA PRINCESA, TORNADA AVEIRENSE EM SUA LIVRE ESCOLHA E DEVO\u00c7\u00c3O, N\u00c3O ESQUECER\u00c1 QUEM A RECORDA N\u00e3o foi temeridade da minha par\u00acte; anui num sentido de aut\u00eantico servi\u00e7o e de sincera<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/2015\/01\/20\/o-ideal-de-uma-princesa-breve-biografia\/\"> Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":97,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/santajoana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}